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Críticas

Chuva de Verão

Uma lolita melancólica

Por Luiz Joaquim | 28.08.2018 (terça-feira)

– publicado originalmente em 2001 no Jornal do Commercio (Recife)

As idiossincrasias próprias da passagem da infância para a adolescência carregam um peso comumente minizadas, esquecidas, por quem já deixou essa fase para trás há bastante tempo. Quando o cinema busca inspiração nessa fase da vida, costuma focar o lado cômico dos equívocos nos adolescentes que estão descobrindo o sexo. Alguns poucos filmes concentram-se no que há de mágico ou triste nessa descoberta. Chuva de verão (Rain, Nova Zelândia, 2001) em cartaz no Cine Apolo, está no segundo grupo.

Dirigido por Christine Jeff, a cor do filme é cor-de-rosa, sem que isso signifique frágilidade ou banalidade. Pelo contrário, Jeffs criou (a partir do romance de Kirsty Gunn) um lolita sensualmente perturbadora; se equilibrando numa corda entre a inocência infantil e a furiosa curiosidade sexual. A protagonista Janey, vivida pela menina Alicia Fulford-Wierzbicki, toma toda a tela com seu olhar melancólico e sua postura agressiva com Cady (Marton Csokas).

Cady é um fotógrafo vivendo num barco ancorado na praia onde Janey veraneia com a mãe, o pai e seu irmão pequeno. Enquanto a mãe da garota, movida a whisky, flerta descaradamente com Cady, Janey observa tudo, ao mesmo tempo em que tenta dissimular seu ciúme. A atmosfera do cenário é a dos anos 1970, quando o clima era o da liberação sexual. Em Chuva de verão negligenciadas crianças  agem como adultos e negligenciados adultos agem como crianças.

Com um olho apurado para traduzir em belas imagens (em cor e P&B) a sensualidade provocada pelo reflexo do sol de verão sobre a pele humana ou sobre paisagens, a diretora Jeffs conduz o desbravamento sexual de Janey com a densidade feminina que só uma mulher madura pode alcançar. Prova disso é a perspectiva visual que Jeffs nos dá sobre Cady, o obsessivo objeto de desejo da menina.

É certo que Chuva de verão talvez exceda um pouca a utilização do recurso de câmera-lenta no filme, soando inicialmente como um produto criado por uma realizadora embevecida com as possibilidades linguísticas do cinema, mas a delicadeza transmitida ao público na experiência final de Janey fecha a obra dando um sentido cruel (envolvendo “culpa”) para tudo pela qual a garotinha virando mulher passou a ainda vai passar em sua vida.

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