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Festivais

3. Mostra Sesc (2019) Parque Oeste – Estrangeiro

A luta pela sobrevivência e justiça em Goiás, e a busca por si mesmo na Paraíba.

Por Luiz Joaquim | 08.11.2019 (sexta-feira)

– Cecília Retamoza em cena de Estrangeiro, de Edson Lemos Akatoy

PARATY (RJ) – A 3a Mostra Sesc de Cinema continua com sua missão de apresentar uma cinematografia tão diversificada geograficamente quanto distinta em suas proposições temáticas e estética.

Na tarde de ontem (7), este contraste foi bem marcado pela exibição de dois programas. O ‘Panorama Brasil: Centro Oeste’ e o ‘Panorama Brasil: Nordeste’. No primeiro, o curta-metragem Quilombo mata cavalo, de Jurandir Amaral, mostrou despretensiosamente o cotidiano, a cultura e a luta da comunidade quilombola que dá título ao filme em Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, para legalizar as terras herdada de seus antepassados. O projeto foi fruto do vitorioso ‘Revelando os Brasis’, criado pelo Governo Federal em 2004 como parte de um processo maior da democratização do audiovisual no País.

Colado ao filme quilombola exibiu o longa-metragem Parque Oeste, de Fabiana Assis (de Goiânia). O documentário, dividido esteticamente em duas partes distintas, apresenta primeiro o contexto histórico do assentamento no Parque Oeste. Uma região esquecida pelo governo de Goiás e que antes era mais “utilizada” como local de desova de corpos assassinados.

Após estímulo do próprio governador de então (2005), Marconi Perillo, os assentados contraíram dívidas com o banco para construir suas próprias casas de alvenaria com a promessa de que aquela terra seria deles.

Parque Oeste, o filme, ganha ares de tensão e terror real quando se dedica a mostrar imagens de câmeras amadoras feitas por vários moradores da região no momento da fatídica invasão policial sob ordem do mesmo governo que lhes prometeu as terras, resultando em duas mortes (até onde se sabe), diversos feridos e um longo trauma em todos os envolvidos.

A própria imprecisão e tremulação das imagens somadas ao que se ouve das vitimas durante a invasão são o que há de mais rico nesse registro, validando o filme como um necessário documentário.

Numa segunda parte, Parque Oeste concentra-se em Eronilde, viúva de uma das vítimas morta pela brutalidade policial que toca sua vida agora no condomínio Real Conquista e segue como uma líder comunitária em busca de melhorias sociais para a comunidade.

Cena de “Parque Oeste”

Neste ponto, Fabiana Assis deixa claro o quanto de transformador para Eronilde foi o ocorrido em Parque Oeste, transformando-a numa incansável batalhadora social. Mas o filme também opta por construir uma estrutura mais tradicional ao contar esse novo momento de sua vida. Tal estrutura, contrastada com a primeira parte, acaba por ser prejudica ao diminuir a energia de urgência com a qual iniciou.

Já o ‘Panorama Brasil: Nordeste’ apresentou o paraibano Estrangeiro, de Edson Lemos Akatoy. Dono de um rigor técnico notável (pelo som e pela imagem), o longa-metragem parece apenas pecar pelo excesso. Um dos elementos concretos que exemplifica isso é a inserção por três vezes da melodia de First Gymnopédie, do Erik Satie.

A reiteração também soa presente numa espécie de exacerbada exploração das imagens da natureza, que extrapolam, ou melhor, saturam seus significantes, ainda que bem encadeadas e lindamente fotografadas. O fio narrativo aqui segue Elisabete (Cecília Retamoza) que, adulta, volta à praia paraibana de Tabatinga, onde viveu a infância.

O reencontro com o ambiente natural e com pessoas preciosas acionam na estrangeira questões sobre identidade e o seu lugar no mundo, tendo a saudade – termo difícil de explicar – como uma corda com a qual poderia amarrar alguns pontos.

A mais óbvia e fácil relação que se tem feito entre este impressionante filme realizado como um Trabalho de Conclusão de Curso de Cinema da Universidade Federal da Paraíba é com a cinematografia de Terrence Malick. No Brasil, poucos cineastas ganham tal analogia em suas obras. Tome-se, portanto, como um elogio mas não como um troféu a ser repetido, e sim como um ponto de partida para se estabelecer uma identidade própria nos futuros trabalhos.

*Viagem a convite da Mostra

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