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Críticas

Rua Guaicurus

Prostituição sob atmosfera de cumplicidade, generosidade e afetos

Por Humberto Silva | 11.07.2022 (segunda-feira)

Rua Guaicurus, de João Borges, é um filme horrível. Um alerta, contudo, sobre o adjetivo. Quando alguém vê um acidente na estrada com corpos espalhados pelo chão, aquilo que vê é horrível. A imagem de corpos espalhados no chão não deixa de ser horrível se pintadas por um pintor. Uma tela pintada por Goya com imagens dessa natureza, contudo, pode sem culpa ser adjetivada como bela. O jogo entre o belo e o horrível exige que se matize o confronto entre realidade e obra de arte. Rua Guaicurus, híbrido de documentário e ficção, expõe de modo explícito esse confronto. A realidade exibida é horrível. Mas, há beleza na obra cinematográfica?

A questão assim posta, com a adjetivação, faz que pense em Ferdinand Saussure. Com ele, quando estamos diante de um signo, há diferença entre significante e significado. Esse é um caminho que, entendo, ser oportuno para abordar Rua Guaicurus, que acompanha o cotidiano em hotéis na zona de prostituição em Belo Horizonte, na rua que dá nome ao filme.

A realidade horrorosa (significante) é exibida com cores escabrosas. O que ela significa, cabe ao espectador matizar. Por se tratar de uma realidade cruel, para a qual a “sociedade” toma como dejeto, similar a uma fossa, pois, tenho como pressuposto que a iniciativa de João Borges se insere no que entendo como obra de urgência. A discussão sobre o valor do filme como obra cinematográfica não precisa entrar em pauta. Rua Guaicurus é um filme em que o matiz sociológico se impõe a uma indigesta discussão sobre gosto. Para mim, portanto, uma disputa quanto a obra ser ou não horrível (que se engole com má vontade) camufla o fundo social e o sentido de urgência quanto ao tema.

Cena de “Rua Guaicurus”

Como antecipado, João Borges joga com a fronteira que separa o documental e o ficcional, encenado e não encenado. Nessa fronteira, um debate antigo, que envolve Dziga Vertov e Sergei Eisenstein. Entre eles, a aposição na maneira pela qual o cinema distorceria, ou falsearia a realidade filmada. Conforme fosse ou não encenada. No flagrante, a realidade é apreendida de improviso. Em decorrência, a imagem captada não é falseada. Um lenhador corta uma árvore, mas não sabe que está sendo filmado. Na mise-en-scène, pede-se a alguém que faça algo diante de uma câmara. O lenhador sabe que há uma câmara filmando-o derrubar uma árvore. Na encenação ficcional aquele que age é um ator. Não é necessariamente um lenhador que corta a árvore, mas alguém que finge ser lenhador. Portanto, a imagem captada é falseada.

Em oposição a Eisenstein, Vertov defende que o flagrante é aquela situação fílmica que não apresenta distorção da realidade filmada. Daí como deve ser compreendida sua concepção de montagem em Um Homem com uma câmara (1929), quando posta ao lado da montagem intelectual de Eisenstein em O encouraçado Potemkin (1925). Para aquele, a montagem se compõe pela junção de flagrantes da realidade. Rua Guaicurus põe em cena prostitutas encenando que são prostitutas e “clientes” que são clientes. Cabe ao espectador aferir em que medida há ou não distorção da realidade filmada.

O que, por outro lado, está fora de questão é que a intenção de João Borges foi a de exibir o mundo cão da zona de prostituição mineira de modo a humanizar prostitutas e clientes. Subentende-se pelos relatos que há uma realidade sórdida que os coloca no mesmo ambiente. Assim procedendo, as situações, os quadros, que compõem o filme são envolvidos por uma atmosfera de cumplicidade, generosidade e afetos.

“…As situações, os quadros, que compõem o filme são envolvidos por uma atmosfera de cumplicidade, generosidade e afetos”

Histórias de violência se diluem num espaço em que o companheirismo dá o tom das relações humanas. Esse recorte, que dignifica uma realidade repulsiva, igualmente desdramatiza, tanto quanto falseia a complexidade das experiências vividas. No afã da humanização dos atores sociais, a impressão de que os clientes pedem desculpas por sustentarem a prostituição. Enquanto isso, as prostitutas são tão cândidas que a prostituição foi a única escolha livre que fizeram. Ou seja, uma contradição em termos.

Guaicurus, a rua, desponta em plano aberto, à luz do dia, nas imagens que encerram o filme. Praticamente todo o resto foi filmado à noite, em espaços fechados, em planos médios e de conjunto, com a câmara invariavelmente fixa. A se observar que há poucas cenas externas e, igualmente, não há trânsito além das conversas entre as prostitutas e entre elas e os clientes. Isso me parece encobrir, a considerar o matiz sociológico do filme, cafetões e congêneres que transitam a céu aberto. Uma eventual pulsante e perigosa vida externa aos quartos de hotéis numa zona de prostituição está ausente em Rua Guaicurus.

Um dado de curiosidade, para fechar: apesar do teor do tema, há tímidas cenas de sexo explícito. Raras exibidas são poucos nítidas em razão da iluminação concebida nas filmagens. A esse respeito, não há em Rua Guaicurus o apelo que motivou produtores e cineastas da Boca do Lixo em São Paulo nos idos dos anos de 1980. Voltemos ao adjetivo que abre este texto e dá pano pra manga: horrível. O público que via filmes na Boca do Lixo não iria hoje ao cinema para ver Rua Guaicurus.

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