
O Bolo do Presidente
Realizado no Iraque, o filme apresenta a infância e a ditadura como os termos de uma equação perturbadora
Por José Geraldo Couto | 09.06.2026 (terça-feira)
O iraquiano O bolo do presidente, de Hasan Hadi, se insere numa linhagem de filmes em que o olhar de uma criança revela os perigos e maldades do mundo adulto. Ambientado em 1991, conta a saga da pequena Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), de 9 anos, para conseguir os ingredientes de que precisa para fazer um bolo em homenagem ao presidente Saddam Hussein, tarefa que lhe foi designada por sorteio na escola.
Desse argumento enganosamente singelo, inspirado em memórias de infância do próprio diretor, constrói-se uma narrativa poderosa e envolvente, que ilumina uma situação histórico-social precisa (o Iraque sob a ditadura de Saddam e as asfixiantes sanções impostas pelas potências estrangeiras), ao mesmo tempo em que sugere uma leitura mais ampla, aplicável em alguma medida a todas as ditaduras.

O olhar de uma criança expõe a dureza da vida no Iraque dos anos 1990, entre a pobreza, o medo e a luta pela sobrevivência.
Vamos tentar explicar. Seja na aldeia em que vivem, nos pântanos da Mesopotâmia (sul do Iraque), seja na estrada ou nas ruas movimentadas de Bagdá, onde supostamente vão em busca dos ingredientes almejados (ovos, açúcar, farinha, fermento), Lamia e sua avó estão inseridas no reino da escassez, onde cada centavo é precioso e as pessoas buscam se virar por todos os meios, lícitos e ilícitos. É um mundo duro, impiedoso, que se choca a todo instante com a inocência de Lamia, cujo inseparável animal de estimação é um galo.
A própria avó, descobriremos junto com Lamia, não é confiável: em vez de buscar os tais ingredientes para o bolo, sua intenção é deixar a neta com uma família da cidade.
Nessa trajetória de percalços, há um equilíbrio admirável entre o olhar da menina – que está o tempo todo em cena – e um registro objetivo, quase documental, da vida cotidiana. Nessa operação, vemos coisas que Lamia não vê (ou não compreende bem), e isso de certo modo intensifica a angústia da nossa jornada de espectadores, o impulso de acolher e proteger aquele ser indefeso.
O exemplo máximo desse efeito talvez seja a sequência em que um comerciante engana a menina dizendo que vai conseguir para ela um dos ingredientes e, em vez disso, a leva pela mão até um cinema pornô. Muito antes de saber o desfecho da cena já intuímos que as intenções do homem são as piores.
Um dos filmes que vêm à lembrança diante de O bolo do presidente é o iraniano O balão branco (1995), de Jafar Panahi, que conta também a aventura urbana de uma menina, no caso para conseguir e manter o dinheiro necessário para comprar um peixinho dourado. Só que no iraniano a maioria dos adultos ajuda a criança, ou pelo menos não atrapalha. Na Bagdá da pequena Lamia tudo é ameaça – com a notável exceção de um único personagem adulto, um carteiro, que encarna a esperança de que a humanidade não esteja de todo perdida.

Mais do que retratar um período histórico específico, o filme mostra como o autoritarismo se infiltra nos gestos mais cotidianos da vida social.
E aqui entra a segunda dimensão do filme, que mencionei acima: seu retrato do funcionamento de uma ditadura “em geral”. A tirania do presidente se multiplica em incontáveis instâncias de autoritarismo: o professor, o policial, o comerciante, todos exercem arbitrariamente o poder, pequeno ou grande, que têm em mãos. É o mesmo fenômeno que levou alguém a dizer, por exemplo, que na ditadura militar brasileira o problema não eram os generais, mas o guarda da esquina. O esquema parece universal, repetindo-se sob formas diversas no nazismo, no stalinismo, nas ditaduras asiáticas, africanas ou latino-americanas.
O bolo do presidente consegue a rara proeza de dar a ver essa variedade de questões sem recorrer a discursos explícitos e sem prejudicar a fluência e a delicadeza da narrativa. Merece destaque também o aproveitamento dramático das paisagens fortemente contrastantes do rio, do deserto e da cidade. E o final, entre o apocalíptico e o poético, é de uma grande e inquietante beleza.















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