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Festivais

50 Mostra SP’26- Aqui Não é o Seu Lugar

Um filme e uma cinematografia: romenos no topo

Por Cléber Eduardo | 29.10.2026 (quinta-feira)

Tomemos inicialmente um filme em específico, Aqui não é o seu Lugar (Nue Locul tãu Aici, 2026), ganhador do festival de Locarno, para depois olharmos para o cinema romeno, maior fenômeno do cinema europeu no século XXI, não somente pela repercussão internacional de alguns filmes, mas principalmente pela força de conjunto dessa cinematográfica nos últimos 25 anos. Aqui não é o seu Lugar não é resultado de consagração isolada.

O filme é a típica narrativa armada em torno de um cerco sendo fechado em torno de um personagem progressivamente sem saídas para se livrar da responsabilidade de um mal passo. No caso, o assassinato de um cigano.. Esse personagem central é um adolescente. Seu pai, um médico. O adolescente e sua turma quebram carros à noite. Um proprietário reage e é morto a pauladas. O adolescente passa a ser investigado.

Em um primeiro momento, podemos ficar na camada principal da ficção, um drama familiar. No entanto, para além da patologia individualizada que (não) explica a violência extrema do adolescente, como reação a uma situação na qual perde controle, há o sintoma social-histórico, as intolerâncias européias com as diferenças  de origem e de cultura, a brutalidade como expressão de ressentimento.

Cena de “Aqui não é o seu Lugar”.

Há uma atmosfera e um universo de problemas que situam o filme em algum lugar entre o Haneke de “A Fita Branca” e os Dardenne de “O Filho”, depois de lerem o Dostievski de Crime e Castigo, embora cada um dessas obras e desses artistas tenha personalidades próprias. O filme romeno procura a sua. É frio, calculado, cruel, de visualidade entre sóbria e sombria, com silêncios e vazios em modo de exposição acentuada para serem notados como silêncios e vazios.

É um filme que, apesar do dispositivo do cerco que se fecha sobre um personagem dicotômico (algoz e vítima), não é de performance narrativa, inclusive cm um desfecho frágil, mas tem peso dramático e cênico, instalando-se nas más energias de cada momento e em cada espaço, sem buscar nesses momentos um caminho traçado para se chegar a algo. A primeira busca criativa é a elaboração da cena. E a cena, planejadamente, tem um peso, uma narrativa dentro da cena.

Cinema romeno em permanente alta – A inserção do cinema romeno no andar de cima dos grandes festivais internacionais com sedes européias teve início em 2001/2002, na ante–sala da elite nacional/autoral, com A Mercadoria e o Dinheiro (Marfa și banii, 2001), de Cristi Puiu, e Ocidente (Occident, 2002), de Cristian Mungiu, ambos exibidos na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes desses primeiros anos do século XXI. 

Poderiam ser fenômenos isolados? Sempre podem. Mas só foi preciso esperar três anos para começar o bonde da Romênia em Cannes, entre 2005 e 2012, com a conseqüente transformação do cinema romeno em constante coqueluxe do cinema europeu. Nem sempre com os mesmos autores, nem sempre com os mesmos estilos.

O primeiro fenômeno crítico foi A Morte do Sr. Lazarescu (Moartea domnului Lăzărescu, 2005), de  Cristi Puiu, exibido na Un Certain Regard, seguido no ano seguinte de A Leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?, 2006), de Corneliu Porumboiu, exibido na Quinzena dos Realizadores e ganhador da Camera D Or (para filmes de diretores estreantes). 

O motor estava aquecido demais para ser coincidência. Era um processo em andamento. Em 2007, a consagração: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 săptămâni și 2 zile, 2007), de Cristian Mungiu (pela segunda vez em Cannes), ganha a Palma de Ouro, e California Dreamin (2007), de Cristian Nemescu, ganha a Un Certain Regard. O diretor havia morrido pouco antes em um acidente.

Cena de “Aqui não é o seu Lugar”.

O cinema romeno terminaria essa prodigiosa década de ouro com Policial Adjetivo (Polițist, adjectiv, 2009), de Corneliu Porumboiu, premiado na Un Certain Regard, e Aurora (2010), de Cristi Piu, que emplacou seu terceiro filme em Cannes, também na Un Certain Regard, no mesmo ano de Terça-feira Depois do Natal (Marți, după Crăciun, 2010), de Radu Muntean, cineasta que, nos anos seguintes, entraria para o time principal do cinema romeno

Estava selado o romance de Cannes com uma geração de autores romenos : Piu, Mungiu, Porumboi, Muntean, Jude. Esses mesmos autores ganharam lugar cativo em Cannes depois de 2010, com outros sete filmes no festival entre 2011 e 2019. Pois os anos 20 não interromperam o fluxo. E não somente em Cannes, o festival que, por duas décadas, mais impulsionou os autores romenos.

Vinte e cinco anos depois da aparição inicial dessa geração, o cinema romeno vai bemem mais de uma direção. No segmento autoral e festivaleiro, Bad Luck Banging or Loony Porn (Babardeală cu bucluc sau porno balamuc, 2021). de Radu Jude, ganhou Urso de Ouro em Berlim e, mais que isso, alçou Jude ao topo do cinema de seu país, ao menos nos anos 20,embora sempre ladeado por Cristian Mungiu e Cristi Piu.

Cena de “Aqui não é o seu Lugar”.

Jude se tornou protagonista nacional nesta década a partir de Urso de Prata em Berlim para Aferim (2015) e do Prêmio Especial do Juri em Locarno para Corações Cicatriizados (Inimi Cicatrizate, 2016), prêmio depois repetido com Não Espere Muito o fim do Mundo (Nu aștepta prea mult de la sfârșitul lumii, 2023). 

Também se destacou pelos êxitos de The Exit of the Trains (Ieșirea trenurilor din gară, 2020), co dirigido com Adrian Cioflâncă, Não Espere Muito do Fim do Mundo (Nu aștepta prea mult de la sfârșitul lumii, 2023), prêmio especial do Juri em Locarno, e Kontinental 25 (2025), prêmio de roteiro em Berlim. Poucos cineastas no mundo tiveram tamanha projeção em grandes festivais nesse mesmo período.

Em 2026, nova consagração romena: Fjord, de Cristian Mungiu, ganhou de novo a Palma de Ouro, a segunda de sua filmografia. Dois prêmios máximo em Cannes com um espaço de 19 anos, o que mostra, por a + b, que é um cineasta de durabilidade nos andares mais altos do cinema. É neste cenário resumido que Florin Serban, cineasta mais discreto em sua visibilidade internacional do que os outros cineastas já mencionados, obteve o ponto mais alto de sua filmografia, investindo no lado mais sombrio do cinema romeno. 

Não é o único lado. O cinema romeno também tem suas comédias de boa visibilidade e seus filmes biográficos. Em 2025, houve dois títulos de maior público, The Yellow Cake, uma co-produção internacional, e a comédia Vecina Curse, fforam vistos por 300 mil e 600 mil pessoas, respectivamente, ajudando ao cinema romeno obter mais de 25% de market share no mercado doméstico, uma raridade em qualquer país, ainda maior em um com menos de 300 telas.

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