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Críticas

Os Miseráveis (2013)

A grandiloquência da miséria

Por Luiz Joaquim | 31.01.2013 (quinta-feira)

A grande sacada de Tom Hooper, diretor de “Os Miseráveis” (Les Misérables, Ing., 2012) que estreia amanhã (01/02/13), talvez seja mesmo a técnica que inventou para apresentar o clássico homônimo de Victor Hugo (publicado em 1862) como um musical cinematográfico. Ela, a técnica, consistiu em fazer cada ator cantar, ao vivo, em todas as tomada que vemos na tela. O resultado é bom e claramente laborioso.

Para todos os outros musicais que estamos habituados a ver no cinema, as canções são gravadas separadamente pelos atores, em estúdios, em condições específicas em termos de conforto e qualidade, para só depois serem sincronizadas com as imagens do filme.

Em “Os Miseráveis” já na primeira e grandiosa sequência em que o prisioneiro Jean Valjean (Hugh Jackman, excelente) canta uma canção enquanto puxa, numa doca, uma galé gigantesca sob uma chuva fenomenal é possível perceber o ritmo de sua respiração de acordo com seus movimentos.

A cadência musical aqui com este novo elemento, a respiração ofegante de forma mais perceptível, proporciona um novo efeito no espectador: o de nos colocar mais próximo do sentimento vivido pelo personagem.

De acordo com Simon Hayes, responsável pela mixagem de sons da produção, não havia tecnologia para fazer isto até cerca de cinco anos atrás, com o padrão e a qualidade do microfone que seria preciso para o que se vê em “Os Miseráveis”.

Hooper, oscarizado há dois anos por “O Discurso do Rei”, acertou pela audaciosa opção. A respiração, os fungados nos choros, os ruídos com interferência do ambiente e tudo o mais tornam menor a distância entre nós e o conhecido estranhamento que se tem quando vemos um musical.

Quase que totalmente cantando e com raríssimas falas ditas sem o tom da empostação vocal, “Os Miseráveis” nos obrigar a olhar para ele de outra forma. As canções aqui não aparecem e desaparecem do nada. Elas fluem por todo o filme, do início ao fim, em sua maior parte como diálogos entre os personagens, e quase nunca como um desvairio solitário de tristeza dos pobres coitados criador pelo autor francês.

Um destes coitados é Fantine (Anne Hathaway) a operária que perde o emprego e passa a se prostituir para pagar que um casal de estalajadeiros (Sacha Bonham Carter e Helena Bonham Carter) cuidem de sua pequena filha Cosette (Isabelle Allen, criança; Amanda Seyfried, adolescente). É de Hathaway um dos momentos mais fortes do filme, quando canta “I Dreamed I Dream” (Eu tive um Sonho), e por isso ela deverá ser lembrada por muitos anos no cinema, além de agraciada com um Oscar de coadjuvante (cerimônia é dia 24 de fevereiro). – Clique no link ao final desta página e leia entrevista com Hathaway.

O filme, à propósito, concorre a outras sete estatuetas do homem dourado: como melhor filme, direção, ator, direção de arte, maquiagem, canção e figurino.

Hugh Jackman (veja entrevista logo abaixo) também é forte concorrente ao prêmio uma vez que seu Valjean é a principal amarra do filme. Em suas 2h40min. de duração, cobre um período de 17 anos a contar de 1814; 29 anos após a Revolução Francesa, quando a França tem um novo rei, Luiz XVIII.

A performance aqui do eterno Wolverine é magnética, deixando, inclusive, que a dramaturgia do filme perca um pouco da potência quando ele não está em cena. Tanto pelo empenho da transformação física (perdeu sete quilos para as cenas como prisioneiro) quanto para seu talento musical, já visto em “Austrália”, 2008, mas em “Os Miseráveis” sendo melhor aproveitado.

Como se não bastasse, há no filme, uma construção cênica atraente aos olhos, que impressiona nas sequências de batalha, lembrando as pinturas de Delacroix. Esse visual refinado está a serviço da consição narrativa que o roteiro encabeçado por William Nicholson oferece.

Aos que gostam de substitui um livro por sua adaptação cinematográfica, é bom saber que “Os Miseráveis” (o filme) condensa os cinco volumes originais escritos por Victor Hugo (1. Fantine; 2. Cosette; 3. Marius; 4. Idílio da Rua Plumet e epopeia da Rua Saint-Denis; 5. Jean Valjean). E, apesar de bem adaptado, não dá conta de sua grandeza literária.

No filme, vemos Valjean prestes a ganhar sua liberade condicional após 19 anos de pena por roubar um pão para alimentar o sobrinho faminto. Passando nove anos como foragido, ele forja uma nova identidade após uma conversão cristã e torna-se prefeito de um vilarejo, mas continua sendo perseguido pelo policial Javert (Russell Crowe, o mais fraco do elenco).

Sentindo-se responsável pela vida de Fantine, decide ir em busca de Cosette a passa a criá-la. Oito depois, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), jovem que luta pela liberdade no motim de 1832, sob as barricadas da Rua Saint-Denis, em Paris.

Apesar da impressionante maestria do diretor Hooper em concatenar tanta informação e ainda de maneira orgânica e fluída, mesmo em forma de musical – que possui uma dinâmica própria -, “Os Miseráveis” não segura em sua segunda metade o mesmo envolvimento da metade inicial. De toda forma, é impossível não ficar tocado, agora pelo filme, com a representação da pobreza miserável e covardia da realeza. Um drama que já comove, há 150 anos, todos os leitores de Victor Hugo.

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Entrevista(*): HUGH JACKMAN

Deve ser um esforço maior para sua voz cantar ao vivo para várias tomadas?
Cantar ao vivo para todas as tomadas não é fácil e você realmente tem que cuidar da sua voz. Você acorda, digamos, às sete da manhã, e ainda está cantando à uma da manhã. Não é como no teatro onde você se fecha por algum tempo durante o dia, relaxa por algumas horas e então se prepara para sua apresentação. Você se aquece, e pronto, você está no palco por duas horas. E, devido à natureza das filmagens, você não sabe exatamente quando estará atuando – você se prepara para uma cena, mas pode ter que esperar algumas horas antes de ser chamado para gravar.

Tom não havia feito nenhum musical anteriormente. Você ficou intrigado de ver como ele abordou isso?
Certamente. Mas é por isso que as audições são fantásticas, especialmente uma audição de três horas, porque você pode ver exatamente como a dinâmica vai ser. E, mesmo antes disso, eu instintivamente sabia que Tom era a escolha certa. Adorei seus filmes e havia elementos de “Os Miseráveis” com os quais eu sabia que ele se sentiria a vontade – o aspecto de filme de época, o tamanho da produção, sua complexidade. Na verdade, acho que é uma vantagem ter um diretor que não participe intensamente do mundo do teatro musical – é uma vantagem ter alguém mais inclinado para a arte dramática.

O que esta história tem que sobrevive e já emocionou tantas pessoas?
Se eu pudesse simplificar, diria que ela é sobre a descoberta do que há de melhor no espírito humano. Cada um dos personagens nesta história possui obstáculos enormes a superar, maiores do que aqueles que a maioria de nós encontra na vida, mas nós nos identificamos com isso. E repetidas vezes, você vê estes personagens em períodos incrivelmente difíceis, tentando descobrir o que há de melhor em si mesmos. É sobre o que há de melhor na humanidade, o espírito humano.

Você teve que emagrecer para interpretar Valjean na sequência de abertura, quando ele acaba de sair da prisão?
Oh sim (risos). Tom disse, “você precisa parecer um homem forte, muito forte, mas também eu quero que você esteja assustadoramente magro…” e eu disse, “OK…” (risos). Não é fácil ficar magro e ter músculos. Basicamente, estava me exercitando três vezes por dia mas comendo muito pouco. Estava provavelmente sete quilos mais leve do que o meu peso normal.

Você já cantou junto com Anne Hathaway na cerimônia do Oscar
Sim. Sabia que ela possuía uma excelente voz e há muito vínhamos falando em fazermos algo juntos. Tom a descreveu como a musa de “Os Miseráveis” e é verdade. Você poderia tê-la filmado quando ainda estava com o roteiro nas mãos porque tudo estava perfeito. O mesmo acontece com Amanda (Seyfried). Ela cantou anteriormente, em “Mama Mia!: O Filme”, mas isto é diferente.

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