X

0 Comentários

Festivais

50ª MostraSP (2026) – 100 Dias

Remar contra o pai – os 100 dias de Amyr Klink no Oceano Atlântico

Por Ivonete Pinto | 17.10.2026 (sábado)

Da união de Amyr Klink com Carlos Saldanha só poderia surgir um espetáculo recheado de aventura, jornada do herói, mensagens de superação, um certo tom grandiloquente e uma dose de  humor. Nada disto, diga-se, é negativo a partir de uma intenção honesta de se comunicar com grandes públicos e, com isso, fazer com que nosso market share suba um pouco seus patamares. A contar pela sessão première na 50ª Mostra de São Paulo, com Saldanha e Klink na plateia, o filme pode vir a ter uma bilheteria considerável.

Carlos Saldanha é responsável direto por sucessos de bilheteria americanos,  como A Era do Gelo e Rio,  ambos com várias sequências. 100 dias é uma coprodução interacional, com vários países envolvidos, e distribuição da Disney. Quando planejou adaptar o livro  inspirado no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, sobre a travessia de Amyr Klink da Namíbia para o Brasil em 100 dias a bordo de um barquinho a remo no longínquo 1984, Saldanha sabia que teria que produzir um espetáculo emocionante. Não tanto em função de seu resultado, afinal, sabemos que o herói não morre no fim, então todos os perigos que passou teriam que ter um desfecho previsível. A emoção estaria em como o navegador se safou de perigos dignos de um Ulisses. No lugar de monstros mitológicos, teria tubarões,  baleias e navios gigantes prestes a fazê-lo desaparecer. 

Em “100 Dias”, Carlos Saldanha aposta na aventura e na superação, mas recorre aos esquematismos da narrativa clássica para humanizar Amyr Klink e tornar sua travessia uma jornada de enfrentamento paterno. (Foto: Fabio Braga/Pivô Audiovisual) DIVULGAÇÃO.

Para a estrutura de produção, o grande desafio era nos persuadir que o barco estava em alto mar. Um tanque de água e alguns efeitos visuais, assinados pelos finlandeses que entraram na coprodução, criaram tempestades  suficientemente convincentes. Para o roteiro (Elena Soarez e Thais Tavares ), a dificuldade adicional seria o perfil meio ranheta de Klink. Um sujeito incapaz de agradecer pela ajuda que recebeu ao longo da trajetória de 100 dias. 

A empatia que se estabelece com o personagem é muito em cima de sua obsessão em fazer a travessia do Oceano Atlântico solitariamente em um barco precário. Nós, espectadores, ficamos o tempo todo pensando que na década de 1980 não havia  tecnologia em termos de equipamentos e comunicações que existem hoje e que sua jornada foi mais difícil do que seria atualmente. Até mesmo a comida que levou para os 100 dias foi acondicionada de uma maneira que agora seria diferente. O filme, por sinal, não se detém em mostrar estes detalhes da sobrevivência de Klink. Não vemos como guarda a comida, como vai ao banheiro, quanto tempo dorme. Quem acompanha a saga de sua própria filha Tamara Klink  pelas redes sociais, tem uma ideia  melhor da rotina sui generis de quem navega por tanto tempo e solitariamente.

O roteiro e a direção vão explorando pequenos acidentes e desafios de modo exímio, sem deixar o ritmo cair. A atuação de Filipe Bragança é determinante para que isto aconteça, estando em cena o tempo todo em closes  planos fechados em seu corpo.

 

Embora explore com eficiência os perigos da travessia e mantenha o ritmo da narrativa, o filme pouco se detém na rotina concreta da sobrevivência em alto-mar e aposta em uma trilha sonora insistente para conduzir a emoção do espectador (Foto: Fabio Braga/Pivô Audiovisual) DIVULGAÇÃO.

 

Em favor de 100 dias, o principal ingrediente da jornada talvez esteja na velha questão freudiana de matar o pai. Quando Amyr Khan Klink decide teimosamente pela empreitada heroica, tem ao seu lado a mãe (a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu) e o irmão (João Vitor Silva) e contra ele um pai irascível (Felipe Camargo). Um pai que não acreditava que ele seria capaz, que o diminuía de maneira violenta. No mar, sempre que uma dificuldade maior surgia, era no pai que pensava para superar a situação. Não como um incentivo psíquico, mas para provar que o pai estava errado. Como ponto de equilíbrio, a mãe (que era sueca) o irmão funcionam como amparo logístico e afetivo. O conflito com o pai, que era libanês, dá ao filme uma dramaturgia universal, ao mesmo tempo, ainda que paradoxalmente mas dentro do esquematismo  da narrativa clássica, humanize o personagem. 

É preciso dar um desconto à  trilha sonora  insistente e óbvia, porém parece que faz parte da receita para se atingir o gosto de um público mais amplo.  Na trilha musical,  a exceção absoluta é para a entrada da voz de Dorival Caymmi cantando quando Amyr Klink chega, afinal, em Salvador. Escolha melhor não poderia ter. No campo da emoção através das imagens, possivelmente o momento de maior apelo à emoção esteja quando ele adentra o território brasileiro. Não será revelado aqui para não estragar a experiência, mas pode-se garantir que é uma surpresa de arrancar lágrimas até de um ser aparentemente meio durão como Amyr Klink. O filme estreia nas salas de cinema no dia 29 de outubro.

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade