
79ª Cannes (2026) – Brasil na ‘Marché du Film’
De Carolina Maria de Jesus a Rafa Kalimann: os filmes brasileiros selecionados para o mercado de Cannes.
Por Yuri Lins | 07.05.2026 (quinta-feira)
— Na imagem em destaque, Maria Gal interpreta a escritora Carolina Maria de Jesus no filme “Carolina: Quarto de Despejo”, dirigido por Jeferson De.
Embora o cinema brasileiro não tenha garantido vagas nas mostras competitivas da Seleção Oficial do Festival de Cannes em 2026, o país mantém uma presença estratégica e numerosa no Marché du Film, o braço comercial do evento voltado estritamente para negociações e venda de direitos. Neste ambiente, empresas e produtores investem em credenciamento e locação de salas para apresentar suas obras a distribuidores e investidores globais, visando a inserção comercial dos títulos fora do circuito de premiações.
Um dos destaques com exibição no mercado é o drama Deixe-me Viver, dirigido por Walther Neto. O longa narra a jornada de uma jovem que, ao enfrentar um diagnóstico terminal, decide exercer sua autonomia e interromper o tratamento médico hospitalar para viver seus últimos dias fora do ambiente clínico. A trama se aprofunda no embate ético e emocional com sua mãe e no impacto dessa escolha no núcleo familiar. Protagonizado por Mônica Carvalho — que também assina o roteiro ao lado de Michele Muniz e Marcelo Corrêa —, Cat Dantas e Humberto Martins, o filme foi rodado em locações que contrastam o litoral de Trancoso, na Bahia, com a rotina urbana do interior paulista, contando com participações de Luciana Vendramini e Oscar Magrini. A exibição está marcada para o dia 20 de maio, no Palais C.

“Deixe-me Viver”, dirigido por Walther Neto
Também no campo do cinema de gênero, o terror psicológico Ilhéus, dirigido por Manu Sobral, terá exibição no dia 18 de maio no Palais J. A produção acompanha Luana, uma estudante de arqueologia de São Paulo que viaja a uma ilha remota para investigar vestígios de rituais fúnebres de uma civilização desaparecida há 1.500 anos. O que começa como uma pesquisa científica transforma-se em uma experiência perturbadora e psicodélica ao enfrentar entidades que protegem a memória local. Rodado na Prainha Branca, no Guarujá, o filme envolveu a comunidade local na equipe e no elenco, tendo origem em um curta-metragem premiado internacionalmente.
No segmento de projetos em desenvolvimento, o terror O Véu, de Gabriel Motta, ganha visibilidade ao ser selecionado para o programa Fantastic 7. A narrativa mergulha no suspense psicológico ao acompanhar um grupo religioso que simula rituais de possessão como ferramenta de manipulação e fé. A linha entre a encenação e o sobrenatural se rompe quando um caso real de manifestação espiritual ocorre dentro do grupo, forçando os personagens a confrontarem suas próprias crenças e medos. O projeto busca em Cannes parceiros para finalizar sua estrutura de financiamento internacional e fortalecer a força do cinema de gênero brasileiro no exterior.

“Ilhéus”, longa de Manu Sobral
Já Minha Querida Alice, de Rogério Sagui, apresenta ex-bbb e apresentadora Rafa Kalimann em seu primeiro grande papel dramático no cinema. Ela interpreta uma professora cuja vida em uma fazenda é devastada por um episódio de violência doméstica extrema. O filme foca na complexa reorganização psíquica e social da protagonista após sobreviver a uma tentativa de feminicídio, explorando o silenciamento e a busca por justiça em comunidades isoladas. A produção, que tem previsão de lançamento comercial no Brasil para o segundo semestre de 2026, marca um posicionamento estratégico da atriz também como produtora associada.

“Minha Querida Alice”, de Rogério Sagui
A iniciativa Festival do Rio Goes to Cannes leva cinco obras em fase de finalização que exemplificam a diversidade estética e temática do país. Entre elas, o aguardado Carolina – Quarto de Despejo), dirigido por Jeferson De e protagonizado por Maria Gal. O longa adapta a obra literária de 1960 que revelou a vida na extinta favela do Canindé, em São Paulo, através do olhar de uma catadora de papel que transformou a fome e o racismo em um dos diários mais lidos do mundo. Com roteiro de Maíra Oliveira, a produção contou com a participação de Vera Eunice, filha de Carolina, e reconstruiu a favela dos anos 50 em um cenário de 400 m², utilizando tecnologia de LED para recriar a atmosfera da época.
A seleção do Rio traz ainda Talismã, da diretora Thais Fujinaga, que explora o universo dos programas de talentos infantis através de uma dançarina que vê sua trajetória profissional ser tensionada pela projeção da filha na televisão, em uma trama sobre heranças e frustrações geracionais. Já Diário do Fogo, de Maju de Paiva e Bernardo Florim, acompanha a jornada de uma mulher que, após ter seu lar e sua história consumidos por um incêndio em uma ocupação, precisa reconstruir sua identidade em meio aos escombros, misturando elementos de suspense e drama humano.
O circuito é completado por O Personagem, de Fábio Mendonça, que utiliza a figura de um imigrante haitiano em São Paulo para discutir a invisibilidade social e a construção de novas raízes em um território muitas vezes hostil. Por fim, Borda do Mundo, de Jô Serfaty, acompanha o retorno de um personagem a uma região litorânea afetada pela erosão e mudanças ambientais severas, transformando a paisagem em um espelho do apagamento das memórias e das comunidades locais.
Desse mosaico de histórias e gêneros podem sair os próximos sucessos de bilheteria e crítica do país. Filmes para ficar de olho.
O 79º Festival de Cannes acontecerá entre os dias 12 e 23 de maio. Confira os filmes selecionados para a competição oficial e as mostras paralelas:















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