
29ª Tiradentes (2029): “Cinema Moderno” e outros
Legislações e descontruções de estereótipos em destaque
Por Luiz Joaquim | 28.01.2026 (quarta-feira)
TIRADENTES (MG) – A produção pernambucana deu as caras pela primeira vez nesta 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes na noite de ontem (27) com dois curtas-metragens. Os ursos e nós, de Marina Acselrad, exibido na praça, apresentando um estudo etnográfico sobre a figura dos ursos no imaginário da cultura pernambucana e, na Cine-Tenda, dentro do programa competitivo “Foco”, com o novo trabalho de Felipe André Silva, chamado Cinema moderno.
Antes, vale dizer o quanto é significativo ver na tela da Mostra de Tiradentes, pelos créditos de abertura de Cinema moderno, a logomarca do Cabo de Santo Agostinho, município na Região Metropolitana do Recife.
Significativo porque afirma, com este gesto, a força que o cinema possui em tornar visível, a um ambiente de reflexão intelectual, uma outra região (a cidade do Cabo) que, de outra forma, teria poucas chances de chegar num evento como este ou nos pensadores e na mídia espontânea que trabalham por aqui.
Mais curioso ainda é ver Cinema moderno e perceber a provocação que Felipe estabelece ao colocar a atriz Guga Patriota performando para a câmera, olhando para todos nós na plateia, alguns habituais aspectos de aprovação definidos pelas leis de incentivo à cultura levando em conta etnia, gênero, regionalidade, etc. O que vale mais nestas escalas?
Num jogo de identidades, ou da ‘suspensão da identidade’, mascarada, Patriota destila o texto de Felipe. Um texto preciso, afiado e com uma ironia equilibrada. Tudo bem-dito e com uma autoridade que poucos poderiam destilar.
Felipe toma como ponto de partida um trabalho anterior – Cinema contemporâneo (2019) – cuja circulação e boa recepção à época o tornou um profissional percebido e a ser acompanhado dentro do segmento audiovisual nacional.
A provocação de Felipe, que não pôde vir a Tiradentes por motivos de saúde, já inicia na sinopse do novo filme: “Vendi os direitos da minha vida para o cinema brasileiro. Acho que me arrependi”.
Durante a apresentação do filme ontem à noite, um texto do cineasta foi lido pelo amigo realizador baiano Marcus Curvelo. Texto pelo qual Felipe adiantava a necessidade de jogar no mundo esta questão, que ele acredita ser pouco discutida mas necessária.
Como epílogo do filme, ou ironia maior, Felipe se despede com a sugestão de uma espécie de espetáculo vinculado à clássicos musicais hollywoodianos dos anos 1940/1950 como, talvez, uma justificativa para a obra pode vir à tona, nascer, existir.
Só que aqui, o espetáculo é pautado não pela alegria e sim pela melancolia. É, portanto, um espetáculo da quase derrota (ou derrota mesmo) diante de exigências engessadas de alguns editais.
Que Cinema moderno possa abrir algumas frentes neste campo.
Outros destaques do programa ‘Foco’ na noite de ontem foram a animação indígena, codirigida por Cassiano Maxakali e Charles Bicalho, chamado Kakxop pahok: As crianças cegas que, com sua estética simples e enredo punk-rock para a lógica familiar dos brancos, chacoalhou a plateia do Cine-Tenda.
Encerrou o programa Grão, curta-metragem que veio do Rio Grande do Sul, de uma região no extremo sul do Estado, dirigido por Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, sobre Leandro (Leandro Gomes), jovem que corre atrás do sustento recolhendo e vendendo soja informalmente.

Leandro Gomes em cena de “Grão”.
As coisas não estão fáceis para Leandro, que precisa vender seu carro querido, seu pequeno orgulho. Seu antigo Renault Clio 1.0, rebaixado e com um equipamento de som gigante instalado na mela que só toca funk sugestionando, pelas letras, incessante sexo com “as novinha”.
A trilha-sonora rende, pelo menos, um grande momento cadenciado no ritmo da música sobre a solidão de Leandro. É aí que reside a grandeza de Grão. Na maneira sutil com a qual vai revelando o que há de sensível neste estereotipado personagem, seja pela aparência musculosa, seja pela predileção musical.
Desconstruir estereótipos é mais complexo que construi-los.
Antes das sessões dos curtas da ‘Foco’, o Cine-Tenda projetou o experimental Tannhäuser (SP/RJ), de Vinícius Romero, dentro do programa ‘Olhos Livres’ e, previamente a este, o doc. Politiktok (BA), de Álvaro Andrade Alves, sobre os últimos dias das eleições presidências do Brasil em 2022 por meio de lives e edits da rede social Tik Tok, que naquele momento tinha 80 milhões de usuários no País.















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