
O Museu da Inocência
Memórias inventadas de Orhan Pamuk
Por Luiz Joaquim | 11.03.2026 (quarta-feira)
Provavelmente, esta série não vai virar cult. Talvez na Turquia, onde estreou no 13 de fevereiro de 2026 (Dia dos Namoradas por lá), pois ela é baseada no romance homônimo do Nobel de Literatura Orhan Pamuk. No Brasil, corre o risco de ser confundida com um típico drama turco onde moça pobre e moço rico vivem um amor impossível em função do conservadorismo daqueles homens bigodudos que não param de fumar. Há excesso de violinos, vento esvoaçando cortinas, chuva artificial, câmeras lentas, campos de girassóis… Enfim, uma profusão de elementos que resultam em uma estética cafona, isto considerando um certo padrão de bom gosto que julgamos ter. O importante é que a diretora Zeynep Günay Tan, contou com a total aprovação de Pamuk, que aparece na série como ele mesmo. E ver um produto para televisão assinado por Orhan Pamuk é um luxo.
O Museu da Inocência (Masumiyet Müzesi) tem os estereótipos dos dramas turcos, mas vai muito além. Reflete com olhar crítico, inclusive sobre este traço tão clichê desses, ao colocar um filme dentro da série discutindo esse clichê. Para entrar na série de nove episódios da Netflix, proponho aqui algumas chaves. A primeira está na própria literatura de Pamuk, que escreveu obras indispensáveis para se conhecer a gênese da sociedade turca, muitas delas a partir da sua própria vivência como alguém que nasceu em uma família abastada.
O olhar dentro do autor, ilumina o desequilíbrio do antigo com o novo, a tradição e a modernidade, o sexismo, a religião, quase tudo derivado de narrativas envolvendo memória, com aquelas casas cheias de tias (lembram da frase da Geni em Toda Nudez Será Castigada?) e de maridos e suas amantes. Istambul – memórias de uma cidade, Neve, Meu pai são exemplos. Mesmo que o autor retroceda em séculos para contar uma história, como no caso de Meu nome é Vermelho, onde volta ao século XVI, ele quer falar de famílias, inclusive denunciando o cinismo de classe e o cinismo de gênero. O Museu da Inocência tem tudo isso.
Ainda na literatura, o personagem Bartleby (Bartleby, o escrivão, de Herman Melville) ressoa no protagonista da série, Kemal (Selahattin Paşalı), só que em sentido inverso. Bartleby se nega a aderir, a participar, a trabalhar. “Preferia não fazê-lo” é seu mantra. Kemal, diferente dele, vai aceitando tudo. Um sujeito meio sem vontade, levado pelas circunstâncias, sem coragem de desfazer um noivado embora apaixonadíssimo por outra mulher. Há a pressão social, familiar, mas não parece ser este o determinante. Kemal simplesmente vai dizendo sim para a noiva, para a mãe, para o pai e até para a amante. Seria acometido por uma espécie de apatia que o impede de se posicionar.

Selahattin Paşalı como Kemal em cena de “O Museu da Inocência”
Filmes – Na chave do cinema, o protagonista de Mastermind (Kelly Reichardt, 2025) guarda algumas semelhanças, além de ambos serem ambientados na década de 1970. Os protagonistas já passam dos 30 anos e são irresponsáveis, graças à tutela familiar. Kemal, um herdeiro rico que pouco trabalha, é protegido pela família, pela posição social, pelo dinheiro que tudo compra. Só que vai fazendo tanta asneira, que em dado momento a proteção não serve mais. Apaixonado pela prima pobre de 3º grau, já não consegue mais conjugar as relações com a noiva (rica) e com a amante, que desiste dele. A forma que Kemal encontra de manter o vínculo é coletando objetos ligados à prima. Vai formando então o tal museu no apartamento onde se encontrava com ela (uma garçonnière, como a de Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri).
Para entrar na série, também é possível observarmos como Pamuk apresenta os conflitos de classe. Já no primeiro episódio, o autor deixa claro quem é quem através de uma singela bolsa que dá à noiva e esta enumera as razões pelas quais não pode aceitar. Ele não sabia que a bolsa era falsa e somente uma mulher rica, possuidora de bolsas verdadeiras, poderia identificar. Ali, já vemos a posição que a menina (18 anos!) que viria a ser sua amante tem naquela sociedade e naquela relação.
O apartamento garçonnière da família de Kemal é um achado dramatúrgico para falar de classe. É um imóvel que a família dele mantem, mas não usa. Serve para guardar objetos, deve ter servido para o pai de Kemal encontrar-se com a amante que teve no passado. Através de louças e móveis, vemos o retrato de uma burguesia, vemos uma herança otomana coberta pela poeira do tempo.
O diretor Nuri Bilge Ceylan tem sido exímio em demonstrar como a sociedade turca se comporta em relação à classe. Sono de Inverno (Kis Uykusu, 2014), por exemplo, é um primor em exibir a violência envolvida entre pobres e ricos. O Museu da Inocência, ao seu modo, também revela as dissimulações e as imposturas, porém de maneira mais oblíqua, preferindo centrar-se na história de amor de Kemal e Füsun (Eylül Lize Kandemir). Aliás, na obsessão de Kemal por Füsun , porque o que vemos é um homem que ano após ano não consegue reconquistar sua amada e, parece, está mais interessado em coletar os objetos que passaram pela mão dela. Esta natureza pouco assertiva do personagem faz a série ser mais intrigante.
O perfil da personagem Füsun é cercado de uma névoa. Nunca sabemos o que ela que, o que ela pensa. Ora corresponde ao amor de Kemal, ora comporta-se como uma oportunista querendo apenas que ele invista em sua carreira de atriz. Nunca sabemos se está sendo sincera ou não. Às vezes, a ambivalência está posta no mesmo plano, exigindo da atriz um jogo de olhares que o protagonista, cego de amor/obsessão, não percebe.
Muito embora o mote da série esteja sempre presente, vale chamar a atenção para o contexto e como ele é trabalhado nos nove episódios. Um exemplo é o exército parando as pessoas nas ruas. De fato a Turquia viveu um golpe militar, entre outros, que foi de 1980 a 1983, e deixou marcas terríveis de ataque aos direitos civis (o governo de Erdogan não fica muito para trás neste quesito). O roteiro da série, seguindo o livro, incluiu uma cena bem ilustrativa da ação dos militares, conjugando-a com o fetiche de Kemal por coletar objetos da casa de Füse.
O extrafílmico – Não posso encerrar o texto sem falar de um item extrafílmico (ou extrasserial): a existência real do Museu da Inocência. Os interessados em aprofundar, encontrarão na Internet vasto material sobre como Orhan Pamuk construiu uma história a partir dos objetos que coletou por anos a fio e que serviram de inspiração para o enredo que inicia em 1975.
Após a publicação do romance O Museu da Inocência, em 2008, Pamuk tratou de organizar formalmente o museu, comprando uma casa do século XIX no bairro de Beyoğlu, perto da icônica torre de Galata em Istambul. Com a participação de curadores e arquitetos, o museu foi inaugurado em 2012 e contém mais de mil objetos.
O museu, ao que tudo indica, será agora mais visitado por causa da série. E se as décadas de 1970 e 1980 estão expostas ali por meio de objetos que Pamuk ia encontrando e comprando, ou simplesmente juntando do chão, igualmente revela sua própria obsessão, já que mais de quatro mil bitucas de cigarro ganharam um espaço ali. Cigarros que pertencem a uma ficção que se transforma em imaginário.
Para quem fiou interessado, há ainda o imbróglio de Pamuk, que anos atrás vendeu os direitos de O Museu da Inocência para uma produtora, odiou o roteiro e teve que entrar na justiça para impedir a produção. Mas esta já é outra história.















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