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O longo trajeto do cinema feito em Pernambuco

Pesquisador Marcos Santos faz um “passeio” revisionista entre o Ciclo do Recife até o “Baile Perfumado”

Por Marcos Santos | 23.04.2018 (segunda-feira)

– na foto acima, Jota Soares e Mário Mendonça em registro feito para a revista Cinearte em 1927

Desde o início do século 20, Pernambuco demonstra ser um terreno fértil no que diz respeito à prática cinematográfica. Essa produção contou com inúmeros percalços, interrupções e ressurgimentos, “cinematograficamente, nascemos e morremos tantas vezes. Recomeçamos” (FIGUEIRÔA, 2000, p. 8).

Pernambuco atualmente vive um momento bastante peculiar no que diz respeito à produção cinematográfica: nos últimos 15 anos mais de 30 longas-metragens foram realizados no estado, para não citarmos os curtas-metragens. Esses filmes não só percorreram e foram premiados pelos mais diversos festivais nacionais, mas também festivais internacionais, como é o caso de Baixio das Bestas (2006), de Claúdio Assis. Esse foi o primeiro longa-metragem brasileiro a receber o prêmio Tiger Award, maior prêmio do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam (2007), e Melhor Filme (Júri Oficial) no Festival de Cinema de Brasília (2006).

Outro exemplo de grande sucesso, Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, participou da seleção oficial da mostra Un Certain Regard (Um certo olhar) do festival de Cannes, na França, em 2005. Recebeu o prêmio de “melhor filme Iberoamericano”, no Festival Internacional de Mar del Plata, na Argentina, em 2006. Mais recentemente temos o percurso bem sucedido de O Som ao redor (2012), de Kléber Mendonça Filho, escolhido para ser o representante brasileiro para concorrer a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o que acabou não acontecendo, mas o filme obteve premiações em diversos festivais internacionais como International Film Festival, em Rotterdam, Festival de Cinema da Polônia, dentre outros.

Diante dessa profícua produção contemporânea, pode-se pensar que a mesma iniciou-se nas últimas duas décadas. No entanto, a história do cinema pernambucano tem suas origens nos primeiros anos da década de 20 do século passado, com o Ciclo do Recife.

O Ciclo do Recife foi um curto, porém intenso período na produção cinematográfica em Pernambuco, quando, em um espaço de oito anos, foram realizados 13 filmes, que envolveram oito diretores e cerca de trinta jovens oriundos das mais diversas classes sociais e profissões, fato que configurou esta produção como a mais fértil dos ciclos regionais do século 20 (CUNHA, 2006, p.7). Soma-se a esse cenário nove produtoras. Foram elas: Aurora Filme, Planeta Filmes, Iate Filme, Veneza Filme, Liberdade Filme, Olinda Filme, Spia Filme, Goiana  Filme e Vera Cruz. A atividade cinematográfica ainda revelou nomes como Gentil Roiz, Ary Severo, Jota Soares, Edson Chagas e Almery Steves.

A maior parte dos filmes eram produzidos com recursos dos próprios realizadores, os quais tinham outras atividades profissionais, tais como Edson Chagas que era ourives, outros eram gráficos, comerciários etc. A inspiração desses jovens, tanto no que diz respeito à estética, quanto ao enredo dos filmes, eram os clássicos da ficção americana, que tinham em sua essência a montagem clássica. Histórias de amor recheadas de percalços, cheias bandidos e mocinhos, como Retribuição (1925), filme de Gentil Roiz, e que contava com a fotografia de Edson Chagas. O filme foi um sucesso e chegou a passar oito dias em cartaz no Cine Royal, fato bastante significativo para a época.

Assim, os membros do ciclo logo convenceram os comerciantes da cidade e a elite recifense não só a financiar os filmes, mas a participar das produções, muitas vezes como meros figurantes (Cf. CUNHA, 2006). Uma grande característica dessas produções estava pautada na união dos esforços dos próprios membros do ciclo, que contavam com laços de amizade e parentesco, somando recursos próprios com os de profissionais liberais. Desse modo foram produzidos os clássicos do ciclo, como Jurando Vingar (1925), de Ary Severo; Aitaré da Praia (1925), de Gentil Roiz e Ary Severo; A filha do Advogado (1926), de Jota Soares, entre outros.

Entretanto, com o advento do cinema falado, assinala-se o declínio da produção cinematográfica do Ciclo do Recife. O processo de realização dos filmes mudos era todo feito na capital pernambucana, desde as filmagens à revelação e montagem (FIGUEIRÔA, 2000, p.26). Contudo, em Recife ainda não havia condições para a realização de um filme sonoro e, pouco a pouco, as produções americanas desbancaram as produções locais.

Nas décadas seguintes, ainda seriam realizadas espaçadas obras cinematográficas como Coelho sai (1942), de Newton Paiva e Firmo Neto; Terra sem Deus (1962-1963), de José Carlos Burle, dentre outros, mas nada que tivesse uma real continuidade de produção, como o Ciclo do Recife. Entretanto, algum tempo depois, com o surgimento e popularização de uma nova bitola denominada Super 8 (S-8), o cinema pernambucano conheceria um novo ciclo.

As câmeras de S-8 chegaram ao estado através de pessoas que viajavam aos Estados Unidos ou à Europa e adquiriram o dispositivo com a finalidade de realizar filmagens domésticas para registrar o cotidiano e o convívio familiar. Entretanto, ao cair nas mãos de pessoas interessadas na prática cinematográfica como expressão artística, o S-8 foi ressignificado e os usos iniciais que visavam apenas ao registro de cenas caseiras deram espaço para a criatividade dos superoitistas.

O grande atrativo da bitola, além de sua facilidade de manuseio, eram os baixos custos que envolviam a produção, bem inferiores aos de uma produção em 35 mm. Dessa forma, a bitola foi de uma grande popularidade entre os realizadores, filhos da classe média recifense, que tinham a possibilidade de arcar com os custos da produção e realizá-la de uma forma caseira, desde as filmagens, passando pela revelação e chegando à montagem.

Assim, durante toda a década de 70, Pernambuco seria palco de mais um ciclo cinematográfico, o ciclo do Super-8. Entre 1973 e 1983, foram realizados mais de 200 filmes que contavam com as mais variadas propostas estéticas. No entanto, essa produção era dividida em filmes experimentais, que tinham como eixo narrativo temas existenciais urbanos e de crítica da cultura, filmes ficcionais, que tinham bastante influência de filmes clássicos, apesar de todas as limitações técnicas da bitola e da falta de recursos, e documentários, que abordavam a cultura nordestina (Cf. FIGUEIRÔA, 2000). Essas linhas divisórias, contudo, são muito tênues, uma vez que as correntes se interpenetravam e interagiam a todo o momento.

Os filmes desses realizadores podem até ser classificados de ficcionais, mas apenas para diferenciá-los dos que recebiam a designação de documentário, pois eles não seguiam os padrões de um filme de enredo, como esclarece Geneton Morais: “Não nos interessava fazer um cinema narrativo, contar uma história certinha com ator e tudo mais. Os filmes super 8 que se via em festivais e tentavam ser uma cópia dos exibidos nas salas comerciais eram mal feitos ou caricatura de um cinema brasileiro que já era ruim. Até utilizávamos atores, mas noutro sentido, como elementos de cena ou para recitar textos”. (FIGUEIRÔA, 2000, p.73).

Dessa forma, podemos dizer que a união desses realizadores, de uma forma quase que cooperativista, eram os laços de amizade, afinidades culturais, ideológicas e políticas, as quais consequentemente apareciam em seus filmes.

Pernambuco tinha uma das maiores produções de Super-8 no Nordeste e os filmes realizados aqui chegaram a participar de vários festivais, sobretudo da Jornada Nordestina de curta-metragem, na Bahia, em 1972. Porém, os recifenses só veriam esses filmes na capital pernambucana com a Primeira Mostra Recifense do Filme Super 8, e com a fundação do Grupo de Cinema de Super 8 de Pernambuco, em 1977, que chegou a promover festivais de cinema de Super 8 em Pernambuco (Cf. ARAÚJO, 2000).  Entre os filmes mais significativos dessa produção estão O Palhaço degolado (1976), de Jomard Muniz de Britto, Esses Onze aí (1978), de Paulo Cunha e Geneton Moraes Neto, Valente é o galo (1974), de Fernando Spencer, Robin Holywood (1977), de Amin Stepple, El barato (1972), de Kátia Mesel, Propaganda, de Celso Marconi, O coração do Cinema (1980), de Paulo Cunha e Geneton Morais Neto, Estética de camelô (1982), de Paulo Bruscky e Daniel Santiago, e Morte no Capibaribe (1983), de Paulo Caldas. Este último foi considerado o último filme do ciclo.

Aos poucos o ciclo foi enfraquecendo, e por vários motivos, dentre eles a questão com a Kodak, empresa que demonstrava um profundo desinteresse em fazer a revelação dos filmes e vendê-los, uma vez que o mesmo era muito barato e não compensava os custos. Não demorou muito para que a empresa parasse de trabalhar com a bitola. Em 1976, a Cacex, Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior, colocou os equipamentos em super 8 na lista de produtos supérfluos, proibindo a sua importação. Em 1977 passou-se a exigir um depósito compulsório de 100% da mercadoria a importar, o que elevou os custos de maneira assustadora (FIGUEIRÔA, 2000,  p.59). Assim, realizar um filme em super 8 estava quase tão caro quanto filmar em 16 mm. E pouco a pouco o espaço cedido ao super oito nos festivais foi ficando cada vez mais raro e os superoitistas foram perdendo o interesse na atividade.

O filme do jovem Paulo Caldas, Morte no Capibaribe (1983),  assinala o fim do ciclo do Super 8 (NOGUEIRA, 2009). Curiosamentente, 14 anos depois, o mesmo Paulo Caldas, junto a Lírio Ferreira, lançaria o filme que marcaria a retomada do cinema Pernambucano: O Baile Perfumado (1997).

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