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O Exorcista

Por que revê-lo no cinema? (texto de 2001)

Por Luiz Joaquim | 14.05.2018 (segunda-feira)

– publicado originalmente em 2 de março de 2001 no site Tô na boa

Não há nenhuma outra forma mais honesta de assistir O Exorcista (The Exorcist, EUA, 1973) do que numa sala de cinema. Por mais bem equipado que seja seu home-theater, não haverá tanta adequação quanto uma sala escura, com pé-direito alto, projetando, sem interrupções de nenhuma sorte, fotografias em movimento combinadas com som dolby digital dividido em mais de seis canais. No caso deste filme de William Friedkin, ganhador do Oscar de efeito sonoro e roteiro, a premissa se torna obrigatória considerando que o relançamento da obra, estreando hoje (02.mar.2001), vem com cenas excluídas da primeira versão (como a que Linda Blair desce as escadas como uma aranha), e som com novos efeitos.

Houve uma certa decepção do grande público quando anunciaram que O Grande Golpe (The Sting), de George Roy Hill, levaria a estatueta de melhor filme, há 24 anos. Isso porque O Exorcista concorria como mais forte candidato (os outros eram Gritos e Sussurros, Loucura de Verão e Um Toque de Classe). Até então, nunca um filme de horror havia solicitado tanto esforço de tantos especialistas nas diversas áreas do cinema (maquiagem, som, fotografia, efeitos especiais, etc.); causando tamanha comoção no espectador comum.

Baseado no livro de William Peter Blatty (e roteirizado pelo próprio), O Exorcista apresentava, pela primeira vez, uma história séria que mostrava uma nova perspectiva sobre a fé no conceito do catolicismo. Vindo do recente sucesso Operação França, o diretor Friedken dizia que queria mostrar o bem através do mal. Trazer à tona a maldade para mensurar o poder do bem. Para conseguir isso, tinha de expressar, da melhor forma possível, o poder do diabo em pessoa. Entre a equipe de produção, um especialista em exorcismo foi convidado para dar assistência técnica, de modo que nenhuma fala dita pelo padre jesuíta vivido por Max Von Sydow soasse inverossímil ou não-condizente com os preceitos da igreja.

Friedkin é lembrado pelos companheiros que trabalharam com ele como um ‘obcecado’ pelo resultado que queria obter em O Exorcista. Por isso cercou-se dos melhores técnicos para a concepção do filme. Friedkin chegou a convidar um padre real, e não um ator, para passar, na seqüência final, a extrema unção ao heroico personagem vivido por Jason Miller. Em busca da imagem perfeita, essa tomada foi refeita 50 vezes numa fria madrugada nas ruas de Georgetown.

Para a escolha de Linda Blair, a época com 12 anos, foram feitas cansativas seleção com mais de 30 jovens atrizes. Blair precisava passar por até quatro horas de maquiagem para entrar no set. Durante as tomadas em que ela estava possuída, quatro potentes aparelhos de ar-condicionado aclimatavam o ambiente com a temperatura entre zero e dez graus Celsius. Friedkin já disse que hoje, o efeito visual da temperatura fria, indicada pelo ar quente saindo da boca dos atores, poderia ser desenhada pela computação gráfica, mas há quase três décadas isso seria muito dispendioso. Esfriar o set era mais barato.

Em algumas seqüências, nas quais o esforço físico não condizia com a estrutura de Linda Blair (como numa briga com o padre Karras e sua mãe, vivida por Ellen Burstyn), a atriz era substituída por uma dublê com o dobro de sua idade. Mas Blair estava quase na totalidade das cenas do filme. Hoje mulher madura, Blair relembra que a produção encontrava ótimas soluções para resolver o dilema de como ordená-la a encenar situações e proferir falas incomuns para uma garota de 12 anos. Na simulação da masturbação com o crucifixo, por exemplo, a equipe colocou uma caixa entre suas pernas e a ordenou que apenas golpeasse o caixote com o crucifixo. Como a cena a enquadra de costas, o efeito visual é o de uma doentia masturbação.

Num determinado confronto entre a menina Regan (Blair) e o padre de Von Sydow, ela diz que a mãe dele estava no inferno, e passava o dia inteiro chupando p..  Von Sydow sabia da fala, mas ficou tão consternado ao ver uma menininha lhe dizendo aquilo que pediu para interromper as filmagens por um instante. Quando perguntavam a Blair se não ficava envergonhada pelos diálogos que precisava falar, ela respondia não, pois não era ela que os dizia, e sim sua personagem.

REPERCUSSÃO – Depois de um ano de produção, o filme foi exibido numa sessão cabine para os altos executivos da Warner que não tinham a menor ideia no que iria dar tanto investimento e boa fé colocado em O Exorcista. Terminada a projeção, um deles ficou tão impressionado com o conteúdo que chegou a cogitar o engavetamento da película, suspender o lançamento do filme. Friedkin os convenceu o contrário, mas o filme estreou tímido. Em Nova York, entrou em apenas uma sala. Mas logo chamou a atenção da mídia pelas longas filas que davam voltas no quarteirão do cinema.

William Peter Blatty, que verificou as primeiras sessões abertas, observou que muitas pessoas saiam no meio da projeção passando, literalmente, mal. Outras saiam rezando. Ele pensou que isso era um mau sinal e que o filme fracassaria no gosto do público, mas aconteceu exatamente o contrário. Também houve retaliações. Um senador norte-americano chegou a fazer um discurso condenado o filme como uma obra do próprio demônio, e solicitando seu recolhimento das salas de cinema.

O fato é que, por trás de um árduo trabalho em conjunto, estava o talento de Friedkin que conduziu as filmagens com mão de ferro e aproveitou ao máximo o roteiro conciso de Peter Blatty; com diálogos de crescente suspense, sem frases de efeitos; que tanto permeiam os filmes atuais. Frases geralmente prontas e vazias, ditas apenas para impressionar com sua densidade de um torrão de açúcar. Em O Exorcista acontece o contrário. Não há nada supérfluo. Não há excessos. Tudo está lá porque precisava estar. Uma obra de arte, enfim.

 

Pensamentos femininos e ballet  Os filmes Do Que As Mulheres Gostam, com Mel Gibson, e Billie Eliott chegam em caráter de pré-estréia.

Hoje e amanhã (02 e 03 de março de 2001) temos a pré-estréia, aberta ao público, de Do Que As Mulheres Gostam (What Women Want, EUA, 2000), de Nancy Meyers. Aqui, Mel Gibson é Nick Marshall, um excelente e charmoso criador publicitário que acorda um dia com o poder de ouvir o pensamento das mulheres. Sem saber se foi amaldiçoado ou abençoado, Nick resolve tirar proveito da situação para criar as melhores campanhas publicitárias que elas podiam imaginar. No meio disso tudo, ele conhece Darcy Maguire (a bela e competente Helen Hunt), que surge como um ‘perigo’ tanto para seu cargo como para seu coração.

Billie Elliott (que concorre a três Oscars: direção – Stephen Daldry; roteiro original e atriz coadjuvante – Julie Walters) introduz ao público o jovem ator Jamie Bell. Ele é um garoto filho de pobres mineradores em greve que vivem numa miserável Grã-Bretanha, e é obrigado pelo pai a fazer boxe quando na realidade sonha em aprender ballet. Mesmo sem apresentar nenhum indício por uma opção homossexual, Billie sofre o preconceito de uma cultura simplista que vê esta conexão com o ballet.

VÍDEO e TV – A boa para alugar na locadora é o DVD de O Exorcista, que traz (como bônus extra) um excelente documentário de 76 minutos produzidos pela BBC de Londres sobre todos os detalhes da produção deste filme, que chega aos cinemas em nova versão. Na TV paga, Alto Controle (Pushing Tin, EUA, 1999), de Mike Newell é a alternativa interessante da semana. Com John Cusack, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett e Angelina Jolie no elenco, ficamos conhecendo o mundo dos controladores de vôo, que é representado com drama e bom humor. Cusack é um controlador aéreo, considerado um excelente profissional pelos colegas. Porém, a chegada de um novo funcionário no aeroporto gera rivalidade e disputa entre os dois, que, além de estilos profissionais diferentes, possuem esposas de temperamentos opostos. No desenrolar da história, a complexidade dos relacionamentos humanos é abordada de forma bem divertida. No Telecine Premium (Net/Sky), às 21h30, na quarta-feira, dia 7 de março.

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