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Entrevistas

ENTREVISTA: Fellipe Fernandes

“A mim interessa o modo como o trabalho opera, consumindo mais tempo do que devia na vida do proletário”.

Por Luiz Joaquim | 04.02.2019 (segunda-feira)

– nas fotos de Leo Lara, o diretor Fellipe Fernandes em Tiradentes.

O diretor Fellipe Fernandes lançou na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes – encerrada em 26 de janeiro – seu último rebento, o curta-metragem Tempestade (leia a respeito do filme clicando aqui), sobre um personagem com uma inquietação interna e pessoa que terminar por agregar-se aos colegas de trabalho numa outra inquietação, esta coletiva e social.

No dia seguinte da primeira exibição de Tempestade, Fellipe conversou com exclusividade com o CinemaEscrito.com em Tiradentese falou não apenas sobre o novo curta, mas também de suas participação em Bacurau (novo projeto de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho), como também das preparações para o primeiro longa-metragem que irá assumir a direção: O último quintal.

Leia abaixo, ou escute a gravação da entrevista no link postado ao final desta página.

ENTREVISTA: Fellipe Fernandes

O Tempestade é um filme que fala muito da época em que foi realizado. Em que momento o argumento foi concebido e em que medida ele foi modificado até a sua gravação?

Foi um processo bem específico. A gente filmou duas diárias em dezembro de 2017 e duas diárias em janeiro de 2018. Ele teve de acontecer numa janela muito específica. Não existia o filme só a vontade de fazer um filme e a imagem com a qual eu táva meio obcecado, que são rostos cobertos com máscaras que não são necessariamente máscaras. E eu Dora [Amorim, produtora executiva), Thais [Vidal, produtora executiva] e Júlia [Machado, diretora de produção], a gente vinha de uma sensação de angústia muito grande, num período de meses difíceis. A gente compartilhava essas angústias. Eram vários amigos se comunicando, relatando crise de ansiedade, depressão. E aí a gente tinha essa janela, que era antes de começar [as gravações] de Bacurau [projeto de longa de Juliano Dornelles e  Kleber Mendonça Filho], e aí decidimos: ‘Vamos fazer um filme!’ A gente tava com muita vontade de entrar no set. E de experimentar um processo que fosse diferente do que vivemos em O delírio… [O delírio é a redenção dos aflitos, curta anterior de Fernandes]. Um processo que fosse mais errático. De fazer sem planejamento. O delírio… foram anos e anos pensados, foi montado em dois dias. Não perdemos nenhuma cena. Foram poucos planos que ficaram fora da montagem e a gente queria fazer agora uma coisa que a gente não entendesse muito bem mas que a gente criasse uma imagem daquilo que a gente estava sentido, junto com André Antônio [diretor de arte]. E daí surgiu esse processo: entre a gente pensar na ideia do filme e começar a filmar foram duas semanas.

Quais os cuidados com a encenação em Tempestade. Percebo uma marcação no novo filme, e ela existe também em O delírio…, mas a marcação em Tempestade parece um pouco mais evidente. Daí pergunto, quanto tempo vocês trabalharam nas encenações, e o quanto o preparador de elenco, Fábio Leal, colaborou? Principalmente naquela sequência da salinha de almoço dos funcionários do mercado.

[Para] aquele dialogo a gente só fez um dia de ensaio. Era para a gente construir o diálogo juntos porque no roteiro tinha as indicações para cada personagem, como eles eram afetados. E a gente fez um grande ensaio num dia só, e aquela cena, na verdade tem originalmente 12 minutos. Essa forma e marcação como vemos no filme surgiu na montagem. E a encenação em si acabou sendo definida pelo espaço. E como foi tudo em cima da hora, fazíamos o que conseguíamos. A gente ensaiou em outra sala e quando chegamos neste espaço para gravar, tivemos de nos adaptar.

Comparativamente com O delírio… ambos filmes têm o ambiente  como elementos muito definidores – mais em Tempestade e menos em O delírio… – e não sei em que medida a gente pode afirmar se isso é um reflexo de suas preocupações pessoais, e que você passa para os seus filmes. O quanto a vida profissional, o quanto da necessidade de ‘ganhar a vida’ é algo que te interessa no cinema?

A minha vontade de contar histórias e fazer filmes é muito ligada as minhas relações familiares. Minha família materna é muito grande e muito próxima. Morando ali em Rio Doce, Jardim Atlântico [Olinda].  E tem uma coisa que está nos dois filmes que é uma busca minha de entender como essas pessoas, de uma classe operária, proletária, que tá lá na lida diária e que o trabalho consome muito mais tempo do que deveria de sua vida, como essas pessoas lidam com as questões existenciais e filosóficas. Porque acho que há uma tendência geral em acharmos que não existe, que não se deve lidar com isso. As questões até podem estar lá, e elas em algum momento saem, elas vêm à vida.

Elas precisam de uma vazão

Sim, e elas podem vir de qualquer jeito. Uma dor nas costas, pode ser uma depressão não reconhecida, numa insônia, enfim. E O delírio… tem muito de como aquela mulher lida com o que tá acontecendo na vida dela, naquele prédio, na mudança de endereço e ela não consegue compreender muito bem como isso tudo afeta ela, e o Tempestade também tem isso. Ele [o protagonista] não sabe nem de onde vem e talvez nem consiga nomear aquilo que ele tá sentindo. Mas é isso. É uma angústia.

Uma percepção minha é que no caso de Tempestade, o conflito é levantado em funções de aspectos profissionais. Em O delírio… é por aspectos pessoais. De um modo geral, muito resumidamente, em O delírio… o trabalho é uma espécie de aconchego em função dos amigos. Mas mudando de assunto, vamos falar um pouco de Bacurau. Qual foi sua função e o que você poderia dizer sobre a experiência que teve nesse projeto?

Em Bacurau eu era 2º assistente de direção. Éramos dois, eu e Débora Oliveira, e foi uma experiência intensa. Foi o projeto mais longo em que eu trabalhei. Foram quase cinco meses. Eu comecei a trabalhar na metade de janeiro e encerramos na metade de maio [de 2018]. E isso no Sertão, naquele lugar, vivendo com aquelas pessoas… A minha função, que tava muito ligada ao elenco e ao elenco de apoio, então um dos impactos maiores que ficou dessa experiência que senti foi o envolvimento com as pessoas da cidade onde filmamos e de onde estávamos hospedados. Foi uma descoberta incrível de como a gente ‘atravessava’ eles e eles ‘atravessavam’ a gente.

E o que pode falar sobre o projeto do primeiro longa-metragem que irá dirigir? E qual o estágio dele hoje?

Chama-se O último quintal e semana passada [14 a 18 de janeiro] começamos uma ‘pré-pré’. Temos Luiza Ramos, que é diretora de produção, Bruna Leite, que é produtora de elenco, Júlia Machado que tá na executiva. Elas já estão para trabalhar full-time nesse projeto. E quando eu voltar [ao Recife/Olinda] vou entrar nessa lida diária e a gente deve filmar a partir da segunda quinzena de abril. A ideia é filmar metade abril, metade maio.

Pode adiantar sobre o elenco?

A gente ainda tá fechando o elenco. Ainda não temos o protagonista. Mas a gente já tem um forte elenco coadjuvante que está comigo desde o começo desse projeto. Um projeto que já passou por muitas etapas. A gente tá já no sexto tratamento de roteiro. Terceiro tratamento do argumento, quer dizer, já mudou muito. Tem um personagem que vai trabalhar com Nash Laila, Thassia Cavalcanti e Amanda Gabriel [todas atuaram em O delírio…].  A história surge muito de querermos esticar, estender esse tempo de trabalho com elas. Elas são as três que estão confirmadas desde o começo e trabalhando também no roteiro. E a gente deve de fato começar a trabalhar juntos já em março.

Já existe algo como uma sinopse oficial para O último quintal?

Podemos dizer que são dois dias na vida de um personagem, de um cara, com a gente seguindo ele, que é também um momento crucial da vida dele em crise, e os reflexos disso em suas relações pessoais.

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