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Festivais

21. Tiradentes (2018) – 3 filmes da “Aurora”

Sobre “Rebento”, “Baixo Centro” e “Dias Vazios”

Por Luiz Joaquim | 28.01.2018 (domingo)

*Acima, cena do filme Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida.

TIRADENTES (MG) – O último filme a ser exibido pelo programa “Aurora” ontem (26), nesta 21a Mostra de Cinema de Tiradentes, foi Rebente, do paraibano André Morais. Projeto acalentado por cerca de dez anos pelo realizador, a produção é também fruto do primeiro edital Walfredo Rodrigues, da Secretaria de Cultura de João Pessoa.

Rebento persegue aqui uma mãe (Íngrid Trigueiro) que acaba de dar a luz a um filho que não irá vê-lo crescer. Na sequência, num ato contínuo de caminhada por um dia inteiro, ela transita por um cenário árido que é também de aspereza humana definida pelos personagens que encontra no trajeto. Errante, ela curiosamente carrega sempre uma melancia.

De encontro em encontro, interage com a sua mãe (Zezita Matos) que não mais a distingue (naquele que é talvez o mais interessante momento de Rebento); com um senhor que flerta com ela e oferece ajuda; com uma família disfuncional composta apenas por mulheres (cuja matriarca é vivida também por Zezita) – fazendo deste o alívio cômico do filme – e com um garoto, além de um tratorista.

De marcante, a presença da morte e a insistência de homens sempre se desculpando com esta mulher que aqui a percebemos por três identidades – Maria, Rosa e Ana. Rebento acaba, assim, alternando alguns poucos momentos marcantes com outros de potencia bem reduzida. Sendo estas, muita das vezes, prejudicada pela trilha sonora insistente de Eli-Eri Moura. Rebento resulta numa topografia bem irregular sobre a trajetória dessa mulher de múltiplas faces, cujo potencial poderia resultar numa curiosa síntese da feminilidade.

Ingrid Trigueiro em cena de “Rebento”

BAIXO CENTRO – Na quinta-feira (25), duas novas estreia em longa-metragem compuseram o “Aurora”. Dias vazios (GO), de Robney Bruno Almeida, e Baixo centro (MG), de Ewerton Belico e Samuel Marotta.

Em Baixo centro temos o encontro de um casal em primeiro plano, amarrando-se por uma decadente região belo-horizontina, que fôra significativa até um passado recente e agora apresenta-se fantasmagórica, seja pelas relações humanas, social ou cultural.

Numa intenção mais marcada pelo efeito do declamatório de seus personagens ou, como disse Ewerton, “com monólogos ditos de um personagem a outro”, Baixo centro inicia com uma solução narrativa arrojada – incluindo fotografias para movimentar o seu enredo -, mas depois opta por algo como um abandono deliberado do seu espectador para criar as representações que aposta ser o mais pertinente para o todo do Baixo centro.

Equipe de “Baixo Centro”, foto Jackson Romanelli/Universo Produção

 DIAS VAZIOS – Baseado no romance Hoje está um dia morto, de André de Leones, Dias vazios foi, tal qual Rebento, uma produção cultiva por cerca de uma década. Arquiteto de formação, o diretor Robney Bruno Almeida contou em entrevista na manhã de ontem (26) que no primeiro tratamento do roteiro ganhou a confiança do autor do livro para tocar a adaptação.

Ainda em entrevista, Robney ressaltou que não queria tocar seu primeiro longa-metragem sem o máximo do esmero que pudesse empenhar. De fato, a primeira impressão deixada pela obra é o de um domínio revelador de um cineasta que sabia exatamente em que lugar gostaria de chegar e levar seu espectador junto.

Seguindo uma narrativa clássica, mas também brincando com essa narrativa para burlar a ideia de “real” e de “inventado” de maneira metalinguística dentro do enredo, Robney apresenta um pequeno município no meio-oeste brasileiro (chamado Silvânia) do qual seus adolescentes do ensino médio querem, algum dia, deixa-la para trás.

No caso, a vida de dois jovens casais, pela faixa etária dos 16 anos, se entrelaça pelo interesse de Daniel – uma espécie de alter-ego do autor André de Leones – em descobrir o destino de uma garota dada como desaparecida.

Envolvente na administração das informações que vai dosando ao seu público, e amparado por um elenco juvenil que impressiona pela desenvoltura para a câmara, Dias vazios chega como uma peça valiosa para uma geração de espectadores do País que pode se identificar fortemente com alguns dos anseios e dramas aqui bem dramatizados.

*Viagem a convite da Mostra.

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