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Críticas

Vem dançar

Manjada fábula urbana

Por Luiz Joaquim | 14.08.2018 (terça-feira)

– publicado originalmente em 9 de junho de 2006 no jornal Folha de Pernambuco

Atores e estrelas são diferentes. Estrelas chamam atenção só por aparecer na tela. Atores trabalham pesado para isso. Antonio Banderas é uma estrela, o que não significa que ele não possa atuar bem, mas já faz um bom tempo que não se vê o espanhol num papel que lhe desafie, e não é diferente nesse Vem dançar (Take the Lead, EUA, 2006), em cartaz hoje.

Se fosse um dançarino, Vem dançar seria um tecnicamente bem preparado bailarino, mas de pouco carisma. Um dançarino que alcança todas as duas marcas, mas que realmente não encanta com sua ginga. É uma manjada fábula urbana, cheia de boas intenções (como no inferno), sobre sobrepor-se à adversidades que, no máximo, traz uma curiosa trilha sonora e coadjuvantes, além de um Antonio Banderas tentando se conter como o tipo ‘latino irresistível’ que lhe venderam (e ele comprou) em Hollywood.   

Banderas é Pierre Dulaine, um personagem inspirado num professor de dança de salão que existiu – como o filme anuncia em letras saltitantes na tela. Ele ficou conhecido por ter aplicado seus ensinamentos nas escolas da periferia pobre norte-americana, mas em circunstâncias bem menos dramáticas daquelas que aparecem no filme.

Depois de ver o jovem (Rob Brown) depredando o carro da diretora (Alfre Woodward) de seu colégio, Pierre voluntariamente vai oferecer seus serviços à escola. Não há sentido na iniciativa de Pierre, nem tampouco na decisão da diretora em permitir que ele lecione dança de salão a um grupo de detentos rejeitados do colégio.

O filme vai gualgando, clichê por clichê, as etapas que o determinado e deslocado professor tem de vencer para conquistar seus alunos rebeldes até chegar ao maior estigma da cultura norte-americana: uma competição.

Há uma possibilidade remota de Vem dançar até poder se configurar num filme interessante, se a sensação de déjà vu não estivesse tão presente na figura de um documentário tão doce e forte chamado Vamos todos dançar, de Marilyn Agrelo.  

Versando exatamente sobre a mesma questão, o filme de Agrelo – recém lançando em São Paulo e Rio de Janeiro e exibido em dezembro na Expectativa 2006 da Fundaj – mostra um grupo de pré-adolescentes de três escola periféricas de Nova York que se preparam para um torneio de dança de salão. Acompanha desde o início das aulas até a grande final competitiva. Ao contrário do filme de Banderas, ou melhor, do diretor Liz Friedlander, Vamos todos dançar garante emoções 100% autênticas apresentando crianças lindas por estarem felizes, e vivendo uma realidade não menos dramática que a dos alunos maquiados de Banderas.

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