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Reportagens

A grande aventura legendada

Tradutores brasileiros contam a saga de legendar filmes estrangeiros em até 34 caracteres por linha.

Por Luiz Joaquim | 07.12.2018 (sexta-feira)

– texto originalmente publicado no Jornal do Commercio (Recife), no ‘Caderno C’, em 18 de janeiro de 2001, quinta-feira. (Na foto acima, de Alexandre Sant’Anna, a tradutora Monika Pecegueiro do Amaral, quando em apuros recorre a um batalhão de especialistas).

Em determinada sequência do filme em cartaz Outono em Nova Iorque, Richard Gere caminha ao lado de Anthony LaPaglia pelas calçadas de Manhattan e confessa que transou com a ex-namorada no sótão da casa do amigo, enquanto Winona Ryder, a atual namorada, o aguardava na sala de baixo. LaPaglia vira-se para Gere e diz cristalinamente: “I’m sorry about what you did”. Quem já folheou qualquer cartilha de inglês no 2° grau entende que o amigo de Gere quer dizer: “Sinto muito pelo que você fez”, mas o que espectador desavisado lê nas legendas é: “Quem mandou você fazer isso?”.

Gere e Winona em “Outono em Nova Iorque” (2000)

Esse é apenas um exemplo entre os infindáveis casos da legendagem no cinema que faz o público um pouco mais atento questionar o porquê de profissionais de tradução derraparem na nacionalização de produções estrangeiras. O caso específico de Outono em Nova Iorque não é tão cabeludo ao ponto de interferir na lógica do enredo, mas certas pérolas são tão incoerentes que não respeitam o mínimo bom senso. Algumas são clássicas como a do filme Tomates Verdes Fritos, no qual aparece um jornal estampando a manchete: “Wife kills husband and sells his body parts to aliens”. Mesmo com a ilustração de um disco voador ao lado das palavras, o tradutor escreve: “Mulher mata marido e vende pedaços do seu corpo para o estrangeiro”.

Há 10 anos trabalhando nesse ramo, Monika Pecegueiro do Amaral explica que são vários os motivos pelos quais algumas legendas não se atêm às traduções literais ou, simplesmente, saem erradas. Uma das razões encontra resposta nas limitações de caracteres por cada linha de legenda (34 para o cinema. 30 para o vídeo). “É preciso um poder de síntese bastante afiado, o que muito aproxima meu trabalho com o ato de fazer poesia – minha paixão maior”.

“Por vezes, somos obrigados a resumir a ideia com uma construção oracional diferente da original, mas sem mudar sua essência, para que ela encaixe em 68 toques divididos em duas linhas”, diz. Entre os gêneros de sua predileção para trabalhar, Monika ressalta os desenhos da Disney justamente por desafiá-la a combinar métricas e rimas, “Muitas palavras precisam carregar um sentido triplo”, brinca.

Heloísa Martins Costa, que junto com Monika Pecegueiro e Paulo Frederico Costa formam a tríade mais respeitada dessa área no País, diz que outro detalhe que entrava a precisa tradução são os roteiros defasados que vêm acompanhados das fitas de serviço do filme a ser nacionalizado. “Alguns roteiros, de 50, 60 páginas, ainda indicam o primeiro tratamento que a história recebeu, antes de ser rodada. Quando acompanhamos a narrativa assistindo o filme, escutamos um personagem dizendo que vai encontrar outro às 10h e não às 9h, como está no papel. O mesmo acontece com quantias. O roteiro diz um valor e acontece de o ator falar outro. É preciso atenção para o erro não resvalar na legenda”.

TRAUMAS – Trabalhando, atualmente, com os filmes das distribuidoras Europa e Lumière, Heloísa ficou conhecida, no início da carreira, por traduzir muitos filmes europeus. Ela conta que a primeira experiência foi traumática. Em 1988, quando chegou do Velho Mundo, onde havia concluído sua pós-graduação na Universidade de Paris – Sorborne. Heloísa se apresentou ao Consulado Francês, no Rio de Janeiro, disposta a trabalhar como tradutora. O serviço que lhe deram foi nacionalizar os filmes de Jean-Luc Godard do acervo do consulado. E ela começou logo pelo verborrágico A chinesa. “Tinha um detalhe complicador. Os filmes eram em 16mm, o que reduzia a quantidade de caracteres de 34 para 23 por linha. Levei um mês para fazer o serviço e pensei em nunca mais trabalhar com isso”, recorda.

Outra experiência nada agradável aconteceu com Rápsodia em Agosto de Akira Kurosawa. O filme, falado em japonês, estava chegando para o antigo FestRio em 1991, e Heloísa tinha menos de três dias para traduzí-lo a partir de um tosco roteiro em inglês. Debruçada sobre o script por mais de 12 horas initerruptas, a tradutora trabalhou sem ver nenhuma imagem do filme, Heloísa lembra que não podia identificar qual o sexo dos atores apenas pelo nome dos personagens. O resultado é que na projeção, enquanto parte do elenco masculino falava, a legenda mostrava coisas do tipo: “Eu estou cansada”.

Para não cometer gafes, Monika Pecegueiro (fluente em inglês,espanhol e italiano) não hesita em procurar sua ‘rede de consultores’ ao encarar filmes de idiomas ‘exóticos’ como o chinês, o tailandês, ou o mandarim. “Com um decente roteiro guia em inglês, como o que acompanhava O caminho para casa, do chinês Zhang Yimou, a tradução saiu tranquila. Isso não aconteceu com o alemão Corra Lola, corra. Como tradução de tradução é uma coisa horrível (no caso do alemão para o inglês, e do inglês para o português), me vi na necessidade de convidar um amigo com proficiência em alemão para ajudar”, revelou.

Já que o detalhamento técnico de muitos filmes modernos requer uma linguagem peculiar, Monika também apela para profissionais de áreas específicas para aplicar o jargão que cada um costuma usar. “Essa adequação é o que diferencia uma tradução apenas correta para outra mais caprichada”. Em Maré Vermelha, por exemplo, ela trabalhou assessorada por um comandante da Marinha do Brasil.

Apesar da pós-graduação na Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia, Monika não se sentiu à vontade para nacionalizar, sozinha, a versão contemporânea de Hamlet (filme de Michael Almereyda, com Ethan Hawke). “Mesmo transcorrendo nos dias de hoje, o filme falado num inglês arcaico, que requer extremo conhecimento da escrita de Shakespeare”. Para fazer o serviço a tradutora exigiu da distribuidora a colaboração de Márcia Martins, doutoranda em traduções de Hamlet para o português. “O resultado ficou lindo”, diz orgulhosa.

Já Heloísa sofreu na hora de transcrever para o nosso idioma as falas do iraniano Filhos do paraíso, de Majid Majidi. “O filme era falado no dialeto mais praticado no Irã, o farsi, e o roteiro em inglês só traduzia frases sem nexo. A solução foi ‘casar’ o sentido das falas observando a expressão dos atores”, recorda. Na contra mão das dificuldades a tradutora diz que filmes de ação, como os monossilábicos de Schwarzenegger, são os mais rápidos de traduzir. “Os diálogos são poucos e o barulho é muito”.

Ethan Hawke em “Hamlet” (2000)

QUALIFICAÇÃO – Além dos desenhos da Disney (distribuídas pelas Buena Vista), Monika Pecegueiro do Amaral nacionaliza os filmes da Columbia/TriStar, Lumière. Fox Warner e as produções da brasileira Conspiração (de Eu, tu, eles). Foi ela, por exemplo, quem colocou frases em espanhol nas imagens do documentário Pierre Verger – Mensageiro de dois mundos, de Lula Buarque de Holanda, para concorrer no Festival de Cuba. Lecionando aulas de tradução para cinema na pós-graduação da PUC-SP, Pecegueiro insiste que para obter sucesso nessa função, uma boa formação em literatura e um rico conhecimento em teoria linguística são imprescindíveis. “Além desses instrumentos fundamentais, o tradutor precisa de fluência na escrita. Somos como escritores que precisam contar uma bela história em português, e fazer jus aos grandes roteiristas como Woody Allen, Scorsese e tanto outros”, conclui.

Uma boa tradução requer cultura e educação.

O tempo ideal para uma tradução é de 20 dias, mas às vezes ela é realizada em apenas cinco. A maioria dos profissionais do setor é mal remunerada.

A condição ideal para o tradutor nacionalizar uma produção estrangeira reza que o filme venha acompanhado por uma fita em VHS e um roteiro guia em inglês, devidamente marcado com a ‘pietagem’. Este último termo se refere às indicações das partes pelo qual o rolo de um filme é dividido. Enquanto numa cópia de serviço de vídeo o time-cod situa a extensão da história pela contagem do tempo, no roteiro, o filme é dividido em feet (pê), facilitando a localização dos diálogos para o tradutor.

Para entender como esse indicador ajuda o profissional, basta saber que o londa Snatch – Porcos e diamantes, de 97 minutos, tem a pietagem de 9.208 pês. O filme dirigido por Guy Richards (com indecifráveis diálogos de Brad Pitt), está recebendo 1.446 legendas por Monika Pecegueiro do Amaral, para ser lançado em maio pela Columbia. “90% dos filmes nos chegam com essa condição de trabalho, o que nos possibilita trabalhar com poucas margens de erro”, diz a tradutora que hoje se ocupa com Beatles – Os reis do iê iê iê. O filme rodado por Richard Lester em 1964, será relançado pela Lumière no próximo dia 26, em cópia nova e som remasterizado.

Para Heloísa Martins Costa, “num mundo perfeito, teríamos 20 dias para traduzir um filme. Mas a realidade não é bem assim. Muitas vezes a cópia fica presa na alfândega e ela nos chega a cinco dias da estréia em todo País”. Depois do serviço feito, ela gosta de colocar o fillme para ‘dormir’ por 24 ou 48 horas. Ou seja, depois de dois dias de distanciamento, Heloísa torna a ver o filme de uma só vez para consertar possíveis incongruências da própria tradução. Atualmente, a profissional investe seu talento em Mansfield Park, de Patrícia Rozema, e Malena (estréia 2 de março), nova produção de Giuseppe Tornatore, que concorre ao Globo de Ouro 2001 de filme estrangeiro.

DINHEIRO – A frenética labuta dos tradutores de cinema no Brasil revela uma profissão mal remunerada em vista da demanda de especialização que o serviço requer. “Traduzir exige investimento em pesquisa, educação e profundo domínio da língua”, diz Pecegueiro. Em conformidade com a tabela do sindicato dos tradutores, a remuneração para cada parte de 10 minutos traduzidos em um filme para cinema é de R$ 80. Considerando a duração padrão de um longa em 100 minutos, o tradutor embolsa R$ 800 por filme. “Hoje, me dou o luxo de só trabalhar com uma média de 10 ou 12 filmes ano. Prezo pela qualidade do serviço”, diz Heloísa, que como a colega Pecegueiro, completa a renda mensal com outras atividades ligadas à tradução.

Festivais exigem trabalho em ritmo mais acelerado.

Depois de os tradutores escreverem a versão nacional dos diálogos de filmes estrangeiros, os textos seguem para os laboratórios que efetuam a legendagem. Duas empresas fazem o serviço no Brasil, a LaboCine, no Rio de Janeiro, e a Curt Alex, em São Paulo. Havia uma terceira no Rio de Janeiro, a Titra que esta retirando seus serviços do mercado. Por mais de trinta anos a Titra legenda vários fotogramas, um de cada vez, por um antigo sistema de carimbo ácido que retirava a gelatina do filme. Dessa maneira, as palavras apareciam na tela me forma de transparência.

A consolidada LaboCine com mais de 46 anos de experiência e a Curt Alex (atuando à 17 anos), realizam um processo otico sem que marque a cópia original. As legendas são fotografadas em uma película à parte, para depois uní-las a outras duas: a do filme original e a sonora. “Da união dessas três películas, saí uma banda positiva. Essa matriz vai servir para fazermos quantas cópias nacionalizadas for preciso”, explica o gerente comercial da Curt Alex, Sílvio Porto.

O que já é normalmente caótico fica insano nos casos dos festivais internacionais, cujo acervo de filmes estrangeiros pode chegar a mais de 300 títulos exibidos em poucos dias. Na última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Mostra SP), 190 longas e cerca de 90 curtas precisaram receber legendas. Nesses casos, o processo de legendagem precisa ser veloz e acontecer simultaneamente a projeção do filme. No Brasil, a marca Subtitling Online, da empresa Running S/C, está em boa parte destes festivais (Mostra SP, Brasília, Fica – GO, AnimaMundi – Rio/SP, Jean Rousch – SP, Festival Japonês – SP). Martina Manz da Subtitling, diz que a solução para a instantaneidade veio com a criação de um software (sugestivamente chamado de Transpotting) desenvolvido pela empresa. “Cada sala é equipada com um projetor de vídeo e um computador levando nosso programa que, além de ter comando de exibição de legendas em cinema, também pode ser usado pelos tradutores para editar os textos”, conta Martina.

A projeção dos diálogos previamente traduzidos aparece no rodape da tela em conformidade com a situação que ali aparece. Para trabalhar na Mostra SP 2000, a Subtitling arregimentou 12 tradutores fluentes em inglês, francês, espanhol, alemão e russo. Além disso, mais 25 profissionais ficaram responsáveis pelo apoio técnico e liberação das legendas durante as exibições.

Se na legendagem padronizada o período ideial para ‘nacionalizar’ um longa é de 20 dias, Martina salienta que na legendagem dos festivais três dias já seria maavilhoso, mas nem sempre sua equipe dispõe desse tempo. “Na Mostra SP, recebi um filme às 14h e ele seria exibido às 20h do mesmo dia. Foram quase duas mil legendas. Até hoje eu me espanto por ter conseguido. Acho que é o pique de Mostra, a energia muito positiva que rola, para que tudo dê certo”, encerra. (L.J.)

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