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Críticas

Alpha

Julia Ducournau usa o horror como isca para construir uma distopia sobre verdade e percepção.

Por Humberto Silva | 12.06.2026 (sexta-feira)

O terror mais uma vez. Ou, um filme com a marca publicitária do body horror. Trata-se de Alpha (Fra, Bel, 2025), da cineasta francesa Julia Ducournau. Uma premissa inicial creio ser o caso de apontar: com a voga de filme de terror a todo vapor, não se pode subestimar o apelo comercial diante dos humores do mercado; por isso, convenções do cinema de gênero e seus correlatos subgêneros em muitos filmes – e acredito ser o caso de Alpha – são em grande parte fluidas e funcionam mais como iscas para fisgar um público amplo.

O cinema de Ducournau – tenho por referência sua premiada obra anterior Titane (2021) – é tão mais interessante quanto mais sejam filtrados apelos comerciais e se tiver em vista motivações comuns que parecem se repetir em seus filmes. O que, numa escala que norteou os filmes de David Cronenberg décadas atrás, faz que se pense neles menos a partir da etiqueta de gênero do que como expressão de cinema autoral.

O quanto seus filmes, tendo por comparação a obra de Cronenberg, se revelam postiços, imaturos ou meramente cosméticos com respeito ao tema da mutação de corpos, isso não anula uma constatação de fundo: Ducournau está sintonizada com questões de comportamento social contemporâneo e, simultaneamente, exibe formas narrativas que merecem no mínimo atenção.

Em Alpha, a desorientação narrativa não é um defeito a ser corrigido, mas um princípio formal que desafia as expectativas da narrativa clássica.

O mais notável para mim é que Ducournau não peca pela falta de ousadia, tampouco em decorrência se exime dos riscos de recepção negativa ao ter como meta circular nas bolhas que cobrem o mainstream cinematográfico. De modo que, creio, não se deva vê-la com um gabarito pronto, que se conforma à expectativa padrão. É assim que vi Titane e é assim que igualmente vi Alpha.

Com respeito a Alpha, que segue em grande medida pressupostos temáticos e apuro visual de Titane, duas coisas me despertam a atenção, pois se revelam evidentes e simultaneamente podem passar despercebidas.

A primeira é sobre a complexidade da trama. Ou, a exibição de um enredo que não se concatena, que gera incompreensões e desperta o sentimento de que há algo profundo quanto ao que se deseja mostrar. Entretanto, essa presunção de profundidade sucumbiria ao se ver um filme que parece não deixar a sensação de ter uma mensagem explícita.

Quem quer que veja Alpha, não tenho dúvida, tem por evidente que Ducournau não se propõe a conta uma história seguindo convenções da narrativa clássica: estrutura pautada na relação de causa e efeito, portanto com encadeamento lógico entre os acontecimentos, e a adoção de convenções básicas da montagem invisível, que visa justamente não desorientar quem acompanha a trama.

O que não me parece perceptível, no entanto, é que o juízo negativo a respeito de um filme não deveria recair sobre escolhas formais como efeito de suas pressupostas ousadias narrativas. Isso deveria ser trivial, mas o modo como Alpha foi recebido negativamente após sua exibição em Cannes no ano passado me faz crer não ter sido perceptível que o juízo de valor de um filme se mede com réguas distintas conforme se tenha por premissa a narrativa clássica ou sua negação.

Mais do que explorar a mutação dos corpos, Julia Ducournau investiga formas contemporâneas de instabilidade, incerteza e desajuste social.

A esse respeito, para não tirar o pé da história do cinema, imagino como amarrar os fios em A Estrada Perdida (1997), de David Lynch, ao se apontar “problemas” narrativos em Alpha. Pode-se objetar que, se posta na mesma prateleira de Lynch, ou mais apropriadamente Cronenberg, Alpha de Ducournau ficaria muitas gavetas abaixo. Sim, e eu poderia estar de acordo. Pois estou verdadeiramente em desacordo com a crítica a Alpha em razão de sua “narrativa confusa”, em que os fios da trama não se ligam.

Erros narrativos apontados em Alpha me parecem mais de miopia, acomodação ao esquema de produção padronizada, desmotivação para aceitar desafios de interpretação, e menos de impulso para assumir o risco de, sim, errar com uma interpretação equivocada.

A segunda coisa evidente e ao mesmo tempo despercebida em Alpha. Há dois planos narrativos diegeticamente bem definidos e separados cronologicamente por oito anos: o filme mostra a protagonista que dá título ao filme, Alpha, com cinco anos e com treze anos. Esses dois planos, por sua vez, se embaralham de modo a escapar qualquer certeza sobre eventos vividos antes e depois. Portanto, não há em Alpha flashback ou flashforward e sim interpolação temporal nos blocos narrativos. E isso, sim, é evidente a qualquer espectador atento.

O que passa despercebido? Arriscar dizer sobre intenções e possibilidade de interpretação que Ducournau oferece ao realizar Alpha. Trata-se apenas de um exercício de estilo? Ela teve o propósito de fazer um filme exclusivamente para gerar controvérsias? Ela chama a atenção para algo que deseja mostrar sem, no entanto, ser bem-sucedida?

Sob a aparência de um body horror, Alpha pode ser lido como uma alegoria distópica sobre verdade, erro e percepção no mundo contemporâneo.

Pode ser tudo isso. Não objetaria como ponto de partida. Mas arrisco uma interpretação de Alpha a partir de uma imagem. Um enquadramento frontal num ônibus que conduz a protagonista e seu tio. O que se vê? Por suposto, evidente, o destino a que chegaram: Gare des Chantiers.

Ocorre que Alpha teve locação externa em Le Havre, na Normandia. Embora no plano diegético não haja uma localização precisa de onde a ação se passa, eis um infortúnio do cinema, um francês poderia rapidamente reconhecer a locação e ver que o ônibus não está em Versalhes, onde fica a Gare des Chantiers.

Ou seja, eis o que para mim passa despercebido, divulgado como body horror, a desespacialização e atemporalidade imprecisas de Alpha me levam a conjecturar que se Ducournau não teve intenção ela acaba, contudo, oferecendo mais uma distopia do que um filme de gênero.

Uma distopia, no caso, não como projeção de futuro, mas que se pode servir como incômoda alegoria do presente. O que é um falso positivo no diagnóstico de uma doença? Essa a situação vivida por Alpha na trama. E para ela o falso positivo é desgraçadamente verdadeiro positivo.

Vejo algo similar hoje com o avanço da IA, as fakes news, o embaralhamento com a manipulação da verdade nos “cortes” nas redes sociais. Quis ou não Ducournau fazer com Alpha uma alegoria para o presente distópico, isso não me importa. É assim, entretanto, que recebi Alpha

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