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Críticas

Cronicamente Inviável

Uma homenagem invertida às festividades oficiais que cantam um Brasil próspero.

Por Luiz Joaquim | 05.10.2018 (sexta-feira)

– publicado originalmente no Jornal do Commercio (Recife) em 27 de maio de 2000.

Embora pertinente, a sugestão a seguir pode ser relevada mas, aquela pessoa que estiver pensando em assistir Cronicamente Inviável (Brasil, 1999) antes de ir ao Recifolia deve mudar de idéia. Fazer as duas coisa na mesma noite não combina. Isso porque logo nos primeiros minutos, o filme de Sérgio Bianchi, inunda a tela com uma multidão de baianos desvairados pulando ao som de axé músic. Até aí nada demais, se não fosse pela convincente voz em off que discorrer sobre o que ela chama de ‘a ditadura da felicidade’.

Esta é apenas uma das alfinetadas que o diretor lança mão com seu trabalho. Durante os 101 minutos de projeção, o minucioso roteiro de Bianchi e de Gustavo Steinberg aborda (inclusive com humor e ironia) temas tão diversos quanto comuns ao dia-a-dia de qualquer brasileiro. Fala-se da vagabundagem, da posse de latifúndios, da institucionalização do trambique, da discriminação racial, do preconceito social, do crime ambiental, da venda de bebês, da prostituição masculina e do tráfico de órgãos. Entornando tudo isso, Bianchi joga na cara do público talvez o maior mal: a conivência, que coroa o caos disfarçado de civilização.

Assim falando, parece que o recado é passado com o vigor de um entediante discurso moralista. Mas é justamente o contrário. As diversas situações vividas pelos atores, juntamente com as opiniões que expressam, chamam a atenção justamente por serem exageradas, e resultam, por vezes, caricatas. E mais: é a partir do livro Brasil Ilegal, escrito pelo antropólogo andarilho na pele do ator Umberto Magnani, que Bianchi evoca a anarquia, através de teorias sobre a origem do cancro que rege a sociedade brasileira.

A mensagem, entretanto, não é tão linear assim. Ao mesmo tempo em que chama a atenção para as colocações do autor do Brasil Ilegal (uma brincadeira com o Brasil Legal, da Regina Case?), o cineasta contrapõe as propostas do antropólogo mostrando intelectuais e um representante indígena debatendo as idéias do livro e questionado a quem ‘pertence’ a identidade do Brasil.

No final das contas, a única palavra que soa convincente acaba por ser a que sai da voz em off, dita pelo antropólogo em boa parte do filme. E não é a toa que a escutamos em off. Assim falada, ela empresta um tom mais documental ao longa de Bianchi, e sugere ser a única dona de um raciocínio aceitável, de uma verdade coerente, diante de todas as contradições que os personagens revelam entre si. A montagem, realizada pelo diretor com Paulo Sacramento, também privilegia esse aspecto.

Lançado em São Paulo no mês de maio, época ainda quente da comemoração dos 500 anos do descobrimento, Cronicamente Inviável surgiu como uma homenagem invertida às festividades oficiais que cantavam um Brasil próspero. Uma revelação, já no fim do filme, expõe que o próprio personagem de Magnani colabora com a desordem social. Bianchi parece querer dizer, enfim, que não há solução. Que não há nada a fazer diante da impotência individual nesse quadro que ele pinta: uma velada guerrilha urbana brasileira.

Se levado ao pé da letra, o espectador pode vender a película como uma ode à desesperança; mas aí o diretor surpreende mais uma vez, fechando o filme com cenas reais, de um legítimo e emocionado recado de uma mãe para um filho. As palavras servem para lembrar que o conteúdo daquela mensagem é um dos poucos responsáveis pela cara sanidade do brasileiro.

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