
79º Cannes (2026) – Natal Amargo
Um Almodóvar autobiográfico e sem novidade
Por Ivonete Pinto | 19.05.2026 (terça-feira)
Pedro Almodóvar quase sempre acerta. Não foi desta vez. De todos os filmes assistidos até aqui, esta foi a reação mais fria que uma plateia de jornalistas pode oferecer a um título da competição oficial. E tem sido motivo de piada transatlântica o fato que jornalistas têm aplaudido entusiasticamente qualquer coisa.
Amarga Navidad (Natal Amargo, já com estreia prevista no Brasil para 28 de maio) arranca bem: uma ex diretora de cinema, que vive de publicidade, sofre uma crise de enxaqueca e vai parar no hospital. É levada pelo namorado bombeiro, striper nas horas vagas. Um diálogo entre a médica e a paciente sobre o que significa um filme cult é um deleite. Logo entra em cena o alter ego de Almodóvar, Raúl, defendido por Leonardo Sbaraglia, que está escrevendo um roteiro e as sequências anteriores na verdade fazem parte deste roteiro. O interesse que estava lá em cima, cai alguns degraus.

Filme dentro do filme
Parece que a fórmula mise-en-abîme atacou mais um diretor neste festival (o outro é Asghar Farhadi, veja aqui). Mas de Almodóvar espera-se que mais cedo ou mais tarde vá nos surpreender, mesmo recorrendo ao seu universo bem conhecido e admirado. Um universo colorido, com Rossy de Palma, com mulheres que sofrem, que estão à beira de um ataque de nervos ou da morte ou em coma. E diretores gay em crise de criação. Enfim, não é preciso desfilar os elementos recorrentes na obra do diretor espanhol, nem tampouco seus prêmios e como é famoso no mundo todo, até no Qatar, etc.
Porém é isto que ele próprio faz, colocando na boca de sua empresária e assistente, as características autobiográficas dos seus filmes. Almodóvar-Raúl está em profunda crise, não produz um roteiro há cinco anos e neste que escreve no filme dentro do filme, é motivo de briga com a assistente fiel, que trabalha para ele há 20 anos. Ela não quer ser personagem do próximo filme e tem razões para isto.
Almodóvar, em chave autocrítica, pinta a si mesmo como egoísta, autocentrado, porém esta fagulha de exposição acaba não sendo suficiente para enxergarmos ali um filme novo.

Sbaraglia (d) como Raúl, alter ego de Almodóvar em “Natal Amargo”
A propósito, Autoficção é o título do filme na França. E quando vemos na tela a palavra logo abaixo de Amarga Navidad, é um anúncio promissor. Não pelo seu sentido ser uma novidade em sua obra de 23 filmes, mas porque o gênero costuma estar eivado de autocomiseração e autoelogio. Certamente, por não desconhecer esta tendência, alude-se que Almodóvar estaria sendo irônico e, de alguma maneira, em algum momento, iria desconstruir sua persona e sua biografia para produzir algo de arrebatador. Um deboche almodovariano já nos faria voltar a ter fé na humanidade. Não podemos esquecer que Almodóvar fez uma biografia interessantíssima em Dor e glória (2019), chamada por ele na época apenas de “filme pessoal”. Porém ali pareceu ser mais honesto (o cineasta que envelhece, cheio de dores) e com maior capacidade de zoar com ele mesmo.
Já o final de Amarga navidad… Bem, o final não será contado, mas o leitor que assistir ao filme entenderá por que a reação em Cannes foi tão morna, pelo menos na sessão das 18h15 na sala Bazin. Sessão sobre a qual, aliás, cabe um registro extra fílmico. Nem havia chegado aos 10 minutos de projeção, ouve-se um grito estranho, que muitos acharam vir do próprio filme, na cena do hospital. Era da plateia. Um homem passou mal, teve uma espécie de gatilho, a sala foi evacuada e a sessão retomou só cerca de 30 minutos depois quando o homem foi levado a um hospital por paramédicos da organização. Não se sabe o que aconteceu com ele, nem com Almodóvar.















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