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Críticas

Blade Runner 2049

O que são memórias?

Por Luiz Joaquim | 08.10.2017 (domingo)

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Algumas poucas obras do cinema reúnem em seu conteúdo tantos valores – sejam temáticos ou estéticos – e por isso mesmo geram considerável impacto na vida pessoal de um muito grande grupo de espectadores pelo mundo. Tais obras terminam, assim, por simbolizar-se, por si só, como uma referência eterna.

Dito isso, uma vez que a indústria resolve revisitar essa obra e lhe produzir uma sequência é sempre complexo avaliar a novidade com uma maior isenção de referências.

No caso de Blade Runner 2049 (EUA, 2017), de Denis Villeneuve, a produção não quer evitar as referências visuais, estilísticas, sonoras e existências. Pelo contrário, ela as buscam no seu antecessor – Blade runner: O caçador de androides (1982) – porque com elas poderia torna-se mais forte. E consegue.

Poderia ser o contrário, se usasse tais referências de forma barata e rasteira para impressionar pela facilidade – e se assim fosse, até que seria fácil avaliar o filme. Mas não é.

Em 2049, os cerca de US$ 189 milhões investidos para a produção de BD2049 permitiu que o projeto fosse bastante cuidadoso em cada detalhe. Possibilitando Villeneuve de cercar-se dos melhores profissionais, sob a benção de Ridley Scott na produção executiva.

A começar pelo roteirista Hampton Fencher, aquele mesmo que coadaptou com David Webb Peoples o livro Androides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip K. Dick (1928-1982), para o cinema e originando o filme de 1982.

Substituindo Jordan Cronenweth (1935-1996) na fotografia está o não menos competente Roger Deakins (de 1984 e Kundun). E a devastadora trilha sonora feita por Vangelis, 74 anos, para o filme #1 ganhou uma nova leitura para o filme #2 pelas quatro mãos de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmers.

A dupla, ainda bem, conteve-se e respeitosamente manteve o mesmo espírito suave e fluido (mas sem a inventividade do grego) das melodias originais. Ora apoiados por sintetizadores, ora por distorções e o melhor, os músicos definiram para um momento crucial de 2049, a original e matadora melodia de Farewell, de Vangelis.

Mas nada garantiria o êxito caso não houvesse uma atenção especial naquele que seria o mais valioso de todos os elementos para elaborar uma continuação de Blade runner: a de uma elaboração mancomunada entre o que há de frágil no humano e a criatividade técnica para formar uma nova fábula da ficção-científica que nos desequilibrasse.

BD2049 não provoca o impacto de desequilíbrio que O caçador de androides fez ao atingir seu espectador pela primeira vez. Ao menos não naqueles que o viram numa sala de cinema ainda nos anos 1980, sem ter nenhuma referência visual, sonora e temática daquele porte até então. Uma ficção-científica-policial-noir-existencialista?!? Como assim?

Mas não é este o caso para avaliar BD2049, se ele supera ou não o seu pai de 35 anos, mas sim o do quanto ele o respeita com delicadeza, criatividade e capacidade de envolvimento. De imersão num mundo que não existe.

Por essa perspectiva – e podemos escolher várias para uma crítica – Villeneuve pode ser elogiado por nos ter dado novo oxigênio sobre aquele mundo diatópico da Los Angeles futurista que, mesmo inexistente, nos é tão familiar.

O ENREDOBD2049, como já nos adianta seu título, nos coloca na Califórnia de 2049, 30 anos após o que testemunhamos no filme #1. Lá, o replicante K (Ryan Gosling) é um jovem caçador de androides. As empresas Tyrell, fabricante dos antigos replicantes modelo Nexus 8 – que gerou Roy (Rutger Hauer) – faliram antes do período chamado “pré-apagão”, e a Wallace (Jared Leto) redefiniu a fabricação das máquinas para que fossem mais dóceis e obedientes aos humanos.

Ao caçar Sapper (Dave Bautista), um Nexus 8 foragido, K encontra uma evidência de uma replicante do passado que é compreendida como milagrosa e que pode pôr em risco o equilíbrio do mundo que existe entre humanos e os replicantes das empresas Wallace. Sua chefe na polícia de Los Angeles, Joshi (Robin Wright) estabelece que K deve investigar e exterminar o que houver de derivado deste milagre. Ao mesmo tempo, Wallace e sua violenta androide Luv (Sylvia Hoeks) perseguem K para alcançar a sua descoberta e, por ela, criar replicantes ainda mais elaborados.

Colocando este fio condutor do enredo à parte, temos o que importa em BD2049 representado por uma descoberta existencial que funciona no sentido inverso (mas não menos impactante) ao filme de 1982. Se lá atrás conhecemos a humana Rachel (Sean Young) que se descobre uma replicante evoluída, aqui temos o inverso, e com reviravolta dramática antes do filme chegar ao final.

Nesse sentido, BD2049 concentra-se no que importa, repito, dentro do espírito original na história de Philip K. Dick, que nos provoca com a questão: para onde vão as memórias? Ou, mais especificamente no caso do novo filme, o que são memórias?

Como moldura para abraçar essa possante fábula visual e sonora, a cenografia, a direção de arte e os efeitos especiais cuidaram de desenhar uma mesma estrutura arquitetônica com espaços largos que reforçam ainda a ideia de solidão naquele futuro escurecido. Tal qual nos encantou, melancolicamente, em O caçador de androides.

Nisso, os técnicos permitiram-se brincar – mas sem abusar – de ícones visuais do filme #1 para que, lógico, nos sentíssemos “em casa” de novo. Com as marcas do Atari, da Coca-Cola, ou com rostos de lindas orientais em escalas gigantescas propagandeando algo ininteligível, em seu idioma, em arranha-céus.

Villeneuve e seus montador Joy Walker (de A chegada) também entenderam que o ritmo para contar essa história que se pretende humana, nesse ambiente, não poderia ser aquele que os filhotes digitais nascidos no século 21 esperam de um filme de ficção científica. Ou seja, com uma montagem epiléptica, tal qual se pode conferir em qualquer filme de super-herói dos últimos cinco anos.

BD2049 dura 163 minutos (que não se revelam em sua extensão, o que é bom) e estabelece que a emoção humana, ou a de replicantes que são “mais humanos que os humanos”, precisa de tempo para atingir certeiramente o espectador em sua sensibilidade.

Dois aspectos distraem, no mal sentido a composição deste BD2049. Um é a atuação um tanto matemática de Leto como o malvado Wallace. Deficiência que fica bem latente ao contracenar com Harrison Ford e o seu naturalismo (ou seja lá por qual técnica ele trabalhe).

O outro é uma deixa escancarada do roteiro, a certa altura, quando conhecemos mais replicantes que veneram o “milagre”, e que nos acena como uma deixa para novas sequências de Blade runner.

Uma tentação para os e$túdios de Hollywood. Um perigo para os fãs.

Curiosidades

– Enquanto busca Deckard (Harrison Ford) para obter algumas respostas sobre o milagre, K visita seu antigo parceiro, o ex-policial Gaff (Edward James Olmos). Enquanto conversam, o aposentado faz mais um de seus origamis. Desta vez não vem uma galinha ou unicórnio, mas sim uma ovelha, que talvez tenha sonhos elétricos.

– Este que aqui escreve viu Blade runner: O caçador de androides (que se passa em 2019) pela primeira vez no cinema Veneza (Recife), numa terça-feira. Era o dia 6.10.1987. E viu Blade runner 2049 (que se passa 30 anos depois da história original) no Imax do UCI/Ribeiro do Shopping Recife, exatamente 30 anos depois, numa sexta-feira. Era o dia 6.10.2017. A data 6.10.2049, no filme #2, é determinante para seu enredo.

Os anos entre 2019 e 2049

Três curtas-metragens oficiais lançados online pela Alcon Entertainment mostram como ocorreu o apagão de 2022 (uma animação de Shinichiro Watanabe), o modo como Wallace convenceu autoridades a voltar a produzir replicantes em 2036, e como Sapper acabou sendo identificado como replicante e passa a ser perseguido por isso, em 2048. Veja abaixo os três curtas em sequência.

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