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Festivais

20o Cine-PE (2016) – Leste oeste

Rodrigo Grota chega ao longa-metragem, e o prazer é nosso.

Por Luiz Joaquim | 08.05.2016 (domingo)

Rodrigo Grota chega ao longa-metragem, e o prazer é nosso. A noite de ontem (7), sexta e última competitiva do 20o Cine-PE: Festival do Audiovisual, encheu a tela do cinema São Luiz de beleza cinematográfica e da habitual poesia que a acompanha.

Entrar numa sala de cinema para ver um filme do paranaense Grota é sempre deparar-se com o respeito pelo imagem. Quase uma devoção a ela. O realizador chegar ao longa, para nosso contento, cuidando com o seu habitual zelo e apropriação da força que uma imagem pode oferecer – com a técnica irrepreensível do fotógrafo Guilherme Gerais. Apoiado por ela, nos conta uma história que também abraça o espectador pelo ponto de vista humano.

O protagonista Ezequiel (Felipe Kannenberg, dando a presença grave que seu personagem pede) diz os textos em off que abrem e fecham Leste oeste e, desde já, as falas são dois primores, respectivamente, de sedução para entrarmos na estrada que nos vai sendo apresentada na tela, e de uma tocante despedida contra um amor interrompido por 15 anos.

15 anos, ou quase isso, foi o tempo que Ezequiel, um ex-piloto, ali pelos seus 40 anos de idade, ficou afastado de Londrina (PR). Leste oeste inicia com seu retorno à cidade natal, onde voltará a correr pelas 500 milhas, e irá reencontrar o pai Ângelo (José Maschio), Stela (Simone Iliescu), seu antigo amor e viúva de seu irmão falecido, e o filho dela, Pedro (o ótimo Bruno Silva), de 16 anos.

É a tensão de reencontrar o passado, ou os fantasmas do passado corporificado nestes três parentes (e reencontrar a si mesmo, por conseqüência), que fazem Ezequiel se arrastar pesado pela ruas de Londrina.

Além do particular tempo dilatado nos diálogos – que não cabem na vida real mas funcionam liricamente no cinema, se pontuados corretamente -, o filme de Grota dá mais um aspecto que parece fazê-lo não encontrar par na contemporânea cinematografia brasileira.

Ela está não só no pano de fundo do drama, o universo da corrida de automóveis, como também na paisagem londrinense. Paisagem, diga-se, muito particular pautada por Grota e Gerais emoldurado o espírito de seus personagens marcados pelo lúgrube.

Em suas opções visuais a dupla alterna-se entre a procura da perfeita geometria para preencher o retângulo do cinema (algo bem conhecido do histórico fílmico de Grota), e a suavidade da luz que banha a pele dos atore, ou a sombra que apenas os emoldura.

Não obstante, Grota também nos conquista pelos seus personagens. Os vai apresentando com o mínimo de informações, sem nos esmiuçar imediatamente os elos que ligam Ezequiel àqueles que reencontra. É uma opção inteligente (que nos ajuda a montar nós próprios os seus personagens), mas também perigosa caso o espectador seja um disperso.

Mas Grota se sai exitoso. Tanto que ao final, o que queremos é mais desses personagens. Não porque sabemos pouco deles, mas porque já gostamos deles.

Para finalizar, vale apontar o jovem Bruno Silva como um talento descoberto por Grota, dando peso aquilo que só podemos imaginar do que foi a vida de seu Pedro, sem a referência do pai, um corredor morto num acidente.

E destacar também Iliescu, que com seu rosto marcante, dando várias formas ao amor de um homem triste. Para alem de seu rosto, sua performance cantando uma música de amor, por si só, já lhe valeria uma menção honrosa.

Leste oeste é, enfim, um filme para ser visto, revisto e descoberto.

20o Cine-PE – competição de longas
Postos os seis longas competidores do Cine-PE 2016 em perspectiva, fica claro que o júri formado pelos atores Odilon Braga, de São Paulo, a baiana Ingra Lyberato, a produtora carioca Angelisa Stein e os cineasta mineiros Guilherme Fiúza e João Batista de Andrade não deverão ter tanta dificuldade assim.

Os ingênuo Por trás do céu e As aventuras do pequeno Colombo surgem apenas como esforços daquilo do que um dia poderão porventura se tornar seus realizadores.

O único documentário em competição, Danado de bom, deve conquistar o prêmio do público e talvez o de montagem.

Os principais troféus Calungas, entretanto, podem dividir-se entre o ensaio de Bruno Safadi (O prefeito), o elaboradíssimo discurso de Luiz Rosemberg Filho, produzido por Cavi Borges, e belamente defendido por sua companheira, Patrícia Niedermeier (melhor atriz neste Cine-PE por Guerra do Paraguay?), ou com o biscoito finíssimo realizado por Rodrigo Grota (Leste oeste).

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