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Críticas

Criadas

Um cinema negro maduro, complexo e imperdível

Por Ivonete Pinto | 11.06.2026 (quinta-feira)

Dirigido por Carol Rodrigues (mulher negra e queer, como se identifica em gesto afirmativo),  Criadas (Br, 2025) constitui-se em um estudo sobre as entranhas da sociedade poucas vezes visto com tal complexidade no cinema brasileiro. O filme se estabelece em dois eixos temáticos (a questão racial e o conflito de classes) e dois registros de encenação (o realismo intercalado com o sobrenatural).

Sandra (Mawusi Tulani) aparece na casa da prima Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) com o propósito de encontrar uma foto de sua mãe. Mãe e filha moraram ali  por muitos anos. Ela vem para a capital paulista tentar emprego como engenheira civil, enquanto a prima é postulante ao cargo de chefe no restaurante onde trabalha. Esta convida Sandra a ocupar um bom quarto na casa, já que mora sozinha na casa herdada da família.  

Em seu longa de estreia, Carol Rodrigues constrói um retrato complexo do Brasil contemporâneo, articulando ascensão social, memória familiar e conflito de classes.

A mãe de Mariana, Olívia (Sarito Rodrigues), é uma mulher preta de tom claro, veio parar na capital paulista como doméstica, casou-se com um homem branco funcionário público, que a incentivou a estudar e ela ascende socialmente também virando funcionária pública. Vive em uma casa confortável, dessas com dois pisos e uma escada majestosa. Esta mulher chama a tia e sua filha, Sandra, para ali morarem. A tia como doméstica. Nesta casa,  Sandra e a prima Mariana convivem no que aparentava ser um arranjo harmonioso. Só que não. Mariana, de pele mais clara, era tratada de modo muito diferente, embora ambas estudassem “na mesma escola particular”, defende-se a então patroa.

A partir deste enredo, temos as relações raciais e de classe expostas, sendo que uma permeia a outra o tempo todo. Inevitável pensar  no colorismo, sobretudo nas ideias da escritora  Conceição Evaristo, quando defende que a discriminação maior se abate sobre pessoas negras escuras do que negras claras. Ou seja, o X da questão é a cor. 

Dando um tom ilustrativo-didático, o filme de Carol Rodrigues insere na trama a doméstica/diarista Raquel (Rudmira Fula), uma imigrante angolana de pele bem mais escura que a de Sandra. Esta personagem funciona como uma baliza pragmática, tornando a discussão entre as primas algo quase retórico, quase pueril em vista da situação da imigrante. Ela precisa apenas de dinheiro para sobreviver. Diz com todas as letras que não quer se envolver com os problemas das duas, que não é amiga delas. Como se dissesse que estava diante de uma versão do white people problems e elas que se entendessem.

Em ‘Criadas’, realismo e sobrenatural se entrelaçam para mostrar como fantasmas pessoais e históricos continuam assombrando o presente.

Carol Rodrigues, autora do roteiro inspirado na sua própria avó, ao introduzir a angolana (doméstica por circunstância, pela sua articulação de fala nota-se que teve  uma boa formação em seu país de origem), cria mais uma camada de reflexão. Não chega a desenvolver com profundidade, porque os personagens centrais são mesmo as duas primas, mas a entrada dele eleva o filme a um patamar ainda mais alto no tema de raça e classe.

A mãe de Sandra, falecida, aparece nas memórias, aparece como vulto fantasmagórico a puxar Sandra para um mundo de ressentimentos. Mesmo agora bem sucedida (ela consegue o emprego como engenheira em uma construtora), o passado sempre volta à tona. Era estigmatizada como a filha da empregada, fato responsável pelo eixo fantástico do filme, onde passado se mistura com presente.

Fantasmas – Nem sempre Criadas acerta na sua  proposta que une realismo-fantasia. Na primeira vez que vemos a inserção de momento não realista na narrativa, há um estranhamento. Nas próximas inserções, já estamos familiarizados com o jogo, onde as primas do passado contracenam com as primas do presente. O que se pode problematizar é que às vezes não funciona, soa demasiado esquemático. O sofisticado artifício brechtniano cumpre sua função de afastar o espectador, colocando-o a refletir. Mas ao mesmo tempo,  transforma as personagens em arquétipos manipulados pelo roteiro. Passam a não ser mais pessoas e sim representações. Outro ponto que se pode fazer objeção, é uma insistente suspeita que coloca em dúvida as intenções de Sandra naquela casa. O “aviso” da mãe de Mariana, quando visita a filha e a vê morando com a prima, gera uma intriga que acaba por não ser desenvolvida e, portanto, resulta gratuita.

Ressalte-se, contudo, que estas observações não comprometem o todo. O todo é uma obra de grande força para se pensar o Brasil contemporâneo à luz de um passado recente. As protagonistas são filhas das políticas públicas, que garantiram acesso ao ensino superior.  Um filme, desta forma, que não poderia ter sido feito há 20 anos. Um dos méritos da diretora Carol Rodrigues  é flagrar um momento histórico relacionando-o com as hierarquias do passado, apostando na dialética.

Entre raça, classe e memória, ‘Criadas’ transforma o espaço doméstico em campo de disputa das hierarquias que atravessam a sociedade brasileira.

O formato escolhido por ela em seu longa de estreia é no estilo huis clos. Todas as cenas, exceto duas imagens do exterior, se passam dentro da casa. A entrada de outros personagens além das primas, fica justificada dramaturgicamente (festas, visitas, empregada), em uma solução narrativa funcional. Beneficiado, por isto, o próprio orçamento do projeto, construído há quase 10 anos desde o primeiro edital de roteiro do Frapa em 2017(Festival de Roteiro de Audiovisual de Porto Alegre).

Este enredo incrível, poderia interessar a qualquer realizador, homem, mulher, branco ou preto, mas não há dúvida alguma sobre o que significa acontecer pelas mãos de uma uma mulher negra. A verdade por trás da história é exalada pelos poros de cada frame. Em especial na carga simbólica do desfecho.

Depois de vencer o prêmio de Melhor Atriz na Mostra Novos Rumos, para as protagonistas Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, o  filme estreia nesta quinta, dia 11, com distribuição da prestigiosa Vitrine Filmes. Imperdível.

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