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Críticas

As Verdades

Três histórias, pouco cinema

Por Luiz Joaquim | 29.06.2022 (quarta-feira)

A abertura de As verdades (Bra., 2022) intercala imagens de hoje com fotografias de arquivo, com estas mostrando uma clara distinção de poder num indeterminado período do passado, estando os negros em situação miserável enquanto os homens brancos aparecem em roupas finas, num contexto de riqueza política.

A trilha sonora se faz presente desde já, sugerindo a gravidade do que está por vir. A proximidade com a abertura de O som ao redor (2012) possivelmente irá inspirar o espectador para aquilo que a obra deveria apresentar, e com a mesma intensidade que conhecemos do primeiro longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho.

Mas, atenção, a similaridade reside apenas nos créditos de abertura deste que é o décimo terceiro filme de José Eduardo Belmonte (confere produção? 13º?) e conta com estreias nos cinemas nesta quinta-feira (30). Isso porque logo, logo surge aquele que parece ser algo indefectível nos filmes medianos para frágeis do cinema nacional atual: as pobres imagens aéreas captadas por um drone.

E mais: concluído o filme, entendemos que a abertura não tem uma função orgânica (aos menos não com a intensidade merecida) como entendemos no antigo filme pernambucano. A constatação só estimula a sensação de que a trabalhada abertura de As verdades está ali mais como uma bossa, e ponto.

Não demora muito, outra referência rápida (e muito curiosa aqui, no mau sentido) é feita com a bela sequência inicial de Roma (2018), de Alfonso Cuarón: a poça de água como um espelho refletindo outra vida. No caso, no filme de Belmonte, a forma do líquido no chão é desfeita pela funcionária da limpeza de uma delegacia. A diferença é que aqui a própria personagem leva a poética da composição ralo abaixo (desculpem o trocadilho) quando explica, explicitamente, a sugestão da imagem: “Uma vida inteira olhando pro chão, sem ver a vida passar”, resmunga ela enquanto passa o rodo.

Vale registrar também a presença da voz em off do protagonista – outro item que costuma ser excessivo para a narrativa, sendo também uma velha e cansada ferramenta (quando mal utilizada) para filmes de gênero.

O protagonista é Josué (Lazaro Ramos), um policial que retorna ao seu município como delegado após dois anos afastado da sua terra. Falamos de uma pequena cidade no litoral baiano. E o que precisamos saber do enredo de As verdades cabe no parágrafo abaixo.

Valmir (Zé Carlos Machado), o rico candidato corrupto do município e noivo da bem mais jovem e de origem muito humilde Francisca (Bianca Bin), é encontrado atropelado e desacordado por Josué, que também encontra um trancelim de Francisca no local. É a mesma Francisca com quem o, agora, delegado Josué teve um affair mal resolvido no passado. Seguindo as pistas, Josué irá ouvir os depoimentos de Francisca, Valdir e um terceiro envolvido no crime (Thomás Aquino, sempre bem), cada um com o seu interesse particular. Cabe ao delegado descobrir a verdade tendo também de lidar com a sua antiga paixão.

Dentro desse contexto, vale um elogio superlativo e pontual. Ele vai para Drica Moraes na pele da Amara, a desesperada mãe de Francisca. A entrada de Amara na história é a entrada dela na delegacia em busca da filha desaparecida. Na breve interlocução com o delegado fica claro que Drica está ali por inteira, e com sutilezas, dando uma vida crível e comovente a algo que antes só existia por palavras num pedaço de papel.

Drica Moraes dizendo a que veio em “As Verdades”. Crédito das fotos: Taylla de Paula.

Ainda sobre o roteiro, pode-se dizer que não há nada de novo nessa trama assinada por Pedro Furtado, que estreou nessa função, em um longa, com o interessante Boa sorte (2014, coassinando ao lado do pai, Jorge, a partir de um conto do Furtado mais velho). A “não-novidade”, entretanto, não seria um problema nesse roteiro se algumas estratégias de As verdades não estivessem se apropriando de recursos narrativos tão primários/precários para estimular o seu espectador.

Exemplo? Josué conversa com a sua assistente na delegacia (Edvana Carvalho), a ideia de urgência está no ar, e o telefone toca. Sobe a incansável trilha sonora sublinhando a importância da ligação. Delegado e assistente se entreolham antes de atenderem.

Há também os (no plural) absolutamente desnecessários flashbacks em forma de off, com vozes “dentro da cabeça” do delegado, ouvindo (e nos também) trechos da fala de sua amada dizendo o que todos já havíamos escutado há cerca de 10 ou 15 minutos. Será que o cinema não oferece nada mais interessante, como expressão de uma linguagem, para ressaltar a inquietação interna de um personagem?

Da esq. para a dir.: Zé Carlos Machado, Thomás Aquino e Belmonte nos bastidores de “As Verdades”

A questão é: é difícil entender (talvez nem tanto) os caminhos que fizeram de As verdades uma obra tão rasa cinematograficamente. Falamos isso em função dos nomes de Belmonte, que no início da carreira tinha inspiração em Tarkovski e Pasolini e nos deu o provocante A concepção (2005). Falamos isso pelo jovem Furtado, que deve nos oferecer melhores roteiros no futuro. Falamos isso pelo nome de Eduardo Valente registrado nos créditos como consultor de montagem, esta assinada por Frederico Rimbencher.

É o tipo de questão que se diz nas rodas de colegas: “Mas não havia nenhum amigo por lá para dizer ‘olha, não vamos por aí não’”. Bom, talvez esse amigo até estivesse por lá, mas há sempre uma voz superior que decide, surdamente, pelo destino criativo de um filme. Com As verdades essa voz errou.

O que não impede, vale dizer, que o filme não possa ser um sucesso de bilheteria, uma vez que A não tem muita relação com B.

A conferir.

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