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Críticas

Diários de Otsoga

Casulo contra a Covid-19

Por Luiz Joaquim | 15.07.2022 (sexta-feira)

Diários de Otsoga (Por., 2021), nova provocação de Miguel Gomes, codirigido com sua companheira Maureen Fazendeiro, é um filme para ser visto no cinema (estreia nessa quinta, 21). Menos pelos arroubos pictóricos e mais pela proposta altamente dispersiva de contar uma história de trás pra frente sobre três jovens que estão reunidos numa casa para fazer nada.

Ver o filme numa telinha, com todas as distrações ao redor, própria de quem está cercado por apelos domésticos, certamente irá prejudicar qualquer possível imersão necessária ao espectador na interação que o filme clama.

A propósito, se o leitor não percebeu, vale apontar a brincadeira no título do filme: ‘Otsoga’ é ‘Agosto’ espelhado. Escrito de trás pra frente. E, a propósito, não é que o trio não “faz nada” no enredo, ou melhor no não-enredo, pois, no caminho inverso da cronologia narrativa – que parte do dia de número 22 para o dia de número 1 – vemos os atores empenhados na construção de um borboletário e na limpeza da casa para dela usufruírem propriamente como num veraneio.

Carloto Cotta, Crista Alfaiate e João Nunes Monteiro observam borboleta sainda do casulo, estando eles mesmo no casulo sanitário contra a Covid-19

Entre uma ação e outro, na medida em que o filme corre, vamos entendendo as motivações, ou falta delas, para os movimentos do trio de atores João Nunes Monteiro, Crista Alfaiate e Carloto Cotta, até chegar ao ponto, no retrocesso cronológico – ali próximo ao dia 13 – de termos em cena também o casal de diretores, além de parte da equipe discutindo que rumos tomar dali adiante.

O detalhe é que nós, espectadores, já sabemos da informação que eles ainda não sabem naquele ponto, uma vez que o futuro de suas ações já foi compartilhado conosco.

Gomes (e) negocia conflito com o elenco sobre o desenrolar dos trabalhos

Nesse sentido, nada mais inteligente do que um dispositivo de contagem regressiva de dias para instigar a curiosidade de sabermos como vai encerrar (no caso, como vai iniciar) essa história em que performance dramatúrgica se mescla com reuniões de produção sem nenhum pudor, algo inclusive conhecido na cinematografia de Gomes, marcadamente num outro filme com ‘Agosto’ no título (Aquele querido mês de agosto).

Otsoga foi realizado entre agosto e setembro de 2020, ou seja, no inicial e assustador contexto da pandemia pela Covid-19, num mundo ainda sem vacina para esse mal, e com a equipe tentando se resolver em confinamento na própria locação – a casa enorme onde se desenrolam os acontecimentos.

Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2022, este novo Miguel Gomes (com Fazendeiro) parece se comunicar metaforicamente com a própria cultura de um Portugal historicamente isolado do mundo depois de seu período colonialista e, talvez, Gomes e Fazendeiro tenha construído aqui também uma simbologia curiosa entre o obrigatório confinamento por exigências mundiais sanitárias com o confinamento do cinema português historicamente apartado (ou apenas maltratado) do/pelo mainstream mundial cinematográfico.

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