
Luciana, A Comerciária – crítica
Um primeira leitura analítica, 50 anos depois
Por Luiz Joaquim | 20.09.2026 (domingo)
– em foto de Ana Amélia Nasário, Luiz Joaquim, Kleber Mendonça Filho e Caio Ramon Fonseca no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, hoje (20), apresentando a primeira exibição pública de Luciana, A Comerciária, em 50 anos,
É bastante inusitado e honroso dar partida à fortuna crítica de um filme com 50 anos de atraso. A obra é Luciana, a comerciária, concluído em 1976 pelo diretor pernambucano Mozart Cintra com a produtora Celeida Sette Cintra (também esposa de Mozart). O filme teve a sua única exibição no Recife ocorrida em 17 de maio de 1976, mas num contexto restrito, fechado para a imprensa, na cabine de 30 lugares do cinema São Luiz, do Recife. A produção com 80 minutos de duração, entretanto, nunca chegou a nenhum festival, nem encontrou abrigo em nenhum circuito exibidor comercial, não tendo entrado em cartaz em nenhuma capital brasileira.

Mozart Cintra em foto de 1947. Foto: Acervo Família Cintra
Os esforços de Mozart e Celeida foram hercúleos não apenas na realização do filme (algo anômalo fora do Sudeste nos anos 1970) – com locações nos munícipios pernambucanos de Pedra, Arcoverde, Igarassu, Recife e Jaboatão dos Guararapes. Eles empenharam iguais esforços para que o filme ganhasse as telas de cinema. O casal foi vitorioso na primeira batalha, mas não na segunda.
A família conta que as constantes tentativas e fracassos de Mozart para que o filme entrasse em cartaz foram consumindo o cineasta de modo devastador. Meses depois, sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer no primeiro semestre de 1977.
A viúva Celeida Sette Cintra, durante os 49 anos que viveu após a morte de Mozart fez o que esteve ao seu alcance para que o filme “voltasse à vida” mas não teve tempo de testemunhar essa vitória. Celeida faleceu no 29 de julho último, há menos de dois meses da bela sessão testemunhada por filhos, netos e bisnetos ocorrida na tarde de hoje, domingo, 20 de setembro, no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, com exibição simultânea na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Celeida Sette Cintra, em cena como Kina Cintra, em “Luciana, A Comerciária”.
É honroso escrever hoje sobre Luciana… mas é também de se lamentar, num certo sentido, por sabermos, só agora, que esse divertido e provocador trabalho poderia ter sido inscrito na história do cinema brasileiro dentro do já muito estudado e esteticamente discutido gênero conhecido por vários nomes: Cinema marginal; cinema underground; cinema udigrudi ou mesmo Cinema pós-Cinema Novo.
O próprio Mozart tinha essa consciência, uma vez que, ainda nas cartelas de abertura deste seu único longa-metragem ele estampa a frase “Um filme Underground”.
O FILME – Sabe-se que Mozart e Celeida empenharam todo o dinheiro que tinham e o que não tinham para realizar Luciana… Tais esforços passaram pela busca de apoio financeiro de empresários locais que tivessem a coragem de empenhar algum recurso na produção em troca de merchandising do seu negócio alinhavado ao roteiro.
Daí o primeiro quarto de Luciana…, ainda no interior de Pernambuco, ser tão marcado pela presença de supermercados, bancos e restaurantes entre outras instituições.
Mas é quando chega ao Recife que Mozart põe em prática sua inventividade para retratar uma cidade comicamente hostil contra a jovem interiorana que veio em busca de emprego, ao mesmo tempo em que apresenta, também, o despertar dessa mesma jovem como um mulher forte, que não se dobra a nenhum assediador (ou “corruptor”, como ela própria diz).
Ao seu modo, Mozart constrói situações que poderiam figurar, por exemplo, em um Bandido da luz vermelha, como a ação do policial que vem prender um empregador que maliciosamente entrevista Luciana (Kátia Brígida); assim como, mais adiante, a sequência em que outro policial vai prender a própria Luciana, numa ótica na Rua Direita, centro do Recife, por um delito que ela cometeu em defesa de sua própria vida.
Antes, no início do filme, Luciana, já sugere a liberdade que veremos na sequência, brincando com o seu namorado Romildo (Celso Godoy) com a paisagem da cidade de Pedra. Ele diz, “isso aqui parece a Lua”, e os dois saem correndo, enquanto ela grita: “Então vamos voltar à Terra!”.

Ator Celso Godoy como Romildo, em cena de “Luciana, A Comerciária”
A contracultura de Luciana… aparece ainda na cidade de Pedra por uma notável reverência à mãe-preta do terreiro no município. Luciana e Romildo vão pedir sua benção antes da partida da moça à capital.
Já no Recife, em busca de um lugar para morar, Luciana escuta de um senhorio que aluga quartos e quer despejar uma de suas locadoras. É quando escuta de Luciana: “Por quê o senhor não dá o quarto para a moça? Quem dá aos pobres, empresta a Deus”. E aponta para o céu gritando: “Olha Deus ali! Olha Deus ali!”.
Há divertidos exemplos de uma ideia marxista por trás de Luciana, a comerciária. E, não por acaso, a família do cineasta conta que Mozart sonhava ter um filho para pôr seu nome de Marx.
À propósito, reportagens da primeira metade dos anos 1970, registras por Celso Marconi e Fernando Spencer, inclusive, apontam Mozart como um empertigado contestador da forma como o governo estadual de Moura Cavalcanti não olhava para a categoria cinematográfica local. Visionário, Mozart, dizia que “ou o governo ajuda o pessoal cinematográfico ou nem daqui a 200 anos teremos cinema em base industrial em Pernambuco” (Jornal do Commercio, 2 de setembro de 1976).
Talvez a sua empertigada postura política naquele 1976 do governo militar de Ernesto Geisel explique um pouco da negativa em seu trabalho ser aceito pelos exibidores.
Voltando ao filme, uma vez já alojada no Recife, Luciana amadurece a olhos vistos como uma mulher moderna que é obrigada a se colocar como destemida contra os desafios da cidade grande. Ela sempre tem uma resposta a altura contra os homens que a assediam.

Kátia Brígida como Luciana, em busca de um lugar no Recife
Quando, por exemplo, tenta um emprego numa casa de espetáculos, recitando poesia, recebe a resposta do proprietário, interessado na verdade em explorar o corpo das bailarinas do estabelecimento: “Meus clientes são analfabetos, seu show não serve”, para ouvir dela: “Analfabetos são seus clientes ou é você?”.
Em busca de um lugar para morar, Luciana escuta de um senhorio que aluga quartos e quer despejar uma de suas locatárias, para escutar de Luciana: “Por que o senhor não dá o quarto para a moça? Quem dá aos pobres, empresta a Deus”. E aponta para o céu gritando: “Olha Deus ali! Olha Deus ali!”.
A primeira cena do filme, na verdade joga luz sobre o seu noivo, Romildo, mas por um bom motivo. A cena faz referência a um clássico político do cinema nacional. Em silêncio, Romildo, de braços abertos, sob o sol escaldante de Pedra, gira de pé em torno do próprio eixo, tal qual o Corisco de Deus e o diabo na terra (1964), de Glauber Rocha, quando grita caindo: “Mas forte são os poderes do povo!”.
Cinemanovista ou não, marginal ou não, o cineasta pernambucano parecer ter sido um visionário ao menos quando apresenta, nas mesma cartela em que escreve “Um filme underground”, a seguinte informação: “Um clássico de Mozart Cintra”. Afinal, é o que está prestes a se tornar Luciana, a comerciária. Um clássico tardio, cuja fantasmagoria, após 50 anos, agora tem corpo e luz para atingir os olhos de novos espectadores pelo mundo.

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