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Críticas

Dor e Glória

A dor da glória, e sua possível reconciliação

Por Luiz Joaquim | 08.07.2019 (segunda-feira)

Julieta Serrano interpreta a idosa Jacinta em Dor e glória (Dolor y Gloria, Esp., 2019), de Pedro Almodóvar. Ela é mãe do cineasta Salvador (Antonio Banderas, melhor ator no 72º Festival de Cannes), e numa conversa íntima com o filho, enquanto está internada num hospital ela solta: “Não tolero autoficção!”.

A reprimenda da mãe contra a arte do filho diretor de cinema soa irônica, cômica quando sabemos que Dor e glória inclui memórias e percepções da vida de Almodóvar (como todos os outros seus filmes, logicamente).

Em sua entrevista coletiva, em Cannes, um dia após a projeção do filme no Palácio dos Festivais em Cannes, o mais famoso realizador espanhol da atualidade explicou que o público não deve tomar o filme como literal.

“Tenho o direito de falar de minha vida publicamente, mas quando envolvo a de outros, entramos num território delicado. Apesar de não ter vivido o que Salvador passa no filme, eu poderia ter vivido sim. Conheci a realidade de famílias que moraram numa caverna”.

E ainda: “Também nunca pedi desculpas a minhã mãe por não ter sido o filho que ela esperava, mas ao escrever a cena para o filme, acabei reconhecendo fragilidades e descobrindo estranhezas do passado”, revelou.

Dor e glória, dessa forma, acaba sendo um filme de reconciliação, mas não apenas sobre isto. Como disse Banderas na mesma coletiva. “É um filme muito espanhol, que fala sobre estar aberto a nossa família. De estar perto de nossa família”.

Almodóvar amarra dois momentos amorosos de extremos impacto na vida de Salvador, um celebrado cineasta espanhol, mas que não produz há anos em função de problemas generalizados de saúde que o impedem de encarar um set de filmagens.

Um primeiro momento amoroso na vida de Salvador é aquele com sua mãe, quando Almodóvar, por meio de tradicionais e intermitentes flashbacks ao longo do filme, nos mostra primeiro o menino Salvador (Asier Flores) em sua vida sacrificada ao lado da mãe, a jovem Jacinta (Penelope Cruz), e depois com ela na fase adulta.

Um segundo momento amoroso está no reencontro com Federico (o argentino Leonardo Sbaraglia), um amor vertiginoso vivido por Santiago, décadas atrás. Um reencontro que ajusta arestas soltas entre o ex-casal.

Sobre a cena do beijo – que tem provocado o espanto em plateias apegadas à imagem de Banderas como o latin lover que ele criou ao se estabelecer em Hollywood -, Almodóvar deixou claro que era uma cena importante porque essa ainda não era uma imagem comum no cinema, a de dois homens com mais de 50 anos se beijando com paixão.

Banderas não pára de receber elogios sobre seu trabalho aqui desde da primeira exibição em Cannes. E suas próprias palavras na coletiva de imprensa corroboraram o que ele apresentou como performance no filme.

“Esse filme me ajudou a voltar às origens. Hoje meu vício é voltar às minhas origens. Me reencontrar. Me tornar um novo Antonio Banderas. Para criar Salvador eu tinha de matar o velho Antonio Banderas. 22 anos após o último trabalho com Almodóvar, muito mudou, fiz uma família nos EUA, por exemplo. E quando fui ao ensaio do filme, pensei que minha bagagem dos últimos 22 anos ajudariam, mas Almodóvar me disse ‘não quero isso’. Isso abriu um buraco e uma pergunta em mim: ‘como encontrar esse personagem?’ Decidi então ir em busca da verdade desse personagem e aquele verão das filmagens foi o melhor da minha vida como ator”, comentou sob aplausos.

De fato, vendo Dor e glória, enxergamos Banderas entregar uma melancolia e fragilidade ao seu Salvador adulto que só reforça a trajetória que é mostrada do menino Salvador pelos flashbacks.E, numa outra chave, o filme entra num ambiente de martírio para um artista que está impedido de trabalhar por limitações físicas, mas em ebulição intelectualmente.

Formalmente, o filme nos leva a entrada nesse ambiente pela sabedoria cinematográfica de Almodóvar (na transição dos dois tempos de Salvador, o menino e o adulto, incluindo aí sua relação com a mãe); e, segundo, pela segurança de Banderas.

Há um desalento nos seus movimentos meticulosos (em função das dores no corpo) e nos seus olhos desesperançado que tornam Salvador numa espécie de vítima de si próprio. E este é um dos personagens mais complexos que se pode disponibilizar a um ator.

 

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