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Festivais

50. Brasília (2017), noite 5, texto #1

Heloísa Passos dirige “Construindo Pontes” fazendo política a partir de sua experiência de vida com o pai

Por Julio Cavani | 20.09.2017 (quarta-feira)

*equipe de Construindo pontes apresenta o filme no palco do Cine Brasília. Foto, Júnior Aragão.

BRASILIA – Quinto longa-metragem exibido na mostra competitiva do 50o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ontem (19), Construindo pontes, de Heloísa Passos, torna-se mais pertinente se for visto como uma autocrítica. Ao realizar um documentário sobre o próprio pai, a partir de conversas com ele, a diretora acaba por revelar a própria intolerância. Ela tem convicções sobre o que acredita a respeito da política brasileira, mas não se mostra uma interlocutora capaz de estabelecer um diálogo com um mínimo de dialética.

Em uma série de conversas entre os dois, Heloisa mostra que o pai concordava com a ditadura militar e apoiou a derrubada de Dilma Roussef, assim como considera justa uma eventual prisão de Lula. São hipóteses que a cineasta, assumidamente de esquerda, considera inaceitáveis. O problema é que ela, que é artista, não consegue articular argumentos convincentes para convencê-lo, enquanto ele, que é engenheiro, está sempre calmo e explica suas motivações com paciência.

Still de “Construindo Pontes” mostra aguas de Itaipu, o que a diretor chama de “deserto de águas”.

Caso seja assumido como autocrítica, o filme funciona como metáfora sobre determinados comportamentos da esquerda, que, em determinadas discussões, pode ser mais autoritária (ou até mesmo reacionária) do que determinados setores mais moderados da direita. É também uma história que provoca identificações em qualquer pessoa que vivencie, por exemplo, discordâncias em grupos de whatsapp ou discussões políticas em família. É uma angústia atualmente vivida no cotidiano de milhares de brasileiros.

Enquanto representante da esquerda naquele contexto, Heloisa teria, pelo menos, a capacidade de assumir a própria irredutibilidade, enquanto seria raro ver esse tipo de humildade ou autoavaliação no lado oposto. O problema é que mesmo essa premissa torna-se frágil por causa da teimosia da diretora enquanto personagem, que não permite ao pai a oportunidade de estabelecer uma discussão mais aprofundada. Fica a dúvida, portanto, sobre que tipo de contribuição política é proporcionada pela representação pública cinematográfica (com bonitas imagens, é verdade) de uma mera postura infantil de “pirraça”. O filme, mesmo que involuntariamente, é muito mais sobre a intolerância dos filhos diante dos pais do que o contrário

*Jornalista viajou a convite do Festival.

** Clique aqui para ler cobertura de Luiz Joaquim sobre Construindo pontes no 50. Festival de Brasília.

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