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Festivais

16º Tiradentes (2013) – noite 3

Universos surreais e adoráveis em Tiradentes

Por Luiz Joaquim | 22.01.2013 (terça-feira)

TIRADENTES (MG) – Terceira noite da 16a Mostra de Cinema de Tiradentes, no domingo, brilhou com, ao menos um dos dois filmes exibidos dentro do novo módulo intitulado Mostra Transições.

“Transições” foi o nome dado para abarcar o conceito dos longas-metragens (são sete aqui) em que todos os diretores estão em início de carreira com obras empolgantes, que nos estimulam a querer ver seu próximo trabalho, como “Eles Voltam”, de Marcelo Lordello.

Dos dois trabalhos do domingo, “Doce Amianto”, que veio do Ceará pelas mãos de Uirá dos Reis e Guto Parente (este último do coletivo Alumbramento), cumpriu a proposta da “Transições”.

Sendo absolutamente impossível de chegar próximo a uma tradução por palavras a explicar “Doce Amianto”, o que se pode dizer de seu enredo é que o travesti Amianto (Deynne Augusto) vive com sua longa peruca loira no seu particular mundo da fantasia. E esse mundo já atropela o espectador nas cenas ultra-coloridas de abertura com Amianto numa corrida “cinematográfica”.

Lá, Amianto só tem como amiga a Blanche (o diretor Uirá dos Santos), espécie de fada madrinha roxa e púrpura, que está sempre ali para aconselhar a romântica Amianto, deixada pelo homem de sua vida.

A primeira referência que vem a mente em “Doce Amianto” é a de David Lynch pelo universo e diálogos totalmente irreais e improváveis que se coloca diante de nós. Mas há mais do que conhecemos do diretor estrangeiro. Há a graça brasileira ali. O deboche sábio cearense, sem falar no cenário.

As cores berrantes e as conversas ingênuas entre Amianto e Blanche, ou ela flertando numa boate, são descontroladamente cômicas pelo exagero e rebuscamento descabido: “Como vai Amianto?”, arrisca um paquera na festa, “Vou indo rápido em direção ao meu futuro incerto…”, diz a heroína em seu torpor da paixão.

Com dois momentos fora do universo de Amianto – o flashback da vida pregressa de Blanche e a perspectiva de uma futura vida de casada de Amianto – são nada menos que geniais e inseridas de forma totalmente orgânicas nesse circo adorável criado por Guto e Uirá.

Com classificação etária 18 anos, vale registrar que “Doce Amianto” traz a cena de sexo homossexual masculina mais séria e corajosa que temos conhecimento no cinema brasileiro (excluindo-se as produções objetivamente pornôs, claro).

Não só por isso, o que é apenas mais um de vários elementos fortes aqui, “Doce Amianto” ressalta não só a inventividade criativa (que roteiro!) da dupla, como também sua coragem de por em foco um filme único, incomum, que remete a ousadia também sem igual do longínquo “Macunaína” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

O outro longa exibido no programa “Transições” foi “A Balada do Provisório”, do carioca Felipe David Rodrigues. Conta a história de André Provisório. Ora detetive particular, ora biscateiro, ele se envolve amorosamente com uma atriz estudante (Clara Maria).

Seguindo a atmosfera própria do chamado Cinema Marginal, “A Balada…” tem seus momentos cômicos pelo seu anti-heroi vivido por Edson Zille e com a presença de gente com Helena Ignez e Otário III, atores do Rogério Sganzerla. Mas o filme soa anacrônico no desejo de provocar. Os dez primeiros minutos de “Doce Amianto”, à propósito, coloca no chileno todo a tentativa de audácia do “Balada…”.

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