
Dia D
É sobre nós, não sobre eles.
Por Luiz Joaquim | 11.06.2026 (quinta-feira)
A primeira imagem de Dia D (Disclosure Day, EUA, 2026), de Steven Spielberg, mostra a sola de uma bota vindo violentamente em direção à câmera, em nossa direção, no nosso rosto. Na última, uma mulher olha nos nossos olhos e, gentil e serena, nos pede: “Escutem”.
Entre essa abertura animalesca e aquele desfecho plácido, Spielberg brinca com suas próprias referências cinematográficas criadas ao longo de mais de meio século de atividade para nos entregar, a partir de mais um roteiro co-escrito com David Koepp, um filme que agrega o melhor do espírito escapista das matinês com uma mais que bem vinda dose existencial.
Parece uma fórmula perfeita – mas nunca fácil em sua dosagem – para arrebatar mentes e corações de todas as idades e de todos os lugares. Spielberg, em Dia D, entretanto, faz a extraordinária experiência vivida por Kellner (Josh O`Connor) e Maggie (Emily Blunt) fluir de maneira contagiante em sua urgência para revelar ao mundo um segredo de 79 anos.
Ao mesmo tempo, ele desacelera com elegância em momentos estratégicos para imputar neste enredo o que há de nobre em seu recado: somos ou não somos maduros para encararmos nossas limitações?

Somos ou não somos maduros para encararmos nossas pequenezas?
Essa não parece ser uma questão para o especialista em segurança cibernética, Kellner, que trabalhou na WARDEX, a secreta organização não-governamental norte-americana responsável por encobrir informações sobre vida e tecnologia extra-terrestre desde o famoso incidente em Roswell, em 1947.
Não é uma questão porque Kellner não só fugiu da WARDEX com um dispositivo de tecnologia desconhecida como também levou centenas de confidenciais arquivos em audiovisual com a inflexível determinação de vazá-los para o mundo, contando com a ajuda de Hugo (Colman Domingo), outro dissidente da ONG secreta.

Kellner (Josh O ‘Connor): determinado a revelar a verdade ao mundo
Numa conversa com a namorada Jane (Eve Hewsen), que já estudou num convento como noviça e perdeu a vocação, mas não a fé em Deus, Kellner escuta dela algo como: “Você não teme desestruturar a ordem do mundo como ela é ao revelar algo assim?”, para escutá-lo responder, com convicção, que não cabe a ele decidir como as pessoas irão processar algo que é real, ainda que assustador. A verdade precisa ser revelada porque todos merecem conhecê-la.
É um princípio correto mas que, na prática, pode ter consequências desvirtuadas, sabemos.
O que a conversa de Jane e Kellner quer colocar em jogo é o quanto nós, pequenos e insignificantes seres, suportaríamos viver num novo mundo em que todos os paradigmas espirituais-religiosos-filosóficos que nos guiaram até hoje fossem pro lixo a partir do que os alienígenas teriam a compartilhar conosco.
Para além das autoridades espirituais ou intelectuais, as autoridades políticas e financeiras também estariam numa sinuca, uma vez que Nietzsche, como culminância do Iluminismo, anunciou a morte de Deus em A gaia ciência, ali no final do século 19, e abriu alas para o homem do século 20 se autodenominar o seu próprio Deus. O deus ‘poder’ e o deus ‘dinheiro’ estariam, portanto, também sob risco.

Noah (Colin Firth): O opositor; o guardião do deus ‘poder’, que caça Kellner e Hugo (Domingo), ambos nas imagens por trás dele.
Juntando-se a Kellner, há a personagem mais intrigante e carismática de Dia D: Maggie.
A Maggie, vivida em estado de graça por Blunt, não se movimenta em direção à revelação da verdade pelos mesmo motivos do fugitivo da WARDEX. Ela é impulsionada por algo que está fora do seu controle, como uma possessão que lhe empurra instintivamente ao encontro de Kellner. Dizer mais é revelar muito do enredo.
As confusões involuntárias em que essa metereologista de uma emissora de tevê na cidade do Kansas se mete abrem espaço também para os momentos cômicos do filme, em particular na relação da moça com o seu namorado Jackson (Wyatt Russell). Um pobre incrédulo, como nós espectadores, com os diversos dons que começam a aflorar em Maggie depois de uma certa visita no café da manhã.

Maggie (Blunt) e Jackson (Russell) recebem uma visita no café da manhã
Entre o humor e a correria alucinada digna de gato e rato – no caso o ‘gato’ sendo assumido por Noah (Colin Firth), o chefão da WARDEX -, com direito a perseguição de automóveis desenvolvidas como poucos conseguem, Spielberg encontra espaços também para o que há de humano (frágil) nestes dois heróis a contragosto. E, claro, quanto mais humano (frágil) mais vamos nos identificar com eles; e mais “dentro” do filme podemos chegar – ou mais dentro de nós o filme se aboleta.
É crível e comovente, por exemplo, a crise de pânico experimentada por Maggie após quase ter sido assassinada. É como uma caneta pincel amarela sublinhando para nós, com maestria, que sim, aqui estão duas pessoas comuns, ordinárias, vivendo algo extraordinário que, necessariamente, não conseguem suportar. E, vale registrar, não há como não se impressionar com o que Emily Blunt nos entrega aqui.

Kellner e Maggie: Duas pessoas comuns emaranhadas em algo de inimaginável importância mundial
Por fim, bom também apontar que Spielberg retoma brincadeiras estético-narrativas criadas por ele em Minority report: A nova lei (2002) e Guerra dos mundos (2005) – aos menos estas são as mais evidentes neste Dia D – só que de maneira menos pesada, quase ‘sussurradas’.
Bom apontar também que, claro, Spielberg abre mais uma vez espaço para algo que administra tão bem como realizador: dirigir crianças e criar um ambiente infantil aconchegante (ou traumático) colocando-o como definidor da nossa identidade, sem nunca subestimar a força do lúdico tão vivo, que é próprio da criança em si mas também daquela ‘criança’ que ainda está lá em todos nós, adultos.
Para que o espectador goste de Dia D não precisa acreditar que alienígenas existem, basta acreditar que o bom cinema ainda existe.















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