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Críticas

Tár

Entre o tempo da música e o da vida

Por Luiz Joaquim | 25.01.2023 (quarta-feira)

Pode uma generosidade ser elegante? Generosidade pode tudo. Mas quanto à elegância, a abertura de Tár (EUA, 2022) serve como exemplo para o que estamos nos referindo sobre a generosidade elegante. Ela está nos créditos de apresentação.

E não estamos falando de um nenhum aspecto estético e sim do gesto.

Ao contrário dos habituais nomes isolados dos atores que vão se sucedendo, da maior estrela para o menor coadjuvante, e seguindo pelos outros nomes da criação – roteiro, fotografia, direção de arte, etc – até chegar a ‘um filme de’ ou ‘direção de’, em Tár as cartelas de créditos seguem o sentido inverso ao dos créditos finais.

Somos apresentados coletivamente, primeiro, aos nomes a quem a produção agradece, depois aos nomes da equipe do transporte no set, aos dos gerentes de locação, à equipe do catering, da elétrica, dos dublês, etc, etc, até chegar ao nome de Todd Field, roteirista e diretor de Tár – filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira (26) e, ontem (24), recebeu a indicação para concorrer em seis categorias (filme, direção, roteiro original, atriz [Cate Blanchett], fotografia, edição) na 95ª edição do Oscar, cuja premiação ocorrerá dia 12 de março deste 2023.

Mas Tár tem uma muito breve imagem-prólogo. Ela nos coloca na perspectiva de um smartphone fazendo uma transmissão ao vivo pelo whatsapp enquanto a dona do aparelho celular manda mensagens depreciativas sobre a imagem da mulher enquadrada. A ‘vítima’ da ‘live’ dorme enquanto viaja de avião. A mulher da imagem é a protagonista Lydia Tár (Blanchett), talvez a mais importante compositora-regente mulher em atividade no mundo ocidental, conforme é apresentada neste impressionante roteiro original de Field.

Blanchett como Lydia Tár, a mais importante compositora-regente viva do Ocidente?

Só conheceremos a autora das imagens na tela do smartphone no último 1/3 de Tár. A imagem é importante porque ela estampa, de cara, que estamos diante de um ser-humano falível e suscetível a críticas como qualquer outro.

Nesse sentido, a partir dessa imagem-prólogo e das imagens que vêm depois dos elegantemente generosos créditos de abertura – com Lydia sendo entrevistada em lotado auditório norte-americano pela revista The New Yorker – , somos colocados diante de um contrastante paradoxo (desculpem a redundância): Quem é, finalmente, Lydia Tár?

Após o entrevistador da revista ler para a plateia o extenso e singular currículo da entrevistada, seguida por uma conversa sedutora e eloquente sobre a percepção que temos da música e, mais, as possibilidades de percepções que podem ser dadas para uma composição musical, o espectador deverá ficar bastante impressionado com o talento único da protagonista.

Field vai desconstruindo esse personagem num desmonte em dégradé quase matemático [mas não realmente matemático], de modo que nós, no cinema, não cheguemos ao final do filme antipatizando com a gênio da música que nos é apresentada no início. O máximo de antipatia apreendida contra a célebre regente deverá será uma relativização sobre as suas opções de vida, que a levarão até o fundo do poço, no qual o filma irá encerrar.

Essa trajetória é aqui desenhada como um fascinante trajeto para baixo a partir de um comportamento sexualmente predador de Tár com suas alunas na escola para regentes onde leciona e com as iniciantes musicistas que integram a importante orquestra berlinense que rege. A fatalidade que ela fabrica pra si própria é certa não apenas em termos sociais e profissionais, mas também numa escala pessoal, uma vez que sua companheira de vida, Sharon (Nina Hoss) – que é também mãe da sua enteada, a pequena Petra (Mila Bogojevic) – atua igualmente na orquestra.

Sharon (Nina Hoss), ao fundo, regida pela companheira de vida, em primeiro plano, em desfoque

Entre as aulas na escola, a solitária composição de uma nova peça e os ensaios para uma gravação da 5º sinfonia de Mahler, vamos conhecendo Lydia, com exemplos concretos, e o porquê de seu talento ser tão reconhecido. É também pelas brechas dadas pelo roteiro que conheceremos a fraqueza que irá lhe condenar.

Tár, o filme, parte de uma premissa audaciosa para os dias de hoje: apresentar uma protagonista complexa, e por isso errática, com deslizes de comportamento e autoritarismo com seus subordinados disfarçado de polidez. “Isso aqui não é uma democracia”, diz Lydia em momento descontraído enquanto brinca de reger uma orquestra de bichos de pelúcia com a enteada.

A pequena Petra (Bogojevic) tesouro humano na vida de Lydia

Não bastasse jogar luz sobre um personagem ‘falho’ – e dizemos falho porque também, no enredo, ela, perante a lei, passa a ser indagada com relação a morte de outra profissional –, mas também, de forma igualmente audaciosa, construí-la como uma lésbica.

Mais ainda: uma lésbica que confronta um aluno pansexual e a sua antipatia por Bach por conta do compositor alemão ter tido 20 filhos com duas mulheres no século 18 e ser, nas palavras do aluno, um misógino. Ao confrontá-lo, Lydia pergunta como, então, deveriam julgar o trabalho do aluno como regente: pelo que enxergavam no palco ou pela qualidade da música que ele entrega com o seu trabalho.

Antes, Lydia ao piano, com Blanchett talentosamente tocando ela mesma O cravo bem temperado: Prelúdio e fuga em Dó maior, mostra ao jovem aprendiz que Bach estava mais interessado nas perguntas que nas respostas, e os bons interpretes dariam isso aos ouvintes, porque Bach também sabia que os ouvintes se inquietariam, igualmente, com as perguntas e menos com as certezas.

Alguém pode dizer que esta bela sequência junto a uma outra em que ela dá coordenadas falando em alemão com a sua orquestra durante o ensaio da 5º de Mahler – sem que o filme traduza as coordenadas da regente para nós espectador – são dignas de um Oscar para Blanchett. E não estaria errada, tal afirmação.

Tár (Blachett), de pé, e sua mais nova violoncelista preferida, Olga (Sophie Kauer)

Mas estaria mais correta a afirmação que apontasse a coesão da atriz na composição desse personagem fascinante e condenável ao mesmo tempo, ou seja, alguém complexo, enfim, como qualquer pessoa real que conheçamos.

Em tempo:

(a) No filme, Todd Field não perdoa quando o assunto é fazer piada a partir de excessos ou deslizes na indústria do cinema e da música: Numa aula, Lydia cita a trilha de Jerry Goldsmith, de origem judaica, para O planeta dos macacos (1968) como roubada, como vingança, do compositor francês antissemita Varèse, falecido em 1965.

E (b) numa viagem, provavelmente, nas Filipinas, Lydia escuta, de um barqueiro, que os jacarés locais sobreviveram às filmagens de, provavelmente, Apocalypse now (1979) porque mudaram de localização no rio.

(c) Ao mesmo tempo, vale conferir a delicadeza do reencontro de Lydia com suas inspirações originais na música, quando ela revê numa gravação em VHS a apresentação nos 1950 para a tevê de Leonard Berstein em seu ‘Concertos para Juventude’, quando conta ‘qual o significado da música’. Você pode conferir neste vídeo (clique aqui) a partir de 42 minutos.

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