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Críticas

Anticristo (2009)

Lars Von Trier e seu filmeterapia

Por Luiz Joaquim | 18.09.0209 (segunda-feira)

Os psicanalistas vão adorar. Ao menos aqueles que conseguirem ficar até o final da sessão de “Anticristo” (Antichrist, Din., 2009), filme de Lars von Trier que chega hoje ao Recife via Cinema da Fundação e UCI/Riberio Shopping Recife. E por que eles? Porque o diretor de “Dogville’ e “Dançando no Escuro” fez aqui seu trabalho mais explicitamente psicanalítico.

E não estamos falando do processo de confecção do filme feito pelo diretor, declarado por ele próprio como uma espécie de ajuda contra a depressão que sofria naquele período da produção e pré-produção. Estamos falando da estrutura do roteiro, esquemática no início, e livre e solta depois. Essa leveza estrutural é rara no cineasta e só a percebemos aqui quando já estamos imersos num pesadelo assustador – no bom sentido do termo, por nos saculejar através de um turbilhão de sugestões imagéticas, estimuladas por vários signos. Sejam eles símbolos do sexo, de prazer e da vida ou morte (pênis, clitoris, sangue), ou mesmo animais (um cervo, uma raposa, um corvo).

São símbolos milenares que, de tão antigos, trazem consigo um sem fim de representações e, conseguintemente, um sem fim de interpretações. No caso, o símbolo maior é o próprio homem e a sua natureza. A estrutura inicial do enredo é esquemática apenas para atrair o espectador para uma outra gama de significações da reação humana, difíceis de legitimar pelo raciocino lógico, mas compreensível do ponto de vista de um sujeito que quer esgarçar a brutalidade da existência e sua finitude. Esse sujeito é Lars von Trier.

A armadilha para pegar espectador conta a história de um casal (William Dafoe e Charlotte Gainsbourg, melhor atriz em Cannes), personagens sem nomes, que perde o filho para um acidente enquanto faziam sexo num belo e corajoso prólogo ao som de uma ária de Handel. A culpa toma conta da mãe, enquanto o pai, um terapeuta bastante seguro de seus métodos, decide que ele mesmo irá tratá-la. Ambos, e sozinhos, apenas um homem e uma mulher, vão para o “Éden”, uma casa da família, bastante isolada numa floresta, onde ela terá como tratamento terapêutico de enfrentar seu maior medo no momento, que vem a ser natureza ao redor.

Nesse sentido, Von Trier, cria uma atmosfera em que a floresta soa como o inimigo do homem, mas também nos faz lembrar que o próprio homem é parte integrante desta natureza. Com apenas essa sugestão, a princípio simplória, já temos panos para as mangas filosóficas. Há de se considerar, para deleite de quem aprecia uma bela imagem, que o universo visual aqui criado para os insights da personagem de Gainsbourg são de uma beleza plástica impressionista, de extrema acuidade na composição plástica

A ideia do sonho, tanto visualmente quanto situacionalmente no enredo, é por si só um forte indício de como o inconsciente quer se manifestar nesse filme que começa rogando pela razão em seu início, para só depois largá-la e deixar-se levar pelo delírio do instinto humano.

Um aspecto em comum em “Anticristo” com os anterios trabalhos de Lars von Trier é a dura provação pela qual passam seus personagens femininos, sempre pelo sexo ou pela maternidade, o que, pelo novo filme, rendeu acusações a Trier de ser um misógino. Esta parece ser uma leitura um tanto imediatista, que encurta a gama de sentidos em torno da figura feminina que ele as dá em seus filmes. Mesmo porque a mulher no filme pode representar o sofrimento do próprio Von Trier na tela.

De qualquer forma, o assunto Femicídio – a morte de mulheres apenas pelo fato delas serem mulheres – é trazido à tona com força no novo trabalho. E surge como parte de um efeito discursivo casado com a idéia da fêmea que procria ao mesmo tempo em que também é responsável pela morte (prestem atenção nos animais com seus filhotes natimortos).

E não é apenas o sexo (pela genitália feminina e masculina), além da procriação, que são hostilizados aqui, mas sim todo um ambiente físico que representa a vida. Esse cenário é exatamente assustador pela sua inospitalidade contra a vida. E aqui, pela violencia física que pratica contra seu marido, a mulher poderia ser vista como a grande maestra dessa violência da natureza, que dá a luz mas também e “responsável” pela morte; enquanto o personagem de Dafoe (que já foi Cristo pelas mãos de Scorsese em 1988) seria um salvador que liberta a todos, inclusive as próprias mulheres, desse mal.

Entretanto, evitando impor juizos de valor de forma objetiva, “Anticristo” parece ainda perguntar como condenar o mal se ele, em algum lugar, também está em nós mesmos. Perguntem a Lars von Trier e sua resposta provavelmente será: “não sei”.

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