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Carta de amor sobre um curta-metragem

Guimarães: “O Senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo demais”.

Por Luiz Joaquim | 29.05.2020 (sexta-feira)

Nos anos 1990, numa data imprecisa em minha memória, vi o curta-metragem rio de janeiro, minas (1991), de Marily da Cunha Bezerra. Exibiu num programa dedicado à curtas-metragens, patrocinado pelo Unibanco (não tenho certeza), e foi levado ao ar pela TV Bandeirantes. Na verdade não vi o programa na hora em que foi exibido, pois tinha outro compromisso no mesmo horário. Eu havia programado o videocassete para gravá-lo.

Ver rio de janeiro, minas foi muito impactante, perturbador. Uma dessas (cada vez mais) raras descobertas as quais tanto precisamos para entendermos a gente mesmo, pela arte. Eu ainda não atuava como crítico de cinema, mas alimentava (desde sempre) a inquietação de querer compartilhar com gente querida as belezas que a mim chegavam.

De modo que, a época, escrevi um e-mail a dois amigos cuja admiração não dava pra mensurar (e que hoje tenho menos contato do que gostaria) – Guilherme Medeiros e Hermenérico Moraes. Escrevi na época, a pedido de um deles, para tentar descrever o meu encantamento pelo filme. Afinal, compartilhar filmes naquela época não era algo imediato como é hoje.

Segue abaixo, agora para o mundo, aquela carta e, ao final, o link de rio de janeiro, minas para quem quiser conferir.

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Para Guilherme Medeiros e Hermenérico Moraes

Obedecendo sua sugestão, vou tentar traduzir meu encantamento pelo filme.

É difícil, mas, pra começar, quando lembro de ‘rio janeiro, minas’ me vem logo à cabeça a palavra ‘honestidade’. O curta é de uma simplicidade comovente em sua produção. Mas nem por isso ele é pobre. Longe disso. As soluções que a equipe resolveu para dar movimento à história tem uma adequação e coerência perfeitas e são… honestas com as limitações da produção.  

Quando o vi pela última vez, guardei sua duração. Menos de 10 minutos!! Fiquei impressionado com o quanto me emocionei naquele espaço pequeno (pequeno?) de tempo. O quanto minha cabeça (ou coração?) tinha sido estimulado pela combinação da historinha sobre o nascimento de uma amizade com as imagens que aparecem na tela.

Acho melhor destrinchar o argumento para lhe situar melhor. O filme é baseado num trecho de Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, e mostra como um menino de 14 anos (interpretado por uma atriz adulta) – o Riobaldo – conhece o menino Diadorim (interpretado por outra atriz adulta).

Em econômicas e poderosas palavras e expressões, a gente fica sabendo como vai se intensificando o carinho de Riobaldo por Diadorim. Não só o carinho, mas também o conflito por gostar de outro menino (e o legal é que são duas atrizes bonitas levando a história).

O curta não tem diálogos. Tudo fica conhecido pela narração corretíssima, em off, de José Mayer. Correta porque é preguiçosa quando tem de ser (sem ‘parecer’ preguiçosa). É mansa quando tem de ser (sem parecer idiota) e é veemente quando precisa ser (sem parecer autoritário). A trilha, original, também participa ativamente no crescente da emoção. Por vezes ela substitui a tensão que as imagens não oferecem (mas não fica descasado não. Não fica incoerente. Não!! Uma coisa ajuda a outra. É muito certo nesse filme).

São várias melodias entoadas por um violão (quem será o músico?). Eventualmente entra a voz suave de uma mulher acompanhando a música (Olha aí gente!! Não vão pensar que é piegas heim !! Sei que vocês podem ficar tentados por conta dessa minha pobre descrição).

Fico pensando onde está concentrada a força do filme que me comove tanto. Se é na poesia contida pelo neologismo de Guimarães Rosa, ou se foi a mão certeira da diretora Marily da Cunha Bezerra quando combinou os ingredientes que formam seu trabalho..

O fato é que com ‘rio de janeiro, minas’ (assim, com minúsculas mesmo. Adoro isso!) Marily dá a impressão de que fazer um curta bacana é coisa muito simples – o que sabemos que não é. Acho que dessa forma, só fica mais evidente seu talento.

E mais, o curta dá vontade de reler Guimarães Rosa. Lembro que quando vi ‘Outras Estórias’ (que tem fotografia bela, mas, para mim, é só isso), de Pedro Bial, meu sentimento foi inverso. Só estimulava a idéia de que o texto de GR era chato (que crime!).

Acho que é isso.

Acho também que devo estar esquecendo de falar um monte de outras coisas.

 

Abaixo, algumas das falas que gosto muito em ‘rio de janeiro, minas’

“Por que eu precisei de encontrar aquele menino

Aquele menino…

Como eu ia poder deslembrar?”

 

“A amizade dele ele me dava.

e amizade dada não é amor?”

 

“Seus olhos, tão externos…

Quase tristes de grandeza.”

 

“Eu estava indo ao meu esmo.”

“O menino pôs a mão na minha.

Amanheci minha aurora”

 

“O que dá corpo ao suceder?”

 

“O Senhor sabe o que o silêncio é?

É a gente mesmo demais.”

 

O filme encerra revelando o que questionava no início.

Que a historinha não tinha sido “sonho, sonhação, nem sonho só não”

 

Veja, aqui, o curta-metragem, rio de janeiro, minas, de Marily da Cunha Bezerra.

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