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Festivais

10. Janela (2017) – L. A. Rebellian

Festival recifense apresenta mostra de diretores afro-americanos inédita no país

Por Luiz Joaquim | 20.10.2017 (sexta-feira)

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*com texto divulgado pela assessoria do festival. Acima, foto do já clássico Filhas do pó (1993), de Julie Dash

O 10. Janela Internacional de Cinema do Recife traz pela primeira vez ao país um recorte de 16 filmes da produção do L.A. Rebellion, como ficou conhecido grupo de realizadoras e realizadores negros egressos da Escola de Cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) nos anos 1970 e 1980. Organização pela CinemaScópio Produções Cinematográficas e Artísticas, de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, o festival acontece entre os dias 3 a 12 de novembro.

Foco de um projeto de restauração e catalogação pela universidade na última década, esta numerosa e frutífera produção tem sido redescoberta com entusiasmo dentro e fora dos EUA como uma espécie de Cinema Novo negro, por seu arrojamento político e estético, sua independência em relação aos esquemas industriais vigentes em Hollywood e sua pregnância crítica no presente. 

A mostra L.A. Rebellion: Um Novo Cinema Negro, apresentada no Janela, com cópias em diferentes formatos que vêm de diversas fontes nos EUA, é uma produção do festival com seleção de filmes feita pelo curador Luís Fernando Moura e pelo curador convidado Victor Guimarães.

“Eu e Victor, que é já um amigo do Janela, compartilhamos a surpresa de ver alguns destes títulos projetados em cinema no Cinéma du Réel, em março, e fiquei impressionado tanto com a magnitude dessas imagens quanto com o fato de desconhecermos a esmagadora maioria desses filmes no Brasil, o que só pode revelar uma espécie estranha de apagamento historiográfico”, diz Luís Fernando Moura.

“Pareceu um desafio instigante a nós do Janela que o festival se articulasse para buscar essa produção, que cria com energia e inventividade deslumbrantes um ponto de vista das populações negras na história recente do cinema americano, e que certamente reverbera e reilumina muitos dos debates contemporâneos no que tange a representação e representatividade de negras e negros nos filmes, também – como sabemos – invisibilizados na produção brasileira”.

A seleção conta com filmes dirigidos por realizadores e realizadoras, entre elas Julie Dash, primeira diretora negra a ter um filme em circuito comercial nos EUA, Filhas do pó (Daughters of the dust), em 1993  Além do longa, restaurado em DCP em março deste ano, Dash tem também um curta-metragem e um média-metragem na programação, das décadas de 1970 e 1980, respectivamente.

Um dos diretores com maior visibilidade no grupo, e que receberá Oscar honorário no ano que vem, Charles Burnett terá dois curtas-metragens e dois longas-metragens exibidos, entre eles o clássico O matador de ovelhas (Killer of sheep), de 1978. Algumas raros títulos serão projetados em cópias 16mm provenientes do arquivo de preservação da UCLA, como Assim na terra como no céu (de Larry Clark, cineasta e professor da San Francisco State University, não o homônimo fotógrafo e cineasta), de 1973, e o antológico mas pouco acessível Bush Mama (do realizador de origem etíope Haile Gerima), de 1979.

“Em seu conjunto, os filmes são marcados tanto por uma atenção à realidade cotidiana de comunidades negras na Califórnia, que ganha narrativas e potentes retratos realistas, quanto por uma faceta alegórica de crítica social que do ponto de vista de cinema é muito frutífera e, além de evocar com frequência a ancestralidade africana, em alguns filmes ganha mesmo um sentido de rebelião e de agitação política em imagens memoráveis”, diz Luís Fernando Moura.

“Exibir estes filmes no Brasil é também uma maneira de reconhecer a forte relação que essa geração estabeleceu com o novo cinema latino-americano dos anos 1960, cuja influência pode ser sentida especialmente na obra de Haile Gerima, em filmes como Filha da ResistênciaBush Mama Cinzas e brasas”, acrescenta Victor Guimarães. 

“Para além disso, mesmo que a produção das realizadoras seja menos visível no formato de longa-metragem, não só elas são muito presentes na produção em curta como há um ponto de vista feminino – e as companheiras poderão nos ajudar a reconhecer o quanto são feministas – que marca talvez a maior parte desses filmes, mesmo os dirigidos por homens. A figura da mulher em casa é recorrente, assim como a das familiares de presidiários ou ex-presidiários, por exemplo, mas também a de mulheres que buscam autonomia sobre o seu corpo e sua vida ou protagonismo histórico, e não é pouco frequente que os filmes sejam centrados no ponto de vista delas.

Filmes como Filhas do pó ou o inacreditável Bush Mama, mas também curtas de realizadoras como Ciclos e Chuva poderiam sem dúvida também integrar a faixa Clássicos dos Janelas deste ano, que batizamos com o tema Heroínas”, completa Luís Fernando Moura.

Além da exibição dos filmes, no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco – Cinema do Museu, o X Janela promove também um conjunto de debates em torno desta produção e da produção de cinema por realizadores negros no L.A. Rebellion e no Brasil contemporâneo. L.A. Rebellion: Criando um Cinema Novo Negro é um projeto do Arquivo de Cinema & Televisão da UCLA desenvolvido como parte do Pacific Standard Time: Art in L.A. 1945-1980.

Veja a lista de filmes da mostra paralela L.A. Rebellion: Um Novo Cinema Negro:

Longas

As above, so below Assim na terra como no céu (Larry Clark, 1973, 52′, 16mm)

Ashes and embers Cinzas e brasas (Haile Gerima, 1982, 129′, DCP)

Bush Mama (Haile Gerima, 1979, 97′, 16mm)

Daughters of the dust / Filhas do pó (Julie Dash, 1993, 113′, DCP)

Killer of sheep / O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978, 83′, DCP)

My brother’s wedding / O casamento do meu irmão (Charles Burnett, 115′, 1983, DCP)

Passing through / Dando um rolê (Larry Clark, 1977, 105′, DCP)

Curtas

Child of Resistance / Filha da resistência (Haile Gerima, 1972, 36′, 16mm)

Cycles / Ciclos (Zeinabu irene Davis, 1989, 17′, Digibeta)

Diary of an African Nun / Diário de uma freira africana (Julie Dash, 1977, 15′, Digibeta)

Illusions / Ilusões (Julie Dash, 1982, 36′, DCP)

Medea / Medeia (Ben Caldwell, 1974, 7′, Digibeta)

Rain / Chuva (Melvonna Ballenger, 1978, 15′, Digibeta)

Several Friends / Um bocado de amigos (Charles Burnett, 1969, 22′, DCP)

The Horse / O cavalo (Charles Burnett, 1973, 14′, DCP)

Ujamii Uhuru Schule / Community Freedom School / Escola da Liberdade da Comunidade (Don Amis, 1974, 9′, Digibeta)

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