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Festivais

51. Brasília (2018) – noite 5 – “Bloqueio”

Filme ilustra o teatro de horrores pela qual se vive e se discursa (perigosamente) a política no Brasil

Por Luiz Joaquim | 19.09.2018 (quarta-feira)

BRASILIA (DF) – Brasil, o país das contradições. Isto, sabemos, desde muito tempo. Mas, há dois anos, uma contradição específica tem crescido de maneira assustadora e que merece muito estudo para ser contextualizada com mais precisão. Ela diz respeito ao desejo de um segmento da sociedade que propaga um pretenso desejo de uma intervenção militar, como algo divino, que aniquilaria definitivamente a corrupção endêmica nacional.

Na noite de ontem (18), o sexto longa-metragem exibido em competição – Bloqueio, de Quentin Delaroche e Victória Álvares (co-produção assinada entre Pernambuco e Rio de Janeiro), trouxe novos e pertinentes elementos que corporificaram essas contradições.

O tema no filme que serve para ilustrar e sugerir reflexão sobre esse discurso tão danoso para um país que encerrou há pouco mais de três décadas um período ditatorialista-militar bastante sangrento, é a greve que deixou o Brasil em estado de alerta há pouco mais de quatro meses.

Quando, em maio último, caminhoneiros decidiram fazer a maior paralisação da categoria já visto no país, Delaroche e Álvares pegaram uma câmera e foram a Seropédia (na Região Metropolitana do Rio de Janeiro), pela rodovia federal 116, para entender quais as reivindicações daqueles trabalhadores.

O filme pontua tais reivindicações e, do ponto de vista cinematográfico, por uma maneira bem interessante, trazendo conflitos e confrontos entre caminhoneiros ali paralisados e gente de fora do movimento, como a professora grávida que tenta travar um diálogo para chegar a um consenso.

A força, entretanto, que sobreleva-se em Bloqueio diz respeito a felicidade que seus realizadores tiveram em estar no lugar e hora certos e terem sabido aproveitar o que lhe caía a frente, criando possibilidades impressionantes de ilustrar a específica contradição que falamos no início do texto.

No, talvez, melhor momento do documentário, um caminhoneiro carioca se queixa a um militar sobre a postura de um outro militar, que supostamente saiu da linha.  Desprezado pelo segundo militar, que o deixa falando sozinho, o caminhoneiro logo condena a postura autoritária daquele, mas logo em seguida garante que só eles, os militares, é que podem resolver o país de hoje. “Não quero os militares no poder para sempre. Depois que eles acabarem com a corrupção, eles devolvem o país”.

Produtora Thais Vidal e diretores Victória Álvares e Quentin Delaroche

Em debate na manhã de hoje (19), os realizadores foram questionados sobre a possibilidade de uma maior contextualização no filme sobre a paralisação dos caminhoneiros, como por exemplo o lockout – quando o patronato sugere a paralisação de uma categoria, manipulando os objetivos do empregado – no processo daquela específica greve.

Questões à parte, Bloqueio soa como um retrato valioso para nos estimular a problematizarmos sobre este momento político tão intrinsicamente confuso e, pior, assustadoramente manipulável em que o Brasil está mergulhado.

* Viagem a convite de festival

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