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Críticas

Tempo de matar

Obra antirracista de Joel Schumacher ganha relançamento no À la carte

Por Luiz Joaquim | 11.05.2021 (terça-feira)

Você teria curiosidade, leitor, em ver um filme cujo elenco contasse com Donald Sutherland, Matthew McConaughey, Samuel L. Jackson, Ashley Judd, Sandra Bullock, Kiefer Sutherland, Octavia Spencer (esta, na verdade, numa ponta como figurante) e… Kevin Spacey? E se todos eles estivessem sob a direção de Joel Schumacher? Bom, caso haja curiosidade, ela poderá ser saciada a partir desta quinta-feira (13) quando a plataforma streaming À la carte, da paulista Belas Artes, disponibilizará Tempo de matar (A Time to Kill, EUA, 1996), em seu catálogo, além de outros quatro títulos valiosos (veja ao final desse texto), entre eles a inédita comédia turca Quem matou lady Winsley (2019), de Hiner Saleem (a partir da sexta, 14).

Mas por que a atenção para Tempo de matar, um filme de 25 anos atrás? Porque a plataforma do Belas Artes foi bastante esperta em resgatar essa pequena peça de tensão racial, criada por Schumacher há ¼ de século a partir do livro de John Grisham, e jogá-la num 2021 ainda impactado pelos acontecimentos deflagrados em torno do assassinato de George Floyd (cuja morte completa um ano no próximo dia 25).

E é bom perceber que Tempo de matar segue hoje com a mesma força narrativa apresentada em 1996, mas nos chega também com uma pequena marca do tempo carimbada ao mostrar dezenas de membros da Ku Klux Kan (KKK), com a sua patética indumentária, em plena luz do dia, fazendo um piquete diante do prédio de um tribunal da justiça exigindo morte ao réu em questão, Carl Lee Haily (Jackson).

Ainda que a situação aconteça na minúscula e preconceituosa cidade sulista de Canton, no Mississippi, ver, em 2021, tal encenação sugere um deslocamento muito distante do que seria socialmente aceitável hoje, com consentimento policial, mesmo se ocorresse na mais suja latrina norte-americana onde ainda hoje residem esses racistas/supremacistas.

Canton é a típica microcidade, no fim-do-mundo, onde todos se conhecem, mas nem todos se aceitam, com a comunidade vivendo sob pesada segregação racial. O julgamento de Carl Lee acontece por ele ter atirado e matado dois white-trash (como eles se referem, depreciativamente, a uma certa classe pobre de brancos, desocupados e arruaceiros) que haviam estuprado e tentado matar Tonya, filha de Carl, com apenas 10 anos de idade.

Mas Tonya sobreviveu à brutalidade, o que levou à prisão dos dois bandidos e posterior ataque de Carl Lee contra a dupla, antes mesmo dela ser levada ao tribunal.

Quem acaba por ir o tribunal é Carl Lee, que recorre a Jake (McConaughey), jovem advogado da cidade que já salvou a pele de seu irmão por porte de drogas. Com a mídia por perto, o julgamento ganha interesse nacional e atrai a estagiaria rica Ellen (Bullock) que vem de Boston se oferecer para auxiliar Jake. O advogado também tem a ajuda daquele que foi seu professor e mentor, o advogado aposentado Lucien (Donald Sutherland), espécie de símbolo local de irreverência e justiça.

McConaughey é Jake e Bullock e Ellen em “Tempo de Matar”

O grupo irá trabalhar para defender o réu negro que será avaliado por um júri completamente formado por brancos, tendo à frente da acusação o promotor Buckley (Spacey), e um juiz declaradamente parcial (mas não descaradamente parcial como vemos em Os 7 de Chicago).

É sobre as estratégias da defesa tendo o racismo como principal opositor e sobre a relação entre advogado branco e réu negro que se concentra 75% do drama de Tempo de matar, e são por esses aspectos que o filme vale uma revisão hoje.

Há, inclusive, a certa altura, um diálogo assustador entre Freddie (Kiefer Shuterland), irmão dos white-trash assassinados, com um líder da KKK, quando o primeiro assume que acreditava no fim da Klan, para receber a resposta do segundo explicando que a Klan nunca sumiu, ela sempre está lá, mas só vem à superfície quando “é preciso”. Nada mais assustador do que ouvir isso em tempos atuais, quando tal resposta absurda não soa tão impossível assim.

Noutro ponto decisivo do filme, Jake escuta de Carl Lee, atrás das grades, que o jovem advogado nunca ganhará o caso porque ele pensa exatamente igual aos integrantes do júri. E é assim simplesmente por ele ser branco. Carl Lee é taxativo em explicar a Jake que ele é também racista, por mais que ele tente se vender com o good guy da história.

E é esse tapa na cara que faz toda a diferença nessa assustadora fábula do mal, conduzida com mão firme por Schumacher, um cineasta historicamente interessado em personagens vulneráveis.

Para a cena do estupro, nos primeiros minutos do filme, o realizador dá um espetáculo de implícita economia visual, sendo suficiente o enquadramento de pequenos detalhes e de algum sangue acompanhado por gritos de horror. A economia aqui não é menos impactante do que se fosse filmada de forma plasticamente evidente.

Por fim, uma ironia: O impiedoso promotor interpretado por Kevin Spacey, num esforço de desvalidar uma valiosa testemunha da defesa, o desmascara para o júri, revelando que ele teve um caso com uma menor, então com 17 anos de idade, no ano de 1960 (ou seja, 36 anos do tempo presente no filme) e, portanto, seu depoimento não seria digno de validade moral para o caso.

É o mesmo Spacey que teve a carreira “cancelada” após acusações de conduta sexual inapropriada, tendo uma delas vindo a público em 2017 pelo ator Anthony Rapp, a partir de uma situação ocorrida 31 anos antes, numa festa em 1986.

MAIS FILMES – Outros filmes disponíveis a partir desta quinta-feira no À la carte: Hiroshima, meu amor (1959), de Alain Resnais; Pais e Filhos (1957), de Mario Monicelli; Gunga Din (1939), de George Stevens.

A plataforma cobra pelo plano de assinatura com acesso a todos os filmes do catálogo em dois dispositivos simultaneamente, o valor mensal de R$ 9,90, e o valor anual de R$ 108,90. Para se cadastrar, clique aqui e acesse a página do Belas Artes.

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