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Festivais

Mundo Árabe ’20: O Dia em que Perdi Minha Sombra

Guerra que mata até sombras. Filmes da Mostra Mundo Árabe estão disponíveis online, e de graça, até 27/9

Por Ivonete Pinto | 08.09.2020 (terça-feira)

A guerra civil na Síria começou em 2011 e desde então não há produção de cinema no país. Isto já diz muito de O dia em que perdi minha sombra (The Day I Lost my Shadow/Yom Adaatou Zouli, 2018), exibido na Mostra Mundo Árabe de Cinema em Casa, a versão pandemia de um evento que já teve 14 edições. Neste ano, totalmente online, apresentou cinco títulos inéditos, mais uma programação que recuperou produções de anos anteriores. As obras podem ser vistos na plataforma da Mostra Mundo Árabe (clique aqui) até 13 de setembro, e na plataforma Sesc Digital (clique aqui) até 27 de setembro.

O filme da diretora síria Soudade Kaadan está entre os inéditos no Brasil e despertou interesse por onde passou, tendo recebido o prêmio Leão do Futuro no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 2018. Em função da guerra, Soudade (homenagem ao nome de uma música árabe) filmou no Líbano, com atores profissionais e não profissionais, entre libaneses e sírios refugiados  no Líbano e na França. A diretora, que nasceu na França, vive hoje em Londres  e antes disto havia  morado no Líbano para estudar cinema. Segundo ela, em entrevista realizada pelo canal do Icarabe (Instituto de Cultura Árabe) que promove a Mostra – acompanhe a entrevista aqui -, não havia graduação em cinema em Damasco e ela optou pelo país vizinho. Com os históricos conflitos na região, ir para a Inglaterra acabou sendo uma  alternativa para continuar fazendo cinema.

Este é o primeiro filme de ficção de Soudade, que dirigiu anteriormente documentários, alguns deles disponíveis em seu canal no YouTube.  Damascus Roof and Tales of Paradise (2015), por exemplo, dá uma boa ideia  das preferências da diretora para tratar a realidade. Predominantemente observativo, não deixa de recorrer à poesia, neste caso, utilizando até as ferramentas da animação. Um sensível e necessário documento que preserva a história da Síria. Em um dos trechos, vemos um senhor que exibe uma caixinha de madeira com vidros de remédio que tem 150 anos e pertencia ao seu  avô. Imagina-se que tantos anos desta guerra tenham feito a caixinha, a casa centenária e o personagem  desaparecerem.

Talvez pela experiência no registro documental e pela consciência da importância da preservação da memória, O dia em que perdi minha sombra tenha a envergadura estética de um documentário, com sua câmera ágil procurando os personagens no quadro e, acima de tudo, revelando com realismo uma verdade do contexto que costuma ser atributo da não-ficção. No entanto, o filme é todo encenado e trabalha um apelo no universo do poético, que é o elemento fantástico contido na metáfora da sombra.

O enredo se passa em 2012, com a  jovem mãe Sana (Sawsan Arshid )   criando o filho sozinha  em uma zona de guerra. Seu marido está há seis anos trabalhando na Arábia Saudita, destino de muitos árabes do Oriente Médio em busca de emprego. Sana trabalha em uma farmácia, tem uma casa boa, mas  durante uma guerra tudo adquire o status de  provisório, como a própria farmácia que é invadida e cujo dono desaparece. É preciso ter um tanto de informação sobre a guerra civil para entender que existe o exército do ditador Bashar al-Assad e seus milicianos dispostos a tudo, e existem os insurgentes, que  corajosamente estão contra o ditador, e estão espalhados em cerca de mil grupos rebeldes, entre eles o Estado Islâmico.

Sana tenta sobreviver em meio ao caos da falta de luz e de gás. Aliás, um trunfo do filme, que o torna particular,  está justamente em explorar menos as questões políticas envolvendo o conflito, e mais  o impacto delas na vida cotidiana. Um dos primeiros planos mostra Sana chegando em casa correndo e tirando a roupa já em frente à máquina de lavar, isto porque ela sabe que irá faltar luz. A luz falta no meio da lavagem e o que era para ser uma tarefa comezinha da vida doméstica, vira uma impossibilidade. Quando falta gás, Sana entra numa fila carregando um botijão. Também ali há um incidente e a partir daquele momento tem início outra etapa do enredo.  Sana pega um táxi com uma conhecida e seu irmão (Reham Alkassar e Samer Ismail) em busca de um fornecedor de gás e as barreiras do exército de al-Assad geram um pesadelo para o trio. Eles caem numa espiral de erros que parece não ter mais volta.

O dia em que perdi minha sombra não traz cenas de combates, ou sequências de ação típicas de histórias ambientadas em guerras, mas a diretora, que também assina o roteiro , faz a roda girar. Na medida em que o tempo passa, Sana não consegue voltar para casa;  a preocupação com o filho só cresce. No caminho, conhece outras pessoas que tentam sobreviver, inclusive uma família de muçulmanos sunitas que a ajuda (Sana, ao que tudo indica, é de origem cristã). Os personagens são desenhados sem maniqueísmo e o roteiro dá ao filme uma complexidade humanista inegável.

Às mulheres é reservado um papel de seres fortes, porém sem heroísmo forçado. Quando cavam a terra para abrir espaços para os sepultamentos diários, a imagem das covas ganha mais uma dimensão para quem vive hoje os efeitos da Covid-19: os cadáveres esperados. Ninguém passa incólume por uma guerra, ninguém passa incólume por uma pandemia. Claro, seria inadequado ignorar que há quem sofre mais e quem sofre menos. E cavar sepulturas para serem ocupadas por pessoas próximas certamente tem uma carga dramática difícil de digerir, contudo a analogia com as mortes no Brasil guarda alguma pertinência uma vez  que a Síria vive uma guerra civil, está cindida em duas. Por nossa vez,  vivemos um confronto interno, um polo que  combate o vírus, outro que o negligencia, e o morticínio segue solto.

Cena de “O dia em que perdi minha sombra”

Religião e política – No mundo árabe, somente o Egito tem um número de filmes mais expressivo e cuja produção comercial serviu como modelo para outros países, como a Síria, sobretudo no exagero da encenação de dramas e comédias. Uma influência estética que perdura até hoje (a bem dizer, até a guerra interromper a produção), mas que não afeta o filme de Soudade. Ao contrário,  O dia em que perdi minha sombra paga tributo a um cinema ocidental contemporâneo, sendo contido tanto na performance do elenco, quanto no uso da trilha sonora   sem arroubos. Sem dúvida, traços que existem em função das experiências culturais da diretora fora da Síria, pois que lá nunca houve de fato um cinema livre.

O primeiro longa-metragem sírio, The innocent accused (al-Muttaham al-bari’), é de 1928  e não pode ser exibido porque  as autoridades francesas (a Síria foi colônia francesa de 1923 a 1943 ) não gostaram que a protagonista fosse uma mulher muçulmana. O esforço para que houvesse a hegemonia de um discurso cristão durou pelo menos duas décadas. De qualquer forma, se Soudade tivesse ficado na Síria, na hipótese da guerra não ter acontecido, ela teria que se deparar com esta situação: desde que o clã al-Assad assumiu  o poder, em 1971, seu partido  Ba’ath  determinou que o estado tivesse o monopólio da produção e da distribuição, decidindo quem poderia filmar, com qual conteúdo. O documentarista Omar Amiralay (1944–2011) foi um dos poucos que conseguiu trabalhar, não sem enfrentar o controle estatal.

Soudade Kaadan não se interessa por política, nem por religião, assim como sua protagonista. É inclusive um pouco frustrante ouvir a diretora falar de seu país  desviando-se dos temas.  Nem por isto faz um cinema menos relevante. Seu mérito  está em uma encenação ágil que valoriza o cotidiano de pessoas comuns e  na metáfora anunciada no título e que percorre todo o filme. Sua personagem tem a sensibilidade de perceber quando as pessoas perdem suas sombras, prenúncio de que irão morrer em breve. Há um  diálogo no filme em que ela expressa esta capacidade: no dia seguinte à bomba em Hiroshima, Sana viu em uma foto onde aparecia a sombra dos mortos, não seus corpos. Na entrevista para o Icarabe, a diretora confirma que a inspiração para o simbolismo da sombra veio de uma foto de Hiroshima que ela mesma viu, apenas que no filme ela inverte a imagem: a sombra aparece para quem ainda está vivo.

A diretora também recusa referências à religião. E neste sentido somos tentados a fazer a relação com um hadith, os ditos do profeta Maomé, que  traz o seguinte: “Onde estão aqueles que se amam por Minha glória? Hoje, Eu os protegerei com Minha sombra, no Dia em que não haverá outra sombra que não a Minha.” Para os muçulmanos, a força do hadith é clara, faz sentido e  tem beleza poética para rechear de sugestões a leitura do filme.

Maomé a parte, a sombra de  fato traz  metáforas  fortes o  suficiente sem precisar de outros vínculos, mas já que estamos no terreno do fantástico, do que não pode ser explicado, e o cenário carrega um teor religioso, nos parece que não devemos desprezar as ilações somente porque a diretora não pensou nelas. Por maior que seja o desapetite de Soudade por questões políticas e religiosas, seu filme está impregnado delas.

Com produção de sua irmã, Amira Kaadan, Soudade levou sete anos para concluir o filme. No entanto, a conjugação da atuação sem reparos da atriz que faz a protagonista, somada à montagem e ao esforço de produção, esta passagem de tempo não é denunciada na tela. Naturalmente, trata-se de uma produção periférica com estofo internacional, que conjugou várias expertises. O resultado é um filme tocante (a imagem final é primorosa, inclusive pela carga realista evitando romantizar a guerra), que impressiona por trazer  em primeiro plano uma personagem às voltas com questões  limite entre vida e morte, o enfrentamento  de traumas sem cura,  na perspectiva de uma pessoa comum. Uma mulher que não se envolveria em nenhuma daquelas situações se não precisasse de um simples botijão de gás.

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