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Críticas

@arthur.rambo: Ódio nas Redes

o julgamento pelas redes

Por Humberto Silva | 10.05.2022 (terça-feira)

Em 2006 o escritor alemão Günter Grass, prêmio Nobel em literatura (1999), surpreendeu seus admiradores ao relatar em livro autobiográfico, Descascando a cebola, sua participação como membro da Waffen-SS, ramo militar do Partido Nazista. Nascido em 1927, Grass tinha, portanto, dezoito anos quando a guerra terminou. Passada a juventude, ele se tornou escritor e publicou em 1959 O tambor – adaptado pelo cinema em 1979 por Volker Schlöndorff, é uma das obras máximas da literatura alemã – que trata de modo crítico o inebriamento dos alemães sob o nazismo. O livro autobiográfico, claro, gerou mal-estar, dividiu opiniões, pôs em xeque a reputação de Grass e instigou questões como se o valor de sua obra pode ser julgado a partir de sua militância nazista nos anos de juventude. Trata-se, claro, de um caso limite, pois o próprio escritor revelou seu passado e, não o fazendo, impossível dizer que dele hoje teríamos conhecimento.

A época em que Grass viveu sua juventude nazista é distante de nosso mundo de redes sociais. Um mundo em que um post no Twitter pode ser lido em Macau e na Patagônia. É no mundo das redes sociais que hoje com trinta anos vive Mehdi Meklat, jovem estrela do jornalismo francês, blogueiro, que em 2017 viu sua ascensão meteórica entrar em colapso quando se tornaram públicos posts no Twitter abertamente racistas, antissemitas, homofóbicos e misóginos, postados por ele quando era um ilustre desconhecido.

Escusado dizer que o affair Meklat guarda profundas diferenças do de Grass. Mas igualmente escusado dizer que ambos trazem a mesma questão. Personalidades públicas de amplo conhecimento e admiradas que surpreendem ao terem revelado um subterrâneo que põe em xeque suas reputações. A situação de Meklat ficou tão difícil na França que ele se exilou no Japão em 2018, onde escreveu Autopsie, em que apresenta desculpas pelos polêmicos tuítes e ensaia uma análise das ilusões das redes sociais. O imbróglio Meklat estimulou Laurent Cantet a realizar @arthur.rambo: Ódio nas Redes (2021).

Cantet é um dos diretores franceses mais antenados no problema da imigração na França. Problema que opõe trabalhadores, desempregados e jovens originários das colônias francesas na África, frequentemente muçulmanos, e a extrema direita xenófoba, atualmente capitaneada por Marine le Pen e a Frente Nacional. Este um problema incômodo e que Cantet colocou sua colher ao realizar os destacados Recursos humanos (1999), Entre os muros da escola (2008) e A trama (2017). Ele volta ao assunto agora com @arthur.rambo, em que aborda um episódio vivido por Meklat, praticamente ignorado aqui (um google e o internauta não vê um link em português), e que pelo menos entre cinéfilos entra em pauta.

@arthur.rambo é um filme que abre espaço para discussão sobre as armadilhas no uso de redes sociais, quando alguém posta algo supondo sua absoluta insignificância. Isso para mim é um truísmo, mas que deveria ser pesado sempre que se abre um WhatsApp e tais. No mundo das redes sociais posso não ser nada, no entretanto, o que eu postar passa a independer completamente de mim; eu não tenho qualquer controle sobre o destino do que escrevo nas redes. De algum modo o episódio Meklat teve aqui como similar o jogador de vôlei Maurício Souza e seus posts homofóbicos. Sensível aos ventos do tempo, Cantet concebeu para seu filme uma narrativa rápida, movimentada, na qual, em sintonia com o mundo das redes sociais, um post opera o milagre da multiplicação dos pães.

Nessa escolha narrativa, para mim, uma das grandes virtudes de @arthur.rambo. Cantet se concentra em dois dias na vida de Karim D., um jovem escritor do subúrbio de Paris (o “banlieue”) que acende meteoricamente com um livro sobre sua mãe e a realidade de imigrantes originários da África. Protegido pela editora, badalado por intelectuais de esquerda, num evento de promoção do livro chega a receber convite para adaptação fílmica em que ele mesmo seria o diretor. Nesses dois dias, no ritmo das redes sociais, Karim D. vai do céu ao inferno ao ter divulgados tuítes em que manifesta racismo, antissemitismo, homofobia e misoginia.

Rabah Nait Oufella como Karim D.

Inspirado em Meklat, Cantet sustenta que criou um personagem complexo. Todo o foco do filme é lançado em Karim D. Não há praticamente um plano em que ele não esteja presente. Com Karim D. envolto em situação bem desconfortável, Cantet deixa para o espectador o julgamento. E assim, em entrevista a Bruno Carmello (ler aqui) enfatiza que não o procurou condenar e que, para ele, seu personagem não estaria de acordo com suas posições racistas. Ele teria deixado se levar pelo jogo do Twitter. Cantet menciona Meklat en passant e tem em vista como de um segundo para outro qualquer um de nós pode ser enlaçado numa situação constrangedora em razão de um post. Estamos, de qualquer forma, diante de um filme, uma obra de ficção e, para seus espectadores, uma obra se revela internamente, independente do que seu próprio realizador tenha “querido dizer”.

Cantet criou um personagem de origem simples, mas sua origem se revela no correr da trama. No início do filme, aclamado, ele transita em meio à elite, ao lado de editores, jornalistas e celebridades da vida parisiense. Karim D. é exibido como um escritor que se veste de modo descolado, vaidoso, deslumbrado com sua fama repentina e que, com agenda lotada, mal tem tempo para atender telefone da namorada. Uma realidade que, dada sua origem, lhe era praticamente impossível. Inebriado, ele vive um conto de fadas que rui de um segundo para o outro. Sob esse prisma, a se levar em conta Cantet, Karim D. afirmaria o mundo encantado a que foi alçado e negaria o que escreveu nos tuítes.

Ocorre que, além de desculpas públicas protocolares, Karim D. não consegue dar explicação sobre o porquê dos tuítes. E, para mim, o momento mais revelador de @arthur.rambo se dá no final do filme, numa tensa conversa travada com seu irmão caçula. O irmão, assim como os amigos dele no subúrbio, o tem como ídolo justamente por causa dos tuítes. Especificamente, os que se referem ao antissemitismo e à defesa do profeta Maomé. Na tensa conversa com o irmão, apesar de censurá-lo, Karim D. deixa transparecer que se houve erro em sua vida foi o de ter sido seduzido pelo fútil e volúvel mundo da elite parisiense, que o abandonou como cão sarnento.

Sem expressar claramente viés político à direita ou à esquerda, Cantet assim me parece, não em sua fala, mas no filme, mostra um cenário na França. Este sim, mais complexo que seu personagem. Algo como um ponto de encontro entre ideias xenófobas de extrema direita e seguimentos marginalizados no “banlieue”. Entre extremos, o bem educado mundo da elite parisiense, envolta em seus interesses, que não teve pejo para sequer considerar as falsas desculpas de Karim D. Ou seja, o infortúnio individual que dá motivo ao filme se abre para questões bem mais amplas na França atual, o que em grande parte dá ensejo a que se reflita sobre a votação expressiva de Marine le Pen na recente eleição presidencial.

@arthur.rambo (corruptela com os nomes Rimbaud e Rambo) é um filme que explora um tema importante e atualíssimo. Mas medroso diante desse mesmo tema. Medroso no sentido de que, no meio fio, se expõe a contrariedades e para fugir destas suas escolhas se dão com riscos calculados: não magoar quem vive sob e estimula a violência no subúrbio. Sendo uma ficção, a potencial violência que carregaria, mesmo a verbal – a conversa mais tensa é entre os irmãos -, fica por conta de situações cujas representações soam “teatrais”. O final aberto, a fuga de Karim D. para algum lugar não mencionado, deixa uma mensagem embaraçosa. Parece acentuar a fragilidade dele diante da encrenca em que se meteu. Mas também deixa no ar, ao contrário do que Umberto Eco concebia como obra aberta, que Cantet não soube como terminar o filme de forma convincente.

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