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Reportagens

Produção de “Maria Moura” vira “novela”

Sem pagar a equipe, a produção foi interrompida e tentou evitar a “síndrome ‘Chatô'” (reportagem de 2001)

Por Luiz Joaquim | 28.11.2018 (quarta-feira)

– texto originalmente publicado no Jornal do Commercio (Recife), no ‘Caderno C’, em 21 de janeiro de 2001, domingo. (Na foto acima, de Maria Chaves, na primeira reunião com a advogada Otília Vasconcellos, a esquerda, cenotécnicos discutiram termos jurídicos).

Quando deu a primeira entrevista no Recife a respeito do longa-metragem Maria Moura, que viria a rodar em Pernambuco, a cineasta Leilany Fernandes não adivinhava a sorte que lhe esperava. Depois de administrar por duas vezes a mudança de sua atriz protagonista, a diretora se viu obrigada, na segunda metade de novembro, a interromper as filmagens para levantar fundos a fim de restaurar o prejuízo acumulado. Depois de garantir ter firmado novo contrato, há poucos dias, com sua empresa nacional de telecomunicação (que a diretora, prefere, por enquanto, não revelar o nome), a produção promete entrar em nova fase, com a intenção de reiniciar os trabalhos a partir de março.

Em 18 de outubro, dez dias após filmar o primeiro rolo de película em Petrolina, a equipe de Maria Moura apresentou a atriz Dira Paes como substituta de Ana Beatriz Nogueira para o papel principal. Leilany explicou que a mudança não só atrasou o cronograma como também trouxe prejuízo ao orçamento inicialmente planejado (anunciado, em maio último, pelo valor de R$ 3 milhões). “Ana Beatriz percebeu que não tinha estrutura para suportar o clima forte do Sertão e precisou sair do projeto. Tivemos sorte de Dira Paes se interessar pela personagem, mas o fato é que parte do nosso trabalho tinha sido perdido”, lamenta a cineasta, estreando na direção de um longa-metragem.

Outras complicações ajudaram a retardar as filmagens. Em Caboclos – uma das locações, na divisa do Piauí -, caiu uma forte chuva que comprometia a fotografia do trabalho. Ainda naquela localidade, a retirada dos postes de rua (para não comprometer a ambientação da história) levou mais tempo do que devia. Leilany explica que interromper as filmagens significa prejuízo, porque a parada estende o aluguel dos equipamentos e a hospedagem e alimentação de atores, figurantes e técnicos. “Muita coisa colaborou para que precisássemos refazer os cálculos do orçamento e redirecionar o dinheiro da produção”.

Artistas esperam pagamento para não recorrer à Justiça – Enquanto ainda definia detalhes contratuais para captar novos recursos, semana passada, a cineasta tomou outro susto. Soube que parte da equipe técnica de Pernambuco e outra do Rio de Janeiro articulavam, respectivamente, com o Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado de Pernambuco (Sated-PE) e o Sindicato do Trabalhador na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual (STIC-RJ), uma forma de garantir o pagamento atrasado há pouco mais de dois meses.

Entre os pernambucanos que participavam da realização de Maria Moura está o ator Aramis Trindade e vários outros do teatro local, como Marcelo Valente e Ivonete Melo. Na parte técnica, Adão Pinheiro e equipe ficaram responsáveis pela direção de arte, enquanto Xuruca Pacheco, Celinha do Cariri e Gízia Mazda cuidaram dos figurinos e adereços. “Mesmo com a saída de Ana Beatriz, continuamos trabalhando, dando sequencia as filmagens que não envolviam a protagonista. Com a chegada de Dira Paes, prosseguimos nosso serviço até 15 de novembro, mas nosso último pagamento se refere a outubro”, conta o cenógrafo Gilmar Crisóstono, que comanda um grupo de dez profissionais em cenografia. E Adão Pinheiro reforça: “Ainda depois que toda a equipe se recolheu, e voltou ao Rio de Janeiro, mantivemos o trabalho, viajando a Ipojuca, onde visitamos o Engenho Gaipió para definir novas locações”.

DESGASTE No Rio de Janeiro, o maquiador Guilherme Pereira, preocupado com as quatro semanas que trabalhou e não recebeu, recorreu, junto a outros técnicos, ao auxílio de uma advogada designada pelo STIC-RJ para intermediar a negociação com o produtor executivo do longa, Vitor Lustosa. A assistente de direção de Leilany, Júlia Moraes, lembra que todos os profissionais de cinema no Brasil conhecem as dificuldades administrativas da área mas, mesmo assim, ela e os companheiros acharam melhor procurar o STIC-RJ para tomar informações e assegurar seus direitos. “Mas o que queríamos mesmo era ter de lançar mão da Justiça, porque a gente vive de cinema e esse tipo de ação desgasta a imagem da produção nacional”, revela.

A postura de paciência da equipe do Rio condiz com o depoimento de Júlia Moraes, e foi refletida na decisão assumida na última reunião realizada, quarta-feira passada, no sindicato carioca. Os técnicos estão definindo de que forma vão usar a intermediação da lei nas negociações com a Femina Produções Artísticas Ltda.

Em Pernambuco o passo é outro. Já na próxima terça-feira, a advogada convocada pelo Sated-PE, Otília Cabral Vasconcellos, estará recolhendo, no sindicato, todos os dados pessoais e contratuais de alguns atores, figurinistas e cenotécnicos pernambucanos interessados em preparar uma petição à Justiça do Trabalho.

MINC – Preocupada com a “Síndrome Chatô” provocada no cinema nacional, Leilany Fernandes afasta possíveis suposições a respeito da regularidade de sua produção, ressaltando que sua equipe mantém o Ministério da Cultura (MinC) sempre atualizado. “Já enviamos até um copião (primeira cópia do negativo filmado), com 35% do filme, para a instituição tomar conhecimento de nosso andamento. Algumas pessoas acham que a função do MinC é para policiar e punir indiscriminadamente. Pelo contrário, o MinC é muito criterioso e dá, inclusive, conselhos ao produtor que enfrenta dificuldades”.

A cineasta garante que se tivesse engrenado a nova captação há mais tempo, certamente já teria sanado o problema com a equipe. “Tenho um carinho e cuidado especial com toda a equipe pernambucana. Tudo deve regularizar muito em breve, para voltarmos às filmagens, se possível, em março”, diz a diretora que, incansável, continua buscando novos parceiros. As próximas imagens estão planejadas para serem captadas em Ipojuca e São José da Coroa Grande.

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