
79ª Cannes (2026) – Butterfly Jam
Quinzena dos Realizadores traz filme que questiona a masculinidade
Por Ivonete Pinto | 14.05.2026 (quinta-feira)
— Este texto contém spoilers
Foi uma sessão bem concorrida a de Butterfly Jam (FRA. EUA, 20226), concorrendo na Quinzena dos Realizadores. Não que as sessões não sejam todas concorridas: há filas e ingressos esgotados para quase todas. Mas esse filme vinha com a credencial do ator principal, Barry Keoghan, de presença marcante em tudo o que faz. Com seus olhos puxados, pode passar por indígena e oriental, mas é irlandês. Seu papel em Saltburn (2023) lhe rendeu indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA.
Aqui Keoghan faz um caucasiano, Azik. O diretor Kantemir Balagov é desta região e o roteiro reitera a origem do personagem, numa afirmação que pode ser de deslocamento (a produção é francesa mas a história se passa em New Jersey, nos Estados Unidos) e pode ser de masculinidade torta. A Circássia é um estado extinto da Europa Oriental e atualmente tudo virou “russo”. Mas o grupo étnico existe e está espalhado pelo mundo, especialmente nos Estados Unidos, país para o qual se exilou o jovem diretor, autor, entre os longas, do memorável Uma mulher alta (2019).
A narrativa de Butterfly Jam tem tudo a ver com Cannes: não faz concessões ao apresentar personagens e o público demora a entender quem é quem, quais são as relações estabelecidas, algo que funciona para manter o interesse aceso o tempo todo e liga a proposta a um realismo cru. Afinal, na vida, as pessoas não ficam, digamos, dizendo a um amigo “esta é minha esposa”. O amigo já sabe.

Violência, deslocamento e masculinidade torta atravessam Butterfly Jam.
O que fica claro é que Azik é um cozinheiro experimental (a geleia de borboleta é sua pièce de résistance), que trabalha para o restaurante de uma amiga, esposa, seja lá o que ela for, e que tem um filho de 16 anos que pratica luta livre com sucesso. A primeira cena é bem ilustrativa do ambiente violento em que vivem. Um amigo do cozinheiro é um desses sujeitos que fazem brincadeiras idiotas que levam a brigas ridículas, sem motivo. Mas esse sujeito é um ressentido e haverá desdobramentos deste traço psicológico que definirão a trama. A violência, para usar um termo usual, aumenta.
A masculinidade que vira patologia está impressa nessa cena de abertura, com a câmera sempre muito próxima dos personagens. Os diálogos soam improvisados, porém a arquitetura do roteiro é visivelmente elaborada. Aliás, o roteiro é assinado por Balagov e Marina Stepnova, o que nos permite pressupor que a crítica a essa masculinidade tem o olhar de uma mulher, algo que faz toda a diferença.
Há espaço também para elementos que sinalizam a ausência das mães nas vidas de pai e filho, o que leva à cereja do bolo deste filme, que é a presença de Monica Bellucci, por quem o cozinheiro é aficionado. Ela aparece em um cartaz e é citada em diálogos. Mas lá pelas tantas, e aqui vai um spoiler, ela aparece em um plano que dura — talvez, não contei — 10 segundos. São 10 segundos mágicos que elevam o cinema à décima grandeza, contribuição notável da tradição dos imigrantes e filhos de imigrantes no campo artístico. Resta torcer para que Butterfly Jam estreie no Brasil. Vachement bon.















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