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Críticas

Happy Feet (2006)

E o patinho virou pingüim

Por Luiz Joaquim | 24.11.2006 (sexta-feira)

Parece que com “Happy Feet: O Pingüim” (idem, EUA,
2006) a animação em Hollywood finalmente começa a se
libertar do enredo camisa-de-força criado por “Shrek”
há cinco anos. Significa que não temos nesse novo
trabalho de George Miller (ele mesmo, o australiano
que trouxe ao mundo “Mad Max”, 1979) uma história mais
reflexiva e menos galhofeira. Com a mesma dose de
momentos sorumbáticos quanto de momentos
carnavalescos.

É também um filme essencialmente infantil, sem ser
imbecil. Que não trata o infante como um débil, tal
qual faz meia-dúzia de produtos animados descarregados
nos cinemas ao longo do ano. “Happy Feet”, ou, numa
tradução livre “pé animado”, apresenta números
musicais que enchem os olhos e os ouvidos da platéia,
mas também traz longos momentos de silêncio, nos quais
o espectador mirim pode sentir e sofrer junto com o
pingüinzinho (da raça Imperador) Mano (Elijah
Wood/Daniel de Oliveira), vítima de preconceito e
conseqüente isolamento de seu grupo.

A razão desse preconceito está, claro, na sua
diferença que adquiriu ao nascer. Ao invés de
desenvolver o dom que marca sua raça (cantar bem) e
que lhe possibilita conquistar uma pingüim fêmea e
criar uma família, Mano apenas dança. E dança bem.
Sapateia, na realidade. A postura inusitada é vista
com maus olhos, primeiro pelo pai de Mano e, depois,
pela comunidade que ojeriza tal comportamento
insolente do jovem.

O roteiro, escrito por Miller, John Coleen, Judis
Morris e Warren Coleman, encontrou nessa fábula uma
filão perfeito sobre intolerância e injustiça causados
pela diferença. Toda sorte de oprimido ou perseguido
pelo mundo – homossexuais, negros, latinos, mulheres,
soropositivos, índios, adolescentes – pode se espelhar
na solidão que Mano é obrigado a vivenciar. O
pingüinzinho Mano é, no século 21, o que foi “O
Patinho Feio”, criado pelo dinamarquês Hans Christian
Andersen (1805-1875), no século 19.

Há o fator ‘fofura’ também. O bebê Mano, de imensos
olhos azuis, resplandece ternura e um atrapalho, uma
falta de jeito, que inspira carinho no espectador. O
universo de sua comunidade também é lúdico e inocente
– ambiente saudável (necessário?) para aquele
espectador que não ultrapassa 1,20 metro de altura; e,
o mais edificante aqui: a determinação de Mano em
seguir adiante com sua diferença, não fazendo dela um
peso na vida.

O principal ponto que desperta e atrai os adultos aqui
são a beleza plástica – oriunda de uma precisão cada
vez mais impressionante na animação digital em 3D – e
as canções que embalam a vida dos pingüins Imperador.

Para acasalar, escuta-se os bichos imitando de Elvis
Presley a Prince, passando ainda por Bee-Gees e Earth,
Wind and Fire. Vendo esse espetáculo na tela, dá quase
para enxergar bailarinos vestidos de pingüins na
cerimônia do Oscar 2007, defendendo uma estatueta para
“Happy Feet”.

Talvez um problema no filme de Muller seja a solução
um tanto ingênua para o final do filme, quando o mundo
se rende fácil ao talento de Mano, garantindo sua
felicidade e a de seus semelhantes. De qualquer forma,
um bom programa é apontar uma sessão dupla de “Happy
Feet” com o documentário “A Marcha dos Pingüins”,
lançado nos cinemas em 2005 e hoje em DVD. Enquanto
um, com imagens reais (e não menos impressionantes)
realça a insistência pela sobrevivência, o outro
aposta na insistência de um deles pelo reconhecimento
como indivíduo.

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