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Festivais

6º Cine Jardim – “Corisco & Dadá”

Rosemberg Cariry é homenageado com exibição de seu premiado filme e debate online

Por Luiz Joaquim | 08.08.2021 (domingo)

Aquela quarta-feira, no 14 de agosto de 1996, não foi um dia qualquer para Rosemberg Cariry. Sob o frio da Serra Gaúcha, o cineasta cearense estava para apresentar a um seleto público no Palácio dos Festivais seu mais novo rebento: Corisco & Dadá. Era o terceiro longa-metragem de Rosemberg, então com 43 anos de idade, e integrava a competitiva da 24ª edição do Festival de Cinema de Gramado.

No próximo 14 de agosto, completando portanto exatos 25 anos do nascimento do filme para o mundo, o 6º Cine Jardim: Festival de Cinema Latino-americano de Belo Jardim (PE) – que inicia amanhã (9) – colocará à disposição até 18 de agosto, online, pelo site do evento (clique aqui), Corisco & Dadá para que uma nova geração tenha acesso à obra cinematográfica responsável por colocar Rosemberg não apenas no radar do cinema nacional, mas também internacional.

Já na competitiva de Gramado, a produção saiu premiada com o Kikito de melhor atuação masculina para Chico Diaz (dividida com Cassiano Carneiro, por Quem matou Pixote?). Dois meses depois, foi a vez de Dira Paes, aos 28 anos, levar o Candângo de melhor atriz na 29º edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Não bastasse participar dos dois resistentes e mais emblemáticos festivais de cinema do Brasil, Corisco & Dadá chegou ao Festival de Toronto e ao de Havana, do qual saiu com o terceiro lugar na principal honraria do evento, o Prêmio Coral.

 

Rosemberg Cariry

A produção ainda apresentaria o talento de Rosemberg para a Itália,  França e Estados Unidos entre outros países. Importante lembrar que estamos falando de 1996 e de uma produção rodada no Nordeste do Brasil, com o orçamento em torno de R$ 500 mil, tendo como ponto de partida o ‘Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro’, o mesmo que possibilitou nascer Carlota Joaquina: Princeza do Brasil, de Carla Camurati, e O baile perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

O cineasta de postura sempre empertigada para cada trabalho que assume vinha desenvolvendo o projeto de Corisco & Dadá desde 1994 (mesmo ano em que Dadá veio a falecer). Para tanto, pesquisou sobre a trajetória do casal de cangaceiros protagonistas em livros, teses acadêmicas, jornais da época e fez algumas entrevistas para chegar no desenho final em que se tornou a obra.

Foi essa segurança a respeito do que queria contar, e como contar, que livrou Rosemberg de uma inesperado problema depois de o filme já estar em cartaz no circuito comercial.

Aconteceu no final de novembro de 1996, em Salvador (terra onde Dadá viveu seus últimos dias). Ali, Rosemberg soube que um juiz havia proferido uma liminar para a apreensão das cópias do filme que exibiam na capital baiana. A ordem surgiu a partir de um pedido das descendentes de Dadá, que exigiam também R$ 5 milhões (ou seja, um valor 1.000% acima do valor da produção do filme) de indenização por não concordarem com algumas cenas, alegando “invasão indevida de privacidade” do casal protagonista.

Para a nossa sorte, a justiça não tirou Corisco & Dadá definitivamente de nosso alcance, pois a filiação da obra de Rosemberg ao ‘Prêmio Resgate’ mais o bom barulho que o filme fez pelo Brasil e pelo mundo há 25 anos não deixam dúvida sobre o seu importante papel na exposição do cinema brasileiro naquele árido momento pós-Collor quando, entre 1992 e 1995, não chegamos a lançar nem 15 títulos nacionais nas salas de cinema.

Rosemberg, a propósito, é homenageado nesta edição do 6º Cine Jardim e participa de debate online e gratuito agendado para 15 de agosto,  às 19h, com acesso pelo Canal do Cine Jardim no YouTube (clique aqui) e pelo seu perfil no Facebook.

25 ANOS DEPOIS – Rever Corisco & Dadá com um quarto de século de distância é particularmente curioso por percebemos que uma espécie de fome pelo cinema, embalada pelo carinho e respeito nutridos por Rosembeg pela cultura nordestina, ainda estão lá.

Rosemberg (d) dirige Diaz em “Corisco & Dadá”, crédito divulgação: Tibico Brasil

São marcas claras que permanecem impressas no filme, como não podia deixar de ser, uma vez que o cineasta viria reforçá-las e renová-las em seu trabalhos posteriores, realçando uma assinatura: a de um erudito que investiga essa cultura popular com o mesmo respeito e reverência que empregaria para estudar qualquer outra expressão do mundo milenarmente já referendada e celebrada.

Cercado de iguais em sua fome, Rosemberg teve na música marcante de Toinho Alves, executada pelo Quinteto Violado; teve na fotografia atenta à luz dura do sertão de Ronaldo Nunes; e teve na montagem dinâmica (e premiada) de Severino Dadá trunfos que, somados ao talento da dupla protagonista e a uma clareza de onde ele próprio (Rosemberg) queria chegar com o seu filme, tornaram Corisco & Dadá em algo marcante, mesmo dentro de um universo largo e já bastante explorado, tematicamente falando, no cinema brasileiro. Universo que até nomenclatura própria ganhou, no passado: o nordestern. Um, digamos, gênero surgido no rastro do violento sucesso internacional de O cangaceiro (1953), de Lima Barreto.   

A boa mão de Dadá (do montador, não da personagem do filme) já está nos créditos da abertura, na qual ele brinca com imagens originais, captadas nos anos 1930, com o bando de Lampião serelepe diante das lentes do libanês Benjamin Abrãao.

Já a sequência em que Dadá (não o montador, mas a protagonista) é violentada por Corisco no que parece um extenso milharal seco é um dos melhores exemplos da boa combinação entre a compreensão de Rosemberg sobre o que pode virar uma envolvente sequência cinematográfica – com a câmera na mão, dentro da ação, próximo dos atores, quase trombando neles – somada à dinâmica da montagem de Dadá, sempre bem alimentada pelas muitas imagens de apoio previamente pensadas por Rosemberg.

A propósito da sequência em que a então adolescente Dadá (interpretada por Maira Cariry) sofre um estupro, nela, o filme busca a representação sem o abuso da atriz, ou seja, algo que é imperativo no cinema de hoje já era pauta presente décadas atrás no cinema de Rosemberg.

Ainda nesse quesito, um momento mais duro parece ser aquele em que uma das mulheres do bando de Lampião (interpretada por Virginia Cavendish) é punida com a morte por ter traído o companheiro, enquanto seu amante sai impune do entrevero. Se, por ventura, para a plateia do passado a sequência de incômoda violência possa ter parecido desnecessária, em 2021 ela parece soar como um recado bem dado do cineasta sobre o triste destino das mulheres que, no passado, não se intimidavam diante dos homens – triste destino que, infelizmente, ainda não se tornou raro em 2021.

E, no campo da performance, mesmo que com um desigual desenvolvimento na atuação de todo o elenco e figurantes, Corisco & Dadá nos dá um belo espetáculo com seu casal protagonista. É marcante Dira Paes nos entregando uma adulta Dadá vibrante, alternando inocência seguida por resignação e, depois, revolta pela vida bandida ao lado do parceiro cangaceiro (num papel que sedimentou o seu talento, antes apresentado em Floresta das esmeraldas e em Ele, o boto).

Dira Paes com seu Candango em Brasília (1996), ao lado de Tonico Pereira (melhor ator por “O Cego que Gritava Luz”).

Já Chico Diaz nos entrega um Corisco crível em sua brutalidade, assustador até, mas deixando também passar, a nós espectadores, uma réstia da confusão de sentimentos que habitam aquele homem marcado pela violência e contínua desgraça em sua vida. Sua ira, por exemplo, ao saber que, pela terceira vez, perdia um filho bebê para a seca e a miséria, seguida pela blasfêmia enfurecida que pragueja contra Deus e a Igreja, acompanhada também pelo estripamento de um soldado, são cenas de puro terror e de escuridão absoluta sobre um personagem, que Diaz executa com comovente competência, assim como a sequência da vingança pelo assassinato do amigo Lampião.

Já encravado na história do audiovisual brasileiro, Corisco & Dadá nos chega 25 anos depois como um documento valioso sobre um cinema corajoso, persistente e vitorioso, realizado ‘longe demais das capitais’ e, por isso mesmo, autêntico naquilo em que se propunha representar. A história da sua gente.

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