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Festivais

48º Gramado (2020) – King Kong en Asunción

Um continente, na forma de um velho, em busca de uma fagulha de vida.

Por Luiz Joaquim | 25.09.2020 (sexta-feira)

– Acima, o apresentador e crítico Roger Lerina entrevista equipe de King Kong en Asunción, em foto divulgação de Cleiton Thiele.

Logo em suas primeiras imagens, e também na organização dos primeiros encadeamentos dessas imagens, King Kong em Asunción – segundo longa-metragem de ficção assinado por Camilo Cavalcante, que encerrou ontem (24) a mostra competitiva do 48º Festival de Cinema de Gramado –, deixa evidente que estamos diante de um filme que fala alto e claro da sua origem: o cinema.

Há ali, nos instantes iniciais, pelos movimentos do Velho (Andrade Júnior, fascinante) – como um matador de aluguel determinado a encerrar sua carreira levando sua última vítima para a execução no deserto do Salar de Uyuni (nos Andes boliviano) –, uma compreensão cinematográfica de que o espaço e o tempo são como duas pedras preciosas quando se quer sequestrar um espectador.

Não o espaço (=o cenário, a locação, o enquadramento da fotografia) descolado do tempo (=a duração do que se transcorre dentro de um plano específico, ou o encadeamento da sequência de planos determinado pela edição), mas sim com cada um desses elementos (espaço e tempo) ajudando um ao outro.

Sendo que, no caso de King Kong en Asunción, esse casamento opera em combinação respeitosa e imediata para o espectador com o ritmo de seu protagonista, o Velho. E isso que, como uma promessa, se apresenta tão bem já nos minutos iniciais da obra – atentem para o Velho minúsculo, diante da natureza, caminhando lentamente pela extensão da imagem para dar o tiro de misericórdia em sua vítima e depois retornar ao ponto de partida, no tempo dele (do Velho) –, também está marcado ao longo do filme.

O ritmo do velho é o de um fracassado, exaurido por toda uma vida seca e pautada pela violência, movido a uísque e charutos e sem um destino. Uma vida de vazios, como é aquele próprio cenário.

Serão inúmeras as comparações da deambulação do Velho com as de Travis, o desmemoriado de Wim Wenders (Paris, Texas 1984). Mas, se as longas extensões do Texas norte-americano podem ser relacionadas ao vazio de lembranças na cabeça de Travis, em King Kong em Asunción, temos no Velho o vazio existencial de uma vida inteira. Mas, ao contrário de Travis, um vazio autoconsciente e, portanto, perturbador.

São duas, no mínimo, as dimensões que Camilo conseguiu emprestar a essa simples história de um solitário andarilho latino-americano, no fim da vida, que tenta acessar a única e última, talvez, possível faísca de humanidade na sua trajetória miserável ao ir para Assunção, no Paraguai, atrás de uma filha que nem sabia existir.

A dimensão que está mais na superfície é a da própria fatalidade a que todos estamos submetidos: seguir um trajeto tentando encontrar algum prazer e, depois, morrer. Não à toa, é pela voz onisciente e onipresente da morte (interpretada em off pela atriz paraguaia Ana Ivanova), como um fardo que o observa e o persegue, que vamos conhecer o passado do Velho e as suas motivações (ou a falta delas).

A partir dessa direção, com a ‘morte’ nos revelando segredos em tom poético e no idioma guarani, é que esbarramos na segunda dimensão do filme: A do Velho, ele mesmo, como um espelho da história da América Latina diante do mundo.

Andrade Júnior em cena de “King Kong em Asunción”

Um/a personagem/região originalmente rico/a e em harmonia com a sua família/população indígena abençoada pela terra molhada da chuva, mas que, no passado, foi maltratado/a pela violência do invasor e, depois, se apropriou dessa violência para seguir adiante. Tornando-se, entretanto, uma vítima da própria violência.

Interessante que, ao menos em um momento no trajeto do Velho, Camilo consegue enxertar uma pequena vingança contra as autoridades violadoras dessa sudámerica tão sofrida. Uma vingança envolvendo retratos e urina. Cena que, numa sala de cinema de algum festival latino, certamente geraria gritos de libertação.

A TRILHA SONORA – Assim como o anterior A história da eternidade (2014), King Kong en Asunción atesta Camilo Cavalcante como um dos mais afiados cineastas de sua geração no Brasil a administrar e ampliar a força que canções podem operar agarradas a um enredo cinematográfico.

Se Fala, do Secos e Molhados, ganhou imagens difíceis de descolar dela pela performance de Irandhir Santos no filme anterior, no filme atual, o trajeto solitário do Velho até o Paraguai, tendo a morte como única vigilante, mas também cercado pela exuberância da natureza (da mãe terra), ganham uma proporção quase épica quando coberta pela melodia de Pachamamata Jampiykusun, na interpretação de Luzmila Carpio. É de arrepiar.

A chave é também fácil e coerentemente virada para a leveza quando Camilo cobre a aventura do Velho, ao volante de um BMW conversível, com She made me cry, hit de 1973 dos paulistas ‘Pholhas’.

A inteligência musical de Camilo, assessorada por Gustavo Montenegro, ainda inclui aqui Violeta Parra com sua Volver a Los 17, na voz de Mercedes Sosa, para arrematar essa história tão particular e triste, reconhecível por todos nós latino-americanos.

Acompanhe, no vídeo abaixo, a entrevista de hoje (25) com os realizadores dos filme exibidos na noite de ontem (24) no vídeo abaixo, hospedado no canal do Festival de Gramado no YouTube.

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