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Críticas

Planos Quase Perfeitos

Um texto para todos, em especial os leitores críticos

Por Luiz Joaquim | 10.10.2018 (quarta-feira)

– publicado originalmente em 14 de maio de 1999 no jornal Jornal do Commercio (Recife).

Há um determinado público de cinema que não lê críticas para não perder o prazer da surpresa que o filme vai lhe apresentar. A filosofia é legítima, uma vez que a surpresa é um dos temperos do entretenimento. Mas a premissa gera um paradoxo, uma vez que a indústria mais poderosa da sétima arte investe milhões de dólares para revelar tudo sobre um novo produto. Por sorte (do espectador que gosta de surpresas), ou azar (dos produtores do filme), a película Planos quase perfeitos (Best Laid Plans, EUA, 1999) teve uma discreta divulgação e repercussão pelo mundo. A exibição do filme (em uma única sessão) garantiu, entretanto, boas surpresas para o público leitor e o não-leitor de críticas.

O argumento proposto inicialmente é extremamente simples e não menos eficiente. Bryce (Josh Brolin) acaba de reencontrar um velho amigo do ginásio, Nick (Alessandro Nivola), num bar. Depois de muitas cervejas, Nick vai embora e Bryce começa a conversar com Lissa (Reesse Whiterspoon), uma insinuante loira que circunda a mesa do rapaz. Duas horas depois, Bryce telefona desesperado para o amigo. Quando Nick chega para socorrê-lo, fica sabendo que a garota vai acusar Bryce de estupro. E mais: descobre que Lissa está mantida num cativeiro por Bryce que teme a ameaça dela. Os dois rapazes tentam chegar numa solução razoável, mas a revelação que a moça é de menor atrapalha tudo. Mesmo que ela prometa manter segredo, Bryce já é um criminoso. Sem ter nada para oferecer, subornar ou corromper, os dois começam a pensar no que fazer com aquela pessoa indesejável.

A historinha já dá pano para as mangas, mas toda essa ação ocorre em menos de cinco minutos e o espectador mais impaciente pode pensar: “Ué! o filme já chegou no ápice?”. Mas o melhor vem nos 85 minutos seguintes. Dizer além disso pode arruinar toda estrutura do roteiro cheio de reviravoltas criado pelo jovem Ted Griffin (na época com 26 anos)– o mesmo roteirista de Mortos de fome. A direção leve e despretensiosa do britânico Mike Barker também colabora. Seu acerto é manter a câmera discreta, não sobrepondo-a às inventivas situações em que os personagens se metem (ao som de Angel do Massive Attack). As confusões são suficientes para falarem por si só.

Duas ressalvas tiram o título de “revelação do ano” para Planos quase perfeitos. Uma vai para o desenvolvimento dos personagens. Em determinada altura, suas características perdem ressonância e parece que viram meras peças, agindo em função do mote para o qual foram designadas. O problema não está na atuação ou direção de atores. Josh Brolin está ótimo como um típico conquistador arrogante, de quem não se pode esperar nada muito genial. Reesse Witherspoon, na época, recém-saída do elogiado Eleição, finalmente aparece (numa segura performance) com tudo de sensual e perigoso que uma mulher crescida pode sugerir. Alessandro Nivola, por sua vez, também mostra-se vitorioso. Ele consegue transmitir a sensação de que realmente está fugindo de um avalanche de mal-entendido.

O segundo senão fica por conta da solução fácil do final. Ela acontece quando o protagonista faz uma associação automática com um elemento que foi insinuado sem importância no meio do filme. A fórmula não convence e apenas diminui o brilhantismo do roteiro como um todo. Vale esclarecer que esse deslize foi agora revelado não para espantar o interesse dos leitores de crítica de cinema, mas apenas para deixá-los em vantagem aos não-leitores.

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