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Críticas

Mank

David Fincher conta uma história valiosa para ele, no ritmo valioso que a Netflix gosta.

Por Luiz Joaquim | 20.12.2020 (domingo)

É curiosa a semelhança rítmica na narrativa de algumas produções norte-americanas realizadas pela Netflix, sejam elas dirigidas por quem for (com a exceção de um ou outro nome do naipe de Martin Scorsese). Sejam elas sobre qual tema for. Para ficar em dois exemplos do momento, se formos comparar o Os 7 de Chicago (The Trial of The Chicago 7, EUA, 2020), de Aaron Sorkin, com Mank (idem, EUA, 2020), de David Fincher, seria possível dizer que ambos foram dirigidos e montados remotamente, por meio de um aplicativo de smartphone.

Ainda que Os 7 de Chicago pareça mais ajustado à velocidade da dinâmica que o enredo impõe ao filme (graças a alguns respiros humorados), a pressa com a qual o montante de informações é despejada (e explicada) ao espectador ao longo do filme – que fala sobre o julgamento em 1968 de diferentes grupos que protestavam contra a Guerra do Vietnã durante a Convenção Nacional Democrata na cidade do título -, aquela correria soa cansativa. Não enfadonha, cansativa.

Ainda assim, Os 7 de Chicago se resolve bem em envolver o espectador mesmo sem este conhecer previamente os pormenores daquele contexto. Já Mank, cujo drama circula um momento fundamental na carreira do roteirista Herman Mankiewicz (Gary Oldman), terá muitas de suas piadinhas lançadas pelos personagens, como que lança longe um cuspe seco, perdidas por quem vê o filme se este não tiver o mínimo de familiaridade com o contexto político por trás dos estúdios da Hollywood na segunda metade dos anos 1930.

cena de “Mank”

Mank pode ser um filme delicioso para aqueles que, sim, sabem da dinâmica daquele momento nos grandes estúdios norte-americanos (particularmente a MGM, de Louis B. Mayer) e da sua influência, inclusive nas eleições locais da época. Mas, sim, o filme de Fincher pode soar pouco fluído para muitos outros.

Olhos mais atentos (e não cinéfilos), porém, enxergarão sim em Mank alfinetadas bem dadas ao momento de hoje na relação do entretenimento com a política profissional, com a comunicação de massa (no caso do século 21, as redes sociais, o WhatsApp, etc.) sendo um impulsionador “àqueles que entram ali deixando o ceticismo do lado de fora”, como diz Mankiewicz ao soltar uma deixa sobre o poder do produtor de King Kong (1933) em também manipular a decisão de voto da população.

Ou ainda, na sequência de um diálogo coletivo em que figurões e estrelas de Hollywood não dão a menor bola para uma inicial ascensão de Hitler na Alemanha. Soa familiar?

No meio disso tudo, há o destrinchamento detalhado que o roteiro de Mank (escrito por Fincher e seu pai, Jack  1930-2003) desenvolve sobre a autoria do roteiro de Cidadão Kane (1941), escrito em tempo recorde por Mankiewicz enquanto precisava atender os caprichos do jovem gênio (e genioso) de Nova Iorque, Orson Welles (Tom Burke).

Mank também brinca com seus tempos, como faz Kane (sem a inventividade deste, obviamente), alternando-os para contextualizar, anos antes, a entrada de Mankiewicz no universo de Hollywood. É lá, no passado, que vamos conhecer suas inspirações para a história de Kane, e é lá que conhecemos a personagem Marion Davis (Amanda Seyfried), aqui como um símbolo de beleza feminina que Hollywood costumava maltratado pelo star systems que desenvolveu, sem nunca dar ouvidos ao que de valioso havia na cabeça dessas mulheres.

Seyfried está ótima nesse corpo que mistura beleza e resignação e Oldman é o monstro de sempre, confortável onde lhe jogam, não sendo diferente nesse Mankiewicz, que se esconde por trás do humor afiado contra a cortina azeda de relações, chamada Hollywood, que o filme retrata.

Amanda Seyfried em “Mank”

Há apenas a já mencionada sensação de esquematismo rítmico e narrativo, soando meticulosamente calculado na métrica, que deixa o espectador cansado, tornando proibitivo uma piscadela ou mesmo uma fruição mais apurada sobre a imagem P&B do filme.

Sobre a imagem.

Mank se regozija no vômito das palavras e releva a imagem. Não se descuida dela, mas não cuida para que seu espectador a aprecie. O ouvido é mais importante que os olhos em Mank. Dito isso, e com Mank se propondo a ser bom cinema (comunhão entre som e imagem), temos de convir que algo não está totalmente bem aqui.

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