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Críticas

Um Lugar na Platéia

Para (tentar) contemplar o belo

Por Luiz Joaquim | 07.09.2007 (sexta-feira)

“Existem dois tipos de pessoas, as que atendem o celular e dizem: ‘quem é o chato agora?’, e as que dizem ‘ôba, quem será?'”. A assertiva é de Jéssica (Cecile de France, a homossexual de “Albergue Espanhol”), personagem que transita como uma espécie de anjo, ou qualquer coisa assim, entre os outros de “Um Lugar na Platéia” (Fauteuils d’Orchestre, França, 2006), filme de Danièle Thompson (de “Fuso Horário do Amor”), em cartaz no Cinema da Fundação (Recife).

No caso, a interiorana Jéssica se encontra na segunda categoria de pessoas, mas esbarra em algumas do outro gênero enquanto procura emprego num bairro chique de Paris, mais precisamente na avenida Montaigne, que é mostrada na primeira seqüência do filme.

A partir da história de vida de sua avó, que sempre repetia se dizer uma apreciadora do luxo, e que sua maneira de entrar nesse universo foi trabalhando como recepcionista dos banheiros de um rico hotel parisiense, Jéssica acaba por virar garçonete num pequeno bistrô em frente a um teatro onde, simultaneamente estão em fase de preparação uma peça, um leilão de arte e a apresentação do pianista clássico Jean-François (Albert Dupontel).

Na peça, o foco fica na neurótica atriz Catherine (Valérie Lemercier), comicamente angustiada com a fama gerada pela melodramática novela que a projeta na TV e com e a possibilidade de atuar num filme interpretando Simone de Beauvoir, a ser rodado por um diretor norte-americano (Sydney Pollack).

No leilão, temos o idoso milionário Grumberg (Claude Brasseur) que, como um exorcismo, decide vender todo o acervo que colecionou apaixonadamente durante toda sua vida ao lado da falecida esposa. Sua coleção inclui peças únicas de Modigliani e Brancusi. O viúvo Grumberg tem ao seu lado uma mulher com idade para ser sua filha, e tem, por conta desse romance, uma relação conflituosa com o árido filho Fred (Christopher Thompson).

A terceira perna do filme fica com o drama do pianista que não suporta a vida de concertista. Jean-François é talentoso e, sensível como é, está em seu limite por conta dos protocolos e formalidades das grandes apresentações em todo o mundo. Ele quer encontrar nas pessoas, a legitimidade que há no prazer de ouvir música. Mas para isso precisa encontrar ouvidos inocentes, daqueles que não são especialistas em música, ou seja, ele quer tocar nas praças, nas prisões, nas escolas. Não é por acaso que, em um dos momentos mais delicados do filme, Thompson mostra Jean-Pierre se apresentando num hospital. E ali, cercado pelos internos, levando acalento para gente sofrida por doenças diversas, que ele se sente realizado.

“Um lugar na Platéia”, assim, dá voz a personagens que querem contemplar o belo em sua mais autêntica expressão. Seja no desejo de participar de algo nobre (a atriz que anseia atuar num filme, apesar do sucesso na TV), seja no desejo continuar vivendo (o colecionador que quer dar partida a uma nova etapa da vida); seja no desejo de ter ao alcance as coisas simples da vida (o musicista que quer abandonar as viagens e viver ao lado da esposa numa casa no campo).

Nesse cenário, temos Jéssica, costurando a tudo e a todos, e também querendo apenas um lugar na platéia. Pelas mãos de Thompson, o filme apresenta um charmoso “tom francês”. Entenda por isso atitudes delicadas e secas entre os seres humanos, mescladas em um caldo cujo sumo é o espírito inesperado. As surpresas que a vida oferece, enfim.

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