
Nuremberg
Em torno do julgamento histórico, James Vanderbilt constrói um drama que simplifica o passado
Por Humberto Silva | 10.04.2026 (sexta-feira)
A ressaca do Oscar, um hiato para espera do próximo blockbuster e entramos na estação com as salas de cinema ocupadas por filmes invariavelmente esquecíveis e, quiçá, futuramente esquecidos, uma espécie de segunda linha de produção que mantém o expediente da indústria… Esse o caso de Nuremberg (EUA, 2026) , escrito e dirigido por James Vanderbilt. Lançado no festival de Toronto no ano passado, passou batido na festa da Academia hollywoodiana: a atuação de Russell Crowe como Hermann Göring não sensibilizou os votantes…
O assunto de Nuremberg de Vanderbilt é uma tendência a cada ano que passa mais forte no cinema norte-americano: exibir pincelada com um retrato histórico. Este ano, como no ano passado, no anterior, e mais atrás também…, entre os candidatos em diversas categorias uma lista não ignorável, por isso desnecessário elencar, de filmes com pano de fundo em eventos reais, situações fictícias, de um momento singular das primeiras décadas do século XX…, mesmo dos vinte primeiros anos da segunda metade século passado…
Essa profusão de “filmes históricos” passa pela política lato e estrito senso, pelo comportamento social, revisionismos, reabilitação de personalidades marcantes (Dalton Trumbo…), por situações de guerra, de cultura em geral e pela própria história do cinema: Mank (2020), de David Fincher, arbitrariamente citado só para dar o sentido da tendência, que, insisto, tem se imposto sem muito alarde tanto quanto com presença, aos meus olhos ao menos, invariavelmente esperada ano após ano…

Baseado no livro de Jack El-Hai, Nuremberg privilegia o viés psicológico em detrimento da análise histórica.
O caso Nuremberg, sobre o julgamento de Nuremberg, pois, retrata, pincela, o julgamento de lideranças nazistas após a II Guerra. Com a derrota alemã, o foco desse filme de Vanderbilt aponta para Hermann Göring, o segundo na hierarquia do Reich; portanto, quem poderia responder pelos crimes de guerra com a morte do Füher. Ponto de partida que considero crucial para qualquer pincelada que se proponha a um “retrato histórico”: não esperar da pincelada mais que a pincelada. Algo como, conforme anedota sobre Apeles, contada por Plínio, o Velho, em sua enciclopédia História Natural, não esperar que “o sapateiro vá além do sapato…” Um truísmo: cinema é cinema e história é história…
Bem entendido, no caso de Nuremberg de Vanderbilt, quereria crer despertaria interesse pelo assunto, quereria crer que quem não sabe tanto fosse despertado a saber mais sobre Göring. Não esperaria, daí a anedota relatada por Plínio, que Nuremberg de Vanderbilt ensine ou estimule discussão sobre “verdade histórica”. Como todo “filme histórico”, trata-se de uma pincelada, sujeita, portanto, a toda sorte de distorções, manipulações, equívocos a que o cinema se expõe ao exibir o mais inexpressivo e fugaz esgar de Göring em um plano fechado – impossível, por óbvio, em um registro efetivamente histórico.
Premissa básica, então: um filme é uma obra de ficção e, assim sendo, um falseamento do real; com a melhor das intenções, um esforço de reconstituição fiel a partir de documentos, registros, iconografia, arquivos, imagens de arquivos, enfim fontes que sugiram, por efeito de ilusão, como uma época, acontecimentos, fatos, foram vividos. De modo que um filme, mesmo um documentário, exibe menos a História do que uma “visão de aspecto” superficial, uma pátina, uma leitura possível do autor (diretor), e mesmo de um produtor de cinema com seus notórios interesses comerciais, sobre o evento pincelado.

A interpretação de Russell Crowe reforça o caráter simbólico de Göring, mais do que sua dimensão histórica.
Bem, sobre o caso Nuremberg de Vanderbilt, vejamos: suporte, o livro O nazista e o psiquiatra (2013), de Jack El-Hai, uma reconstituição no “gênero” jornalismo investigativo de momentos da vida de Douglas Kelley, um militar com patente de Major designado como psiquiatra-chefe responsável para avaliar clinicamente a sanidade de 22 líderes nazistas antes do célebre julgamento. Em sentido técnico, eventualmente um excelente trabalho jornalístico; não cabe, pois, falar em história… No livro de El-Hai, o foco é para a relação entre Kelley e Göring e, principalmente, para o fato de que seus relatórios com conclusões médicas sobre a sanidade de Göring, publicados em 1947 no livro 22 celas em Nuremberg, foram desacreditados; em decorrência, seu livro foi um retumbante fracasso editorial que o teria levado a uma decisão trágica em sua vida.
Tendo em vista esse percurso do livro de Kelley até o filme, Nuremberg de Vanderbilt me parece instigar menos qualquer discussão sobre o julgamento, e a veracidade histórica sobre a figura de Göring (o título do filme não deixa de ser um chamariz), do que indagar sobre o porquê de, no contexto da Guerra Fria, 22 celas em Nuremberg ser ignorado e ressurgir das cinzas, por meio de um trabalho de jornalismo investigativo, em outro momento histórico, momento de ascensão da extrema-direita no mundo atual.
O curioso com essa perspectiva é que com ela não penso propriamente no filme feito, e sim em um contracampo absurdo, para o qual o que se vê na tela – os últimos dias de Göring e sua relação pantanosa e de cumplicidade sob suspensão com Kelley – não seja senão distração, perda de foco… Mas, sobre o filme, o que se vê propriamente? É ao mesmo tempo desnecessariamente didático e vago ao aludir a referências históricas que poucos podem alcançar, ou ter lembrança… (tenho em vista, claro, a circulação do filme em escala global e não, por suposto, alunos alemães do que aqui chamamos pelo nome de “ensino médio”).

Em Nuremberg, Howard Triest, tradutor interpretado por Rami Malek, atua como mediador de um passado que o filme não explica.
Se não vejamos. Nuremberg de Vanderbilt começa com um plano geral em uma estrada de terra batida, na qual uma multidão caminha a esmo, guardada por soldados norte-americanos, e uma legenda de inserção com a informação: “Adolf Hitler está morto. O alto comando alemão está desorganizado. 70 milhões de pessoas morreram em todo o mundo, no conflito mais letal da história. 7 de maio de 1945, último dia de guerra na Europa”. Exatamente assim, com o verbo no tempo presente. Na sequência do filme, logo que apresentado a Kelley, que o examina, seu tradutor, o sargento Howard Triest, o informa que Göring foi ferido na Primeira Guerra e em 1923 no Putsch de Munique – exatamente assim, Putsch de Munique.
A desnecessidade didática? Na sequência do plano geral, em contra-plongée, um soldado norte-americano urina sobre o emblema nazista nos destroços de um veículo enquanto surge abruptamente no meio da multidão uma limosine e nela Hermann Göring, que se entrega às forças aliadas; tudo isso em contra-plongée… Para um espectador médio e atento, a informação de que Hitler havia morrido e a guerra acabado é redundante. No plano da linguagem, é como dizer que estou bebendo água para quem está vendo que estou bebendo água. O uso da didática, obviamente, tem sua razão de ser, tanto quanto com ela, pois um filme não é uma aula de história, potencialmente subestimar o repertório de um espectador médio frente a um fato amplamente conhecido: para o cinema, eis o uso da semiótica com seus índices, o contra-plongée já exibe a legenda de inserção…
Em contrapartida, sem nenhuma contextualização, o “roteiro” menciona o Putsch de 1923 em Munique, mais conhecido como o Putsch da Cervejaria…, no qual Hitler fracassou na tentativa de derrubar a República de Weimar e no qual, o espectador é informado, Göring foi ferido. Ora, se se tem a intenção de, no plano didático, informar que a guerra na Europa acabou com a morte de Hitler, a se indagar sobre por que de a economia narrativa não oferecer qualquer esclarecimento sobre o Putsch da Cervejaria, uma informação que em escala global, possivelmente, não seja tão sabida, senão por alunos do ensino médio alemão…?

A narrativa de Vanderbilt recorre à reconstituição, mas mantém os acontecimentos em uma camada superficial.
Entendo, na elaboração do roteiro, o realce quanto à casualidade e vacuidade nas hipotéticas conversas entre Göring e Kelley sobre o Putsch. Como entendo, em outro momento da narrativa, a casualidade com que é mencionada a SA (na conversa entre eles, essa sigla é referida ao lado da SS como se aqui falássemos em PSOL e PT…; e faço questão de não dar qualquer informação sobre o que elas eram para que um eventual leitor deste texto tenha a dimensão da vagueza da alusão…). Justamente por isso, sem preocupação didática, como um espectador não tão familiarizado com o contexto de eventos que têm em Göring um personagem central compreenderia o incêndio do Reichtag em 1933 e em decorrência a Noite das Facas Longas, em 1934, na qual Göring eliminou (matou) Ernest Röhm junto com outras lideranças da SA?
Não é o caso de enxergar no Göring de Vanderbilt, ou de El-Hai, ou Kelley, o “verdadeiro” Göring. Contudo, intencionalmente ou não, aos meus olhos a mensagem nenhum pouco tácita de Nuremberg: Göring foi um alemão nazista que poderia ter nascido nos USA, ser republicano e… ser o atual presidente Donald Trump. Nuremberg de Vanderbilt é esquecível? Sim. Entretanto, talvez se devesse “vê-lo” com atenção ao contracampo. Eis novamente a semiótica com seus índices sorrateiros.















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