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Festivais

3. Mostra Sesc (2019) – noite 1

Entre o aconchego e o desejo por tempos melhores, tivemos a abertura da Mostra Sesc

Por Luiz Joaquim | 03.11.2019 (domingo)

PARATY (RJ) – Havia uma atmosfera que se dividia entre o aconchego e a esperança (ou desejo) de melhores tempos para o cinema brasileiro durante a abertura, ontem à noite, da 3a Mostra Sesc de Cinema.

Objetiva, a noite inaugural do evento – que aconteceu no auditório da Casa da Cultura de Paraty – contou com a fala de secretária de cultura do município, Cristina Maseda, e representantes do Sesc contextualizando a importância da diversidade geográfica, social e de gênero desta edição neste momento histórico do País.

Logo na sequência, Marco Fialho, responsável com sua equipe pela produção executiva da Mostra, engatou a homenagem a Adélia Sampaio, primeira realizadora negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. A fala de Marco (que você pode ler na íntegra ao final dessa publicação) fazia uma síntese comovente a respeito da simbologia que significa a própria Adélia neste Brasil em que vivemos, e os valores que a Mostra busca afirmar.

FILMES – Como ponto de partida, ou degustação para o que vem por aí nesta semana, a noite de abertura apresentou cinco curtas-metragens da programação. Cada um deles represetando uma região do Brasil.

A sessão abriu com o nordestino Aurora, de Everlane Moraes e Tatiana Monge, de Sergipe. Com o carimbo de qualidade da cubana Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños (EICTV), Aurora comunica apenas com sons e imagens (e que imagens!). Não há diálogos (no máximo uma canção) quando apresenta três mulheres negras – Elizabeth, Mercedes e Crisálida.

Uma jovem, outra vivida e uma terceira idosa, se situam, no filme, conversando com si mesmas e com a câmera funcionando como um espelho (ou janela) aberto(a) aos seus desejos e lamentos. Numa precisão fotográfica em P&B, Aurora é de uma elegância contundente.

O segundo curta-metragem, do Norte, veio do Pará, pelas mãos do diretor Marcelo Rodrigues: Chamando os ventos: Por uma cartografia dos assobios. Simples em sua composição, e também sóbrio, oferece a fala em off de diversos depoentes sobre uma prática lúdica: chamar o vento pelo assobio. Rodrigues, ele próprio um praticante, escutou as motivações e os efeitos de diversas pessoas que se reconectam espiritualmente com a natureza por meio dessa dinâmica.

O mais aplaudido filme da noite veio da região Sul. Foi o gaúcho Catadora de gente, de Mirela Kruel. Todo conduzido pelo depoimento de Maria Tugira, catadora de lixo há mais de 30 anos, o filme vai conquistando o espectador aos poucos. A senhora de fala tranquila e segura reflete sobre as desigualdades da vida, da rudeza que há em sobreviver e precisar matar a fome (que não espera por nada), e da necessidade de defender seus direitos. O filme, entendedor da força da personagem, permite que ela flua sem muitos artifícios, naturalmente e que assim, naturalmente, conquiste o olhar do espectador.

A delicadeza de Dona Tugira deu lugar, logo depois, ao humor de Guará, representante do Centro-Oeste (veio de Goiás), sob a batuta de Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista. Com seu lobisomem de Goiâna, Guará funciona sempre muito bem tendo, aqui, feito uma das mais interativas e divertidas sessões de sua já bem sucedida carreira pelos festivais.

O programa encerrou com o sudestino, do Rio de Janeiro, Jéssika, de Galba Gogóia. O drama mostra a mulher trans que dá título ao filme voltando a sua pequena cidade natal, no interior, para reencontrar a mãe após a morte do pai. Incrível como Jéssika comunica-se com o premiado Marie, de Leo Tabosa, no sentido de que há aqui uma delicada reconciliação entre a protagonista com a sua família conservadora.

A noite fechou com a apresentação musical digamos, belamente sussurrada, do trio Líricas Transcendentes, que integra o Sonora Brasil, projeto também do Sesc, reconhecido como o maior circuito de circulação musical no País.

Texto de homenagem a Adélia Sampaio, por Marco Fialho e equipe do Sesc:

“A escolha do homenageado ou da homenageada de um festival de cinema talvez diga mais sobre esse festival do que podemos imaginar.

A homenagem representa a sua própria síntese, é uma forma de fazer um discurso sem precisar dizer uma palavra.

E a nossa homenageada vem carregada de simbolismos. Sua presença na história do cinema é decisiva, e infelizmente configura mais uma tentativa de apagamento tão comum em nosso elitista e injusto país.

Homenageá-la é dar um grito, um basta, é jogar luz numa história linda e por em xeque o obscurantismo preconceituoso e tacanho.

E quantos aqui, realizadores só estão aqui agora exibindo seus filmes e histórias corajosas, graças a luta incansável de guerreiras como a nossa homenageada.

De certa forma, cada um de vocês, com seus cinemas contundentes, carrega uma semente lançada há mais de 30 anos pela nossa homenageada.

Mas a sua trajetória traz ainda a marca da mulher que luta e trabalha em um meio tão masculino e machista como é o da indústria cinematográfica.

Imagina então sendo negra nessa mesma indústria dominada por ideais culturais colonialistas, brancos, mesmo depois de 100 anos do fim do sistema escravocrata. Será que esperar quase 100 anos para termos uma diretora negra diz algo sobre o papel do negro em nosso cinema? E o quanto mais diz sobre a nossa própria sociedade?

Entretanto, no meio disso tudo ainda bem que existe o amor.

Será mesmo? Pois se ainda hoje o amor entre duas mulheres ainda causa um ‘frisson’ conservador, imagina há 35 anos atrás.

Enfim, a força da nossa homenageada é imensa! Do tamanho desse país.

A Mostra Sesc de Cinema, em sua terceira edição tem a infinita felicidade de celebrar essa cineasta, essa artista referencial, essa mulher extraordinária chamada Adélia Sampaio!”

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