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Críticas

Espanglês

O cozinheiro, a mulher e a doméstica

Por Luiz Joaquim | 16.07.2018 (segunda-feira)

-publicado originalmente no jornal Folha de Pernambuco

A simpatia de Espanglês (Spanglish, EUA, 2004) começa pelo título, quando funde ‘Espanhol’ e ‘Inglês’ para suscitar o encontro de duas raças neste enredo que o cineasta James L. Brooks escreveu para ele mesmo dirigir. Apesar de toda comicidade e problemática que possa surgir entre pessoas que não falam a mesma língua, Brooks parece querer mesmo é aproveitar a incomunicabilidade de duas culturas para investigar, com extremo humor e leveza, três questões universais: (in)fidelidade conjugal, luta de classe social e, principalmente, a maternidade – já avaliado pelo diretor em Laços de Ternura (1983).

Para dar partida, o alvo de Brooks é John (Adam Sandler), e seus dardos são a esposa dondoca Débora (Téa Leoni, a jornalista de Impacto Profundo) e a doméstica mexicana Flor Moreno (a radiante Paz Veja, de Lúcia e O Sexo). São duas belas mulheres, cada uma com seus encantos. No meio delas, além de John, estão crianças em fase crítica, na formação de valores morais e auto-estima, e a velha alcoólatra mãe de Débora (Cloris Leachman, iluminada).

Com o humor fino que lhe é próprio, o diretor Brooks apresenta seu conto pela voz em off de Cristina (Shelbie Bruce) relembrando a infância e sua mãe Flor como a pessoa mais influente de sua vida. Como mote para conseguir uma bolsa numa universidade, Cristina descreve o cenário no qual amadureceu quando Flor trabalhava na casa de John É neste cenário onde Brooks refina o substrato das três questões mencionadas acima.

A fidelidade conjugal aparece, entre tantos momentos, num esplêndido Adam Sandler (lembrando a candura de Embriagado de Amor, 2003) como um Chef talentoso e sua absoluta incapacidade de cometer uma canalhice com a esposa e sua empregada, mesmo que isso signifique lhe negar o que mais deseja.

A infidelidade está numa obcecada Débora que busca prazer não só em outro homem (Thomas Haden Church, de Sideways) mas principalmente em sua aparência e na busca pelo corpo perfeito como forma de preencher o vazio de sua vida abastada e egoísta até quando transa com o marido (gerando, numa cena, o orgasmo feminino mais divertido do cinema).

A maternidade e a luta de classe aparece numa Flor preocupada com a educação da filha Cristina, exposta a uma realidade social que não corresponde a que lhe cabe, e na obcecada Débora que, sem nenhum tato maternal, humilha a filha obesa comprando roupas mais justas para que pareça mais elegante à vista dos outros.

Curioso que, postas as três questões, em palavras frias, o filme parece surgir sob um tom cinza. Mas, na realidade, a cor utilizada aqui por Brooks é a da alegria. Momentos como o que a velha aprende inglês com a empregada, ou quando Débora tenta pronunciar o nome de Flor, e vários outros são prova disso.  

Uma leitura político-guerrilheira do filme até pode ser feita a partir de “Espanglês”. É só comparar a dondoca Débora como os EUA arrogante e dominador e a empregada Flor como a América Latina subserviente e dependente. Subtrair, entretanto, apenas essa percepção deste delicado e maduro filme de Brooks seria, no mínimo, uma triste limitação chauvinista.

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