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Críticas

Obsessão

Entre entretenimento e filosofia, Obsessão expõe o lado trágico do desejo.

Por Humberto Silva | 14.05.2026 (quinta-feira)

Um dos fenômenos mais surpreendentes nos anos recentes na indústria de cinema é a proficuidade do gênero terror; ou horror, como uns podem preferir. Um levantamento simples, considerando apenas a circulação no circuito comercial de filmes norte-americanos no Brasil no ano passado, e a soma de lançamentos chega a vinte obras de terror. Média, portanto, de quase duas estreias por mês de terror em seus diversos subgêneros, tipificações, estilos; do remake do sobrenatural Nosferatu, obra de Robert Eggers, e da “releitura” estilizada de Frankenstein por Guilherme del Toro à monstruosidade natural de Anaconda. Quase impossível a um aficionado pelo gênero não se deleitar com a abundância.

Esse ano não difere do anterior na média de lançamentos e previsões para os meses seguintes. O próximo na fila é Obsessão, dirigido pelo jovem e promissor Curry Barker, que procura se estabelecer entre os nomes representativos do gênero na sequência de seu found footage Milke & Serial (2024) e com o aguardado remake de O massacre da serra elétrica (1974) para o próximo ano. Ainda que desde os “filmes de monstros” da Universal na década de 1930 o terror se mantenha como um gênero muito bem-sucedido, diversificado e reconfigurado em suas convenções sem ter tido praticamente interrupção na linha de montagem da indústria entre os gêneros cinematográficos hollywoodianos, os anos recentes de fato oferecem um cardápio tão amplo que é impossível não se dar conta dessa fenomenal vitalidade produtiva da voga atual.

Em Obsessão, o verdadeiro terror talvez esteja na realização dos desejos.

Tratemos, então, de Obsessão. Esse filme tem por assunto nuclear os meios que podemos utilizar para a realização de desejos e, em decorrência, o quanto a materialização de um objeto desejado pode trazer como efeito uma experiência terrificante. O tema de Obsessão, assim posto, traz a baila não tão sutilmente, pois, uma questão filosófica de fundo: correr atrás da felicidade e ter como resultado a obtenção do objeto que se deseja pode ter como efeito um desfecho horroroso. Na cadeia de causas e efeitos nas escolhas feitas ao longo da vida, quando se trilha em busca de uma felicidade desejada e atingida em razão da realização do desejo almejado, simultaneamente pode-se não considerar que em outra trilha poder-se-ia encontrar uma felicidade indesejada (não querida a partir de uma meta a ser atingida) tanto quanto que a trilha seguida para a felicidade desejada (querida a partir de uma meta a ser atingida) é a que pode ter como resultado um fim trágico (tema um tanto grego, decerto, basta pensarmos em Édipo, Aquiles…): a infelicidade pela irrealização de algo desejado e, como recompensa, ter uma longa, modorrenta e enfadonha vida pela frente.

Em linhas gerais, esse é não só o assunto de Obsessão como, destarte, de modo sucinto, com todos os spoilers possíveis, a trama e seu desenlace. Com esse assunto, o quanto pode ser terrivelmente tenebrosa a obsessão pela realização de desejos, o quanto a felicidade é possível – se não ao menos escapar de um fim funesto; eis as contingências da vida – com o que não seria mediatamente desejado. Com isso, tenho em vista Stalker (1979), de Andrei Tarkovski, e a Zona, o lugar de realização dos desejos mais íntimos. A equivalência entre o cinema de Tarkovski e o recente terror de Curry Barker pode parecer despropositada. E entendo que efetivamente o seja ao levarmos em conta os propósitos e modo de conceber o cinema de Tarkovski e, em contrapartida, o que mobiliza, na engrenagem da indústria de cinema, Barker e o pool de produtoras que realizaram Obsessão tendo a Universal Pictures como responsável pela distribuição internacional. Há, no entanto, considerado o assunto (a “causa formal” nos dizeres de Aristóteles, ao abordar o princípio da causalidade nos “modos de dizer sobre a substância”), dois pontos que, pondero, valem ser realçados.

Primeiro. Muitas vezes, percebo, elogios a um filme resultam do assunto, da temática; enfim, de sua causa formal. Uma implicação tácita que se segue disso é que a genialidade de um Tarkovski, de um Bergman, de Fellini estaria por trás do porquê e do modo como se pode fazer “uma crítica à futilidade no comportamento social de uma elite italiana…” (A doce vida de Fellini). Essa implicação pressupõe, ainda, uma verticalização de assuntos, uma hierarquização encimada pela profundidade temática (o oxímoro aqui, creio, convêm…), a qual por sua vez comporia as grandes obras do cinema. A esse respeito, eu tomaria como contraexemplo tão somente O nascimento de uma nação (1915), de David W. Griffith. Entendo que a “nobreza” de um tema não necessariamente é consubstancial a uma grande obra fílmica. Ou que uma obra com “problemas formais” necessariamente seja má. Em caminho inverso, não vejo por que um filme que não precisa ser visto como obra de gênio não possa ser subsumido por um tema hierarquicamente “nobre”, portanto que envolva “profundidade filosófica”. Segue-se então que, independentemente de ter ou não a pretensão de conceber uma obra-prima do cinema, Curry Barker e seu terror Obsessão, com um assunto tão perturbador sobre os efeitos terríveis da realização de desejos, oferecem uma obra de inconteste “profundidade filosófica”, o que faz ver, creio, como assuntos “nobres” não se encontram exclusivamente em obras-primas de igualmente incontestes grandes gênios do cinema, como Tarkovski et alii. O assunto de Obsessão não se serve como mero entretenimento para horas de lazer, ou escapismo frente à “magia” do cinema.

A vitalidade do terror contemporâneo convive com o risco permanente do esquecimento.

Ocorre que aqui no entretenimento, justamente, o segundo ponto que pondero vale ser realçado. A “história” contada em Obsessão, seu enredo, visa fundamentalmente atrair, seduzir o espectador. Para a lógica do mercado, um produto, a forma-mercadoria a ser inserida na sociedade de espetáculo. Por conseguinte, na padronização de imagens a efetiva materialização de um filme cuja finalidade extrínseca – eis a ironia do Capital, que tem no lucro um condicionante irretorquível – é incrivelmente a de não assustar os fãs. Com isso, para fãs do gênero, a irrupção de sons, a condução narrativa, a iluminação, as pantomimas são de previsibilidade assustadora. De modo que, para quem assiste a um filme de terror e se satisfaz em receber uma obra que se conforma às convenções do gênero, Obsessão não acredito que decepcione. Para minha expectativa com respeito a um filme de terror, Obsessão é muito bem realizado, atende muito bem ao que dele se pode esperar. Contudo, pirotecnias visuais, sonoras, que visam fetichizar o publico acabam fazendo com que o assunto, a obsessão pela realização de um desejo, não vá além do verniz. O que se vê, a materialização, a “causa material” (novamente Aristóteles) acaba por diluir o assunto, a forma, a “causa formal”.

O que me parece relevante abordar quando vemos um filme que se insere de modo massivo na linha de montagem da produção cinematográfica é o quanto ele, respeitado o que contenha de relevante como assunto, possa ser esquecível. A pergunta que me vem é: passados alguns anos, quais filmes de terror da avalanche atual do gênero serão lembrados? Sem bola de cristal ao lado (o “salgueiro de um desejo”, objeto fetiche sobrenatural no filme que realiza desejo do protagonista), seria insensato dizer se no futuro Obsessão será ou não um marco representativo do atual boom de terror. E seria sensato, por outro lado, aguardar os próximos filmes para vermos como Curry Barker se imporá na traiçoeira indústria de entretenimento. De sorte que, tendo Obsessão como vitrine, aguardo o que ele nos oferecerá em sua versão de O massacre da serra elétrica. Tobe Hooper, que dirigiu esse “clássico” do terror nos anos de 1970, firmou em seguida seu nome no gênero com Poltergeist: o fenômeno (1982).

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