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Digital

Sergio (2020)

Política e romance na vida de um dos maiores diplomatas do Brasil

Por Luiz Joaquim | 20.04.2020 (segunda-feira)

É particularmente provocador ver o filme Sergio (EUA, 2020) num mesmo domingo (19) em que o presidente da república brasileira participa de uma manifestação na qual, em cima de uma caminhonete, próximo ao quartel-general do Exército, segue para engrossar o coro de um punhado de pessoas que gritam por intervenção militar no País. Um espetáculo dantesco no qual ainda foi possível escutar do presidente daqueles insurretos a palavra de ordem: “Não queremos negociar nada”.

Ora, “negociar” era a ferramenta de trabalho de Sérgio Vieira de Mello, o cinebiografado do filme em questão. Considerado o diplomata brasileiro de maior destaque internacional nas últimas cinco décadas, Vieira de Mello atuou como influente funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU), até ser morto por um atentado terrorista no ano de 2003, em Bagdá, aos 45 anos de idade.

Integrante do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, Sérgio usava a sua ferramenta da negociação tão bem que o tornou referência no que fazia como ‘o consertador do mundo’. O que há de provocador entre o que mostra o filme dirigido por Greg Barker e estrelado por Wagner Moura com o ato do presidente eleito pelo mesmo País que deu Vieira de Mello ao mundo é: Como esse lugar chamado Brasil gerou duas personalidades tão diametralmente opostas e antagônicas?

Nesse sentido, Sergio (assim mesmo, sem acentuação), o filme, chegou por aqui em lançamento por streaming, no dia 17 de abril (pela sua produtora Netflix), em momento oportuno, ajudando a ressaltar o quão carismático, audacioso e visionário foi o diplomata em contraposição à figura medieval que foi irresponsavelmente eleita presidente do País.

Além da assinatura da Netflix, como uma original produção, Sergio também tem a identidade de Moura, não apenas atuando, mas também produzindo. A escolha por Barker assumir a direção foi arriscada considerando ser este seu primeiro trabalho à frente de uma dramaturgia ficcionalizada, mas não poderia ser mais acertada considerando que ele mesmo realizou em 2009 um homônimo documentário sobre a trajetória do diplomata brasileiro, o que, em tese, o qualifica como um realizador que conhece de perto a trajetória do personagem.

O FILME – É de se imaginar a colaboração de Wagner Moura ao diretor no que se refere ao trabalho da dramaturgia seguindo o roteiro escrito pelo próprio Baker a partir do livro Chasing the flame: One man’s fight to change the world, de Samantha Power. Isto porque Moura vem se credenciando cada vez mais como um múltiplo profissional de seu ofício, a destacar Marighella, seu debut na direção de um longa-metragem exibido na Berlinale 2019 e ainda sem data de estreia no Brasil.

Sergio, diga-se, coloca em ainda mais evidência a estrela do ator, em plena ascensão internacional, após sua entrada em Hollywood com Elysium (2013), a exitosa passagem pela série em streaming, Narcos (2016), a presença em Wasp network (2019), pelas mãos do ótimo Olivier Assayas, até chegar a Sergio, sendo seu próximo ponto de parada internacional ao lado de ninguém menos que Brian De Palma em Sweet Vengeance. Não se pode esquecer, é claro, aquele trabalho que o apresentou ao mundo, há longínquos 13 anos, chamado Tropa de elite.

Na verdade Sergio marca o encontro de outra estrela não-hollywoodiana em ascensão. A bela cubana Ana de Armas que, só em 2019, foi vista pelo menos em quatro grandes produções: Blade Runner 2049 (2017), Yesterday (2019), e Entre facas e segredos (2019), tendo estado também em Wasp network. Seu próximo ponto de parada é ao lado de 007 (Sem tempo para morrer), previsto para estrear em 19 de novembro próximo.

No filme de Barker, há uma estratégia narrativa comum às obras que o espectador já entra nela sabendo do destino de seu protagonista: apresentar os fatos em tempos paralelos. O do presente, no qual acontece a sua morte, e o do passado, desenhando o caminho que o levou até ali.

Nesse caminho, Sergio, em sua primeira metade, quase perde seu rumo nos avanços e retrocessos na história do diplomata que estudou em Sorbonne nos anos 1960, e atuou minimizando conflitos no Camboja e no Timor Leste. É neste último endereço, a propósito, que Vieira de Mello, casado há mais de 20 anos e pai de dois filhos, conhece Carolina Larriera (de Armas), a argentina especialista da ONU em finanças, por quem se apaixona.

 

A paixão é recíproca e o filme sugere que Vieira de Mello irá se retirar da ONU após a missão no Timor Leste, até que é convidado por Bush a atuar no Iraque sob ocupação norte-americana, onde a Al-Qaeda, então, ajudou a organizar uma resistência sangrenta.

O plano do diplomata era fixar-se no Rio de Janeiro com Carolina após o Iraque, até ser interrompido pela bomba que explodiu em 2003 na sede da ONU.

Alternando-se entre apresentar as qualidades diplomáticas e de liderança de Vieira de Mello com o seu romance em desenvolvimento com Carolina, Sergio, o filme, é igualmente envolvente, o que inclui bons diálogos e boas atuações em mais de uma situação tocante – vide a conversa de Vieira de Mello com ‘Senhorinha’ no Timor Leste, e a bela sequência em que ele decide revelar a Ana que a quer em sua vida (bela sequência!)-, mas, ao mesmo tempo, tropeça na narrativa ao inserir uma cena de sexo entre o casal.

A tal cena sugere algo revelador, mas, na verdade, não é nada revelador ao enredo ou ao espectador, a não ser a respeito da silhueta do casal em questão. Habitualmente, em filmes cujo o objetivo não é a pornografia, quando cenas de sexo são apresentadas considera-se a primeira experiência dos protagonistas (por ser algo marcante), mas não quando já se está estabelecido que os dois, digamos, já passaram por aquilo (mas não foi mostrado por algum motivo). Nesse sentido, no caso de Sergio, a tal cena é uma das mais dispensáveis que se pode imaginar num filme de propósitos como este.

Pode-se afirmar que Sergio, o filme, poderia ter colocado mais carga em seu aspecto político – um prato cheio aqui – e não tanto no romance com Carolina. Mas, ei, lembre-se que estamos falando de uma produção para a Netflix (ou, como se dizia no passado, um telefilme), pronto a atender todos os públicos de todas as idades e de todos os países, tendo estes capacidade, ou não, para deleitarem-se com um filme sem sexo.

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